VÍDEO: MURILO CAMPANHA CONTA ITATINGA

O psicanalista Murilo Campanha fala sobre Itatinga, um dos maiores bairros de prostituição da América Latina, onde ele tem seu consultório.

O nadador

Uma crônica de Hugo Ciavatta.

Ainda que as bolachas falassem

Crônica de Fábio Accardo sobre infância e imaginação

Ousemos tocar estrelas

Uma reflexão de Thiago Aoki.

Entre o amarelo e o vermelho

Uma crônica de Hugo Ciavatta

O homem cordial vinhedense

A classe média vai ao barbeiro. Uma crônica de Caio Moretto.

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Equação dos Machos Perdidos

. . Por Thiago Aoki, com 1 commentário

Para ser alguém, há que se aproveitar da popularidade de outrém. Com isso, embalo na postagem anterior ("Zero, a Bandeira do Zeca", de nosso indigestíssimo Hugo Ciavatta) e também na enfadonha Copa do Mundo para entrar em outra canção numérica, um pouco mais óbvia e menos intertextual, "Regra Três".

Assim diz a letra da canção de Vinícius de Moraes e Toquinho:

Regra Três

Tantas você fez
Que ela cansou
Porque você, rapaz
Abusou da Regra Três
Onde menos vale mais

Da Primeira vez
Ela chorou
Mas resolveu ficar
É que os momentos felizes
Tinham deixado raizes
No seu penar
Depois perdeu a esperança
Porque o perdão também cansa
De perdoar

Tem sempre um dia
Em que a casa cai
Pois vai curtir
Seu deserto vai

Mas deixe a lâmpada acesa
Se algum dia a tristeza
Quiser entrar
E uma bebida por perto
Porque você pode estar certo
Que vai chorar


Neste caso, os próprios compositores já deixaram claro algumas vezes a origem do termo. Ingenuamente, acreditei por épocas, que se referisse a uma expressão algorítima, aquela famosa regrinha de três que forma uma equação, uma igualdade. Entretanto, em show que assisti de Toquinho no ano de 2005, o próprio desfez minha viagem matemática. Regra Três é oriunda do futebol. É a terceira parte da regra, que diz respeito às substituições no decorrer da partida. Assim, "abusar da Regra Três", no contexto da música, é abusar da substituição da mulher "titular" pela "reserva".

A mulher, traída, e o homem, a "curtir seu deserto" - uma das expressões mais tristes da MPB, apesar da ironia da canção - compõem uma letra de advertência e conselho por parte do eu lírico, que chega a recomendar ao amigo chifrador abandonado, que deixe "uma bebida por perto/porque você pode estar certo/ que vai chorar" (parênteses: reparem que, se em vez do Toquinho, esses versos fossem do Reginaldo Rossi, logo tava aí todo mundo dizendo que era brega e pastelão). Voltando ao assunto, o cenário nos remete ao novo livro do ótimo cronista futebolístico Xico Sá. O livro chama-se "Chabadabada - Aventuras e desventuras do Macho Perdido e da Fêmea que se acha". Segundo o autor, o livro traz conjunto de crônicas cujas matérias primas são conversas com garçons, filosofias de buteco, brigas caseiras de vizinhos, barracos entre casais, e outras. Em suas palavras, a ideia é "atualizar para 2010 uma situação que existe desde Adão e Eva".

No limite do politicamente incorreto e da ironia que vai do fino ao escrachado, passando pela brincadeira com grandes pensadores e filósofos, as crônicas de Xico Sá são deliciosas. Neste livro, o autor exercita seu lado pouco conhecido, de estar fora da estreita coluna de esportes da Folha de São Paulo, mas isso não preocupa. Tanto no jornal como no Cartão Verde, programa esportivo da TV Cultura do qual faz parte, Xico já extapolava as quatro linhas, chegando avidamente ao imaginário e cotidiano popular.

Onde entra o "Vida Noves fora Zero", você deve estar se perguntando? Bom, para responder a pergunta e mostrar um pouco mais do trabalho de Xico Sá, deixo-lhes, como lembrança, trecho de uma crônica dentre as tantas presentes em seu novo livro, espero que gostem. Fica também o convite ao ótimo blog do autor, intitulado provocatoriamente como "O Carapuceiro"..

Ah, esqueci de alertar: há quem o considere machista... Pura Blasfêmia e falta de amor, quer dizer, humor...
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A Arte de pedir em namoro
Xico Sá

É namoro ou amizade? Rolo, cacho, ensaio de amor, romance ou pura clandestinidade? “Qualé a sua, meu rapaz?!”, indaga a nobre gazela. E o homem do tempo nem chove nem molha. Só no mormaço, só na leseira das nuvens esparsas.

No tempo do amor líquido, para lembrar o título do ótimo livro de Zygmunt Bauman sobre a fragilidade dos encontros amorosos de hoje em dia, é difícil saber quando é namoro ou apenas um lero-lero, vida noves fora zero... (Clique aqui para ver a crônica na íntegra)

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Zero, a Bandeira do Zeca

. . Por Hugo Ciavatta, com 12 comentários



- E aí, como é que tá?!
- Ah, sei lá... Noves fora zero... sei lá...
- Cara, que verso mais estranho do Zeca Baleiro, né?! Que significa isso?!
- Pois é, sei lá, por isso deve ter vindo na cabeça, sei lá...

Tudo bem, tudo bem, é ridículo responder “noves fora zero”, mas o verso obscuro nem é de Zeca Baleiro. O cúmulo do ridículo é repetir a resposta outra vez, e muita falta de criatividade, além do mais. Porém, na segunda vez, encontramos uma resposta para o tal obscurantismo do verso. Ele não é do cantor e compositor maranhense, mas de outro ilustríssimo nordestino, pernambucano, Manuel Bandeira. O poema é Belo belo II, que diz assim:

Belo belo minha bela
Tenho tudo que não quero

Não tenho nada que quero

Não quero óculos nem tosse

Nem obrigação de voto

Quero quero

Quero a solidão dos píncaros

A água da fonte escondida

A rosa que floresceu

Sobre a escarpa inacessível

A luz da primeira estrela

Piscando no lusco-fusco

Quero quero

Quero dar a volta ao mundo

Só num navio de vela

Quero rever Pernambuco

Quero ver Bagdá e Cusco

Quero quero

Quero o moreno de Estela

Quero a brancura de Elisa

Quero a saliva de Bela

Quero as sardas de Adalgisa

Quero quero tanta coisa

Belo belo

Mas basta de lero-lero

Vida noves fora zero
.


De qualquer modo, de Zeca Baleiro, ou de Manuel Bandeira, que significa “noves fora zero”? E a resposta que seguia a lembrança de Manuel Bandeira, então, foi de que era algo a respeito de matemática. Como quando se faz uma conta de subtração. No entanto, a explicação parava por aí. Compreensível, afinal, depois de alguns anos fora de uso, o cérebro perde a "matematice", capacidade de realizar operações matemáticas, senão completamente, pelo menos essa parte deve ficar adormecida, sonolenta.
Neste instante, o eterno amigo Google ajuda mas não resolve. Oras, de uma vez por todas, qual é o sentido de “noves fora zero”?? É apenas uma confirmação, só pra ver se a conta realizada está correta. Melhor, desse modo, ver a letra de Zeca Baleiro, cujo nome, não por acaso, é Bandeira:

Eu não quero ver você cuspindo ódio
Eu não quero ver você fumando ópio, pra sarar a dor

Eu não quero ver você chorar veneno

Não quero beber o teu café pequeno

Eu não quero isso seja lá o que isso for

Eu não quero aquele

Eu não quero aquilo

Peixe na boca do crocodilo

Braço da Vênus de Milo acenando tchau

Não quero medir a altura do tombo
Nem passar agosto esperando setembro,

se bem me lembro
(só pra rimar é f...)
O melhor futuro este hoje escuro
O maior desejo da boca é o beijo

Eu não quero ter o Tejo escorrendo das mãos

Quero a Guanabara, quero o Rio Nilo

Quero tudo ter, estrela, flor, estilo

Tua língua em meu mamilo água e sal

Nada tenho vez em quando tudo

Tudo quero mais ou menos quanto

Vida, vida noves fora zero

Quero viver, quero ouvir, quero ver


Se é assim, quero sim, acho que vim pra te ver.


O parênteses em negrito é meu, não resisti. Mas o que interessa, de fato, é a intertextualidade da canção com o poema. Talvez, além de outras referências, ambas recordem uma espécie de balanço do vivido, entre aquelas coisas que se têm, mas não se quer, e aquelas que não se vive, mas se deseja.
Outros versos de Baleiro, dessa vez na divertida canção dele e de Chico César, Eu Detesto Coca Light, recolocam a mesma perspectiva no trecho: “Tolerância zero, fome zero, coca zero/ No quartel do mundo, eu sou o recruta zero/ Quero, quero tanta coisa/ E só me dão o que não quero.
E Zero também é um recruta, como disse a letra acima, só que no quartel de Mort Walker, cartunista estadunidense. No Brasil, Beetle Bailey tornou-se o Recruta Zero e ficou conhecido pela enorme preguiça bem humorada que carrega no exército.

(fonte: http://rodrigojoaquim.wordpress.com/category/tirinhas/)

E por aí vai, porque Noves Fora é nome de outra canção, de Fagner e Belchior, linda – impossível não ser assim – na voz de Elis Regina. Outra vez, alguns versos estão entre somas, subtrações e divisões: “É tudo ou nada/ Noves fora, nada/ A tua falta somada/ A minha vida tão diminuída/ Com esta dor multiplicada/ Pelo fator despedida.
E, por fim, o "zero" é letra também de Noel Rosa, só que sem o "noves fora". Mesmo assim, será que, entre "noves fora zero", somos todos Tipo Zero:

Você é um tipo que não tem tipo
Com todo tipo você se parece

E sendo um tipo que assimila tanto tipo

Passou a ser um tipo que ninguém esquece

O tipo zero não tem tipo


Quando você penetra no salão

E se mistura com a multidão

Esse seu tipo é logo observado

E admirado todo mundo fica

E o seu tipo não se classifica

E você passa a ser um tipo desclassificado

O tipo zero não tem tipo não.


?
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Obrigado, Lucas Jardim, que se lembrou de Manuel Bandeira, da canção interpretada por Elis Regina, e ainda tentou explicar "noves fora zero"!

domingo, 20 de junho de 2010

Coluna do Leitor - RES COGITANS

. . Por Mistura Indigesta, com 2 comentários

RES COGITANS

Desequilíbrio
Escorregadio.


As sereias cantam

Em hirtas cordas:

‘Ego sum’.


O caos enlaça os dedos

Nos cabelos;

Num golpe brusco

Arremessa o crânio

Ao chão.


Na nuca pensa,

O vapor do vazio

Escapa ao bueiro,

Sussurrando:


‘Ego sum’...


Migalha.

Monolito.


Sou o Deus à revelia.



Felipe Bier Nogueira é o poeta Nowhere Man de Nowhere Land. Migrou de hospício recentemente, quando trocou o IFCH pelo IEL da Unicamp, fazendo inveja aos amigos e mestrado em Teoria Literária. É voz e baixo da banda Oito Mãos, que lança o primeiro Cd, Vejo Cores Nas Coisas, dia 21 de junho na Livraria Cultura de Campinas.

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Se você também quer participar de nossa Coluna do Leitor, basta enviar seu texto (conto, crônica, crítica cultural, poesia, etc, enfim, qualquer coisa, mas não force a amizade, por favor, desde que seja "qualquer coisa" legal! Exatamente, somos bem precisos quando temos que especificar algo... - risos!) para misturaindigesta@gmail.com

sábado, 19 de junho de 2010

Saramago, amargo mago.

. . Por Thiago Aoki, com 2 comentários

Uma vez, ainda no colégio, questionando a imposição da leitura dos livros clássicos no ensino médio, perguntei ao professor de literatura qual seria o autor contemporâneo, vivo, que a disciplina estudaria daqui a cinquenta anos. Ele me respondeu que, de certo mesmo, apenas Gabriel García Marquéz e José Saramago. Ainda não estava preparado pros "100 anos de solidão" então peguei o único título que havia de Saramago na pequena biblioteca: "Evangelho segundo Jesus Cristo". O título não me entusiasmou, mas quando comecei a lê-lo, meio que para não dizer que não havia tentado, fiquei pasmo diante da primeira cena, o sexo entre José e Maria. Ainda incomodado com a linguagem que ignora travessões e abusa de vírgulas, só depois de dez, quinze páginas consegui o ritmo normal de leitura. Posteriormente, em uma entrevista ao Roda Viva, o autor alertaira aos que o condenava por tal hábito: bastaria ler seu texto em voz alta para conseguir entender sua linguagem. Mais que isso, jamais permitiu que se traduzisse seus livros em países de origem portuguesa.

A morte de Saramago, como esperado, tem causado uma polarização banal entre adeptos e críticos. Simpatizantes de Cuba e Simpatizantes da Veja. Ateus e criacionistas. Comunistas e Neoliberais. Defensores e críticos da Nova Reforma Ortográfica. Saramaguistas e Antunistas. Porém, para mim, o que mais me marca e me atrai em Saramago não é nenhum de seus posicionamento diante de tais polêmicas. O que mais me marca em Saramago são os disparos a queima roupa cujo gatilho suas palavras puxavam mirando o senso-comum. É a maestria com que ele pegava o que estava dado e questionava, seja em romance ou discursos. Saramago, para mim, eternizar-se-á como um provocador, que desfigurava cada certeza, cada normalidade. Tudo aquilo que quase em consenso aprovamos - tal qual democracia, utopia, Deus, linguagem - é passível de questionamento. Segui à risca a máxima de Nelson Rodrigues: toda a unanimidade é burra. E diante da veemência que pulsava de cada frase, pouco importa se comunista ou reacionário, realistas ou fantásticos, ateus ou fervorosos, foram Nelson Rodrigues e Saramago.

Em um dos livros do português, "O Homem Duplicado", o personagem principal trava diálogos densos com o "senso-comum" e deste conflito resulta suas ações. É exatamente isso que sinto quando leio ou ouço Saramago, uma batalha mórbida entre minhas crenças e o novo. Talvez o maior exemplo desse arranca rabo tenha sido quando entrei na internet para ler como tinha sido o debate sobre "utopia e realidade", entre José Saramago e Eduardo Galeano, no Fórum Social Mundial de 2005. Esperei o conforto, mas o que o trauma não me deixou apagar da memória em seu discurso foi a leitura das seguintes linhas:

“Se eu pudesse riscava a palavra utopia dos dicionários, mas claro não posso, não devo e nem o faria. Eu penso que nós, e há que reconhecer que os jovens são muito sensíveis à idéia da utopia, mas como toda a gente sabe, digamos, a utopia é algum coisa que não se sabe onde está. O próprio termo está a dizê- lo: U e topos. Portanto, algo que não se sabe onde está. Que se supõe que existe mas não se sabe onde está. Repara: há uma contradição interna no conceito de utopia, sobretudo no uso que se faz dele como algo que, de repente, toda a gente diz ou diz-se muitas vezes, todos nós precisamos de uma utopia. Eu acho que não precisamos de uma utopia.

Então, quando digo que riscaria a palavra utopia e (....) se eu tivesse que substituí-la, então, enfim, substituí-lo-ía por uma palavra que já existe: esta palavra é simplesmente amanhã. É para amanhã o trabalho que hoje se faz. Portanto, coloquemos aquilo que é utopia, aquilo que é o conceito, não o coloquemos em lugar nenhum. Coloquemos no amanhã e no aqui. Porque o amanhã é a única utopia".


Diametralmente distinto do que os efusivos utopistas haviam dito até então. Segundo relatos, alguns na plateia aplaudiram muito, mas a maioria ficou em silêncio, daqueles que sentenciam a dúvida. Há quem diga que os próprios debatedores não se furtaram a admirá-lo diante da fala. Quando se trata de Saramago, é melhor não esperar carinho, e por essa credibilidade, acredito em sua lágrima emocionada ao assistir pela primeira vez o longa de Fernando Meirelles, tão criticado por amantes das formas e cegos do conteúdo.

Saramago se foi, e aqui me lembro da fala da personagem principal do magnífico "Ensaio sobre a cegueira". Com a cidade toda cega, ela era a única que enxergava. Eis que, depois de tantas batalhas e esforços de se viver em um mundo sem lei ou proibições, a população volta a enxergar. A personagem está reflexiva, a olhar de seu apartamento a comemoração e euforia de todos que voltavam a enxergar. Em resposta ao espanto do marido diante de sua frieza perante os acontecimentos, a personagem explica, em um dos mais belos trechos do livro: “Queres que te diga o que penso (...) Penso que não cegamos, penso que estamos cegos, Cegos que veem, Cegos que, vendo, não veem”.

Saramago se foi e, se me sinto reflexivo, é porque penso que se, através de algum milagre ele ressucitasse, talvez pouco se animaria diante do mundo dos vivos, e, olhando para nossa gente, ele diria em tom sereno e reflexivo: "estamos todos mortos, mortos que vivem, mortos que, vivendo, não vivem".



Coluna do Leitor - Dúvida

. . Por Mistura Indigesta, com 1 commentário

Dúvida

A escola não me ensinou, nem minha família
A igreja não pregou e a sociedade não julgou
O partido não doutrinou nem o governo impôs



Ninguém me orientou nem deu palpites
Meu cérebro não foi lavado nem sujo

Não me reprimiram nem torturaram
Nunca me mostraram o caminho certo
Nem o errado
Não me convenceram

A maioria não venceu
Nem democraticamente
Nada fizeram por mim
Ingratos
Nem duvidaram
Nem contradisseram

Não opinaram




Nunca duvidei de nada
Antes.

E agora? Será que penso?
Logo, será que existo?
Consigo?



Lucas Salvador Andrietta, além de poeta mal disfarçado de programador, é frasista e proseador quando não está inventando próverbios. Toca violão, atua eventualmente como coroinha e também participa de vídeos caseiros. Ah, nas horas ociosas ele passa o tempo estudando economia.
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Em Recomendamos, contamos com dois excelente poetas: Nada Direito, de Rodrigo Gomes Lobo, e Nowhere Land, de Felipe Bier Nogueira. São paradas obrigatórias, por favor.

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sexta-feira, 18 de junho de 2010

Copa Chata, Música (i)Legal

. . Por Thiago Aoki, com 1 commentário

A Copa do Mundo freiou por alguns dias as postagens nesse Blog. Tento hoje sair de meu ostracismo literário, aproveitando o jogo entre EUA e Eslovênia, provavelmente tão ou mais péssimo como os demais, em uma copa em que a coisa mais legal tem sido a "supercâmeralenta". O legal é ficar bolando teorias conspiratórias sobre os destinos da Copa, como por exemplo o fato de a África do Sul ter sido praticamente eliminada por um time só de brancos (Uruguai) em um dia símbolo da luta contra o apartheid, 34 anos do massacre estudantil de Soweto. Ou então o gol do Maicon contra a Coreia do norte que foi uma "BOMBA"! (tá, essa foi de mal gosto..) Melhor ainda são as gafes que as TVs adoram cometer nessa época. A mais recente foi aquele canal americano que colocou o mapa da América do Sul enquanto falava da Copa da África, há quem diga que a foto, reproduzida à esquerda seja uma montagem. Com o time razoável dos ianques, talvez eles já estejam melhor no futebol do que na geografia, ou simplesmente estejam demonstrando curiosa dificuldade em enxergar as periferias mundiais.

Voltando às gafes, a moda é o "Cala Boca Galvão". Para quem não sabe foi uma falsa campanha publicitária, difundida pelo mundo, típica de quem não tem o que fazer. Nela, espalhou-se para a gringaiada, via redes sociais, que cada pessoa que escrevesse "Cala Boca Galvão" no twitter doaria U$0,10 para a fundação brasileira que estaria preservando um raro papagaio em extinção da espécie Galvão. A solidariedade foi tanta que a frase foi a mais dita na internet por dias e obrigou o NYTimes a emitir nota desmentindo a falsa instituição de caridade. Pra quem não acredita, veja o genial vídeo "Save Galvao Birds Campaingn". Mesmo assim, ainda acho que a Copa sem Galvão é como BBB sem Bial ou Flamengo sem Obina: fica melhor, mas perde a graça. Aliás, a campanha lembrou o Peru Pequeno, vídeo hit da copa de 2006, quando algum malvado fez com que torcedores japoneses gritassem "Peru Pequeno" efusivamente, sob a justificativa que isso significaria "Zico is the best". Na época, Zico era treinador da seleção oriental.

A internet tem dessas. Aliás, outra boa surpresa que tive na rede, ao buscar músicas para uma viagem, foi a descoberta de Blogs cujos autores disponibilizam discos inteiros para download. Não entrarei aqui na discussão sobre direitos autorais, e o politicamente correto que esquece que é inviável que um CD tenha o valor de 10% do salário mínimo. Mesmo assim, faço questão de divulgar esses Blogs - já inclusos em nossa Sessão Recomendamos - que disponibilizam as músicas sem motivação mercadológica, mas pela paixão pelas canções. Aliás, muito mais legal do que os arquivos para download são as resenhas e crônicas muito bem feitas sobre os artistas e a música. Vamos ao jabá:

Playlist Pessoal - Como o próprio nome já diz, o autor disponibiliza para Download centenas de CDs e músicas que integram seu repertório auditivo pessoal. Mais legal ainda são as coletâneas com misturas temáticas - e perfeitamente idigestíveis - organizadas voluntariosamente pelo autor do Blog. Música e Playlist de ótima qualidade.

Sintonia - Mais um site com diversos CDs disponíveis para download, mas, se visitá-lo, não pare por aí. Informações variadas sobre cantores e conjuntos, bem como histórias dos bastidores da música e áudios pra lá de raros. Destaque especial sobre os artigos e musicais disponíveis sobre a música baiana. Vale a pena entrar em sintonia com esse blog.

Abracadabra - Um trabalho fantástico, penoso e minucioso. Há, neste blog, LPs dos mais diversos, em geral das décadas de 1960/70, do gênero MPB. Todos incrivelmente disponíveis para download gratuito, com excelente qualidade de gravação e remasterização.


Por fim, acho que outro portal que merece nosso respeito é o da gravadora Trama, que tem interesse comercial como todas as outras, mas isso não os impediu de sacar que a música deve, até para se vender um conceito e não apenas o disco, ser mais respeitada. Na onda da impossibilidade de limites da rede, a gravadora deixa discos inteiros prontos para serem copiados, atitude justificada por um Manifesto muito bem escrito. Mais que ideologia, me parece uma resposta coerente, um "se não pode contra eles, jogue com eles".


Falando em jogar, preciso exercitar meu antihegemonismonorteamericano, torcendo pra Eslovênia.


A todos uma boa copa e uma boa música...

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Coisas do interior

. . Por Hugo Ciavatta, com 0 comentários

Faz alguns dias, simplesmente enquanto conversava com meu pai e meu tio, no centro da cidade de Ribeirão Preto, nos aconteceu um feliz encontro. Coisas do interior. Os passantes, volta e meia, eram recordados por ambos, e a mim cabia apenas ouvir, porque nenhum daqueles era do meu tempo, claro. Fisicamente, só chego aos sessenta, se chegar, em quase quatro décadas, já eles, se não chegaram ainda, já ultrapassaram a marca. De figuras lendárias, ricos, ex-ricos, fazendeiros, famílias respeitadas, pés-rapados e agora homens de “sucesso”, ou o inverso, a craques do futebol na cidade, não faltavam velhinhos transeuntes para terem suas memórias procuradas pelos meus “historiadores”. Foi assim que apareceu um simpático ex-jogador do Palmeiras (ou seria Palestra Itália ainda, àquela época?), que depois se transferiu para o Botinha, ou Botafogo F.C. de Ribeirão Preto. Em seguida, Antoninho, como ficou conhecido, seria a primeira negociação do clube da cidade diretamente com o exterior, com um clube italiano.
Antoninho hoje deve ter lá seus mais de setenta anos, mas é um velhinho conservado, como se diz, falante, ativo, bastante sorridente. Quando ele se aproximou da gente, não me lembro porque razão, todos os três, de alguma forma, se conheciam. Coisas do interior. O assunto não poderia ser outro: futebol. Seleção brasileira, Copas do Mundo, grandes craques do passado, o futebol na cidade, e a recente convocação de Dunga eram assuntos que não poderiam faltar. Entretanto, outras reminiscências, recordações, comparações não foram esquecidas, também. Depois de algumas considerações a respeito das atuais dificuldades dos clubes pequenos no futebol, da dificuldade para formar jogadores diante de uma ascensão cada vez mais precoce, Antoninho lembrou um pouco de sua trajetória. Vindo de uma cidadezinha do interior de São Paulo, próximo a Lindóia, pelo que lembro, foi jogar no Palmeiras antes de vir para o Botafogo. Naquele período, final dos anos cinqüenta e início dos sessenta, um jogador de futebol quase não possuía prestígio social. Até pra arranjar namorada era complicado, dizia ele, pois se apresentar para o pai da moça como bolero era assinar o nariz torcido do futuro sogro. A situação é semelhante agora para os sociólogos...
Entre as recordações, o ex-jogador nos contou uma história curiosa, que não deixa esquecer as sucessivas maiores transações do futebol mundial (a última, se não estou enganado, é a de Cristiano Ronaldo, do Manchester United ao Real Madrid). Antoninho, quando foi negociado com o Fiorentina da Itália, na década de 60, nos lembrava da dificuldade que foi para receber a sua parte na negociação, porque, difícil imaginar hoje, não havia banco na cidade de sua família. A retirada do dinheiro teve de ser feita em São Paulo, só depois o montante viajou para o interior. A surpresa maior ainda estava por vir, já que quando chegou ali, na armazém da família, o avô dele, ao ver o pacote de notas sobre o balcão, arregaladamente perguntou: “Quanto será que pesa isso?!”. Coisas do interior.

Anos atrás, li aquele A Hora da Estrela, de Clarice Lispector. Demorei um bocado, apesar do livro ser curtinho, pois me foi uma leitura arrastada. Já no começo fica bem confuso, e nem por isso menos bonito, marcante. São os devaneios do narrador Rodrigo S.M. que, de cara, lança um "Tudo no mundo começa com um sim" e desembesta em reflexões existenciais, desfazendo um possível lirismo romântico da oração inicial. Nesse caso, ao invés de tentar descrever, talvez seja melhor apenas transcrever: "Enquanto eu tiver perguntas e não houver resposta continuarei a escrever. Como começar pelo início, se as coisas acontecem antes de acontecer? Se antes da pré-pré-história já havia os monstros apocalípticos? Se esta história não existe, passará a existir. Pensar é um ato. Sentir é um fato. Os dois juntos - sou eu que escrevo o que estou escrevendo. Deus é o mundo. A verdade é sempre um contato interior e inexplicável. A minha vida, a mais verdadeira, é irreconhecível, extremamente interior e não tem uma só palavra que a signifique." Foi assim que conheci Clarice Lispector (algumas obrigações colegiais a gente agradece), que intriga, angustia e encanta ao mesmo tempo. Porém, se o trecho citado, por exemplo, dentre outros, pode ser profundo, denso, obscuro, sufocando diante de questões tão viscerais, como "coisas do interior", outra oração do livro, já em seu final, à época e ainda hoje, tomara que sempre, muito me inquieta: "Qual é o peso da luz?".
Macabéa, a personagem do livro é... macabéa. Clarice Lispector não somente deu nome a personagem, criou um adjetivo, ora, Macabéa é macabéa, simplesmente. É pobre, pobre de existência, possui uma simplicidade que humilha a si e ao leitor, é insignificante e desprezível, ou seria insignificada e despercebida, numa miséria que não se restringe ao material, pois poderia ser rica e rodeada de bens e permanecer asquerosa. A vida de Macabéa, ela própria, seus interlocutores, diálogos, relações, tudo parece retirado de uma enorme crueldade. Uma violência literária, com a qual a autora resseca, esquadrinha uma personagem para, por fim, mostrar o quanto somos todos macabéa. Vazios.
E, no desfecho do romance, entre os sonhos de glamour de Macabéa, se realiza, ou se atualiza a sua tragédia, ela é morta atropelada. Momento, então, de encontro com uma glória inventada (e qual não é?) e descrita magnificamente por Rodrigo S.M., como se os sentimentos faltantes da história e do mundo narrados, a esperança em relação ao futuro e a beleza do Amor, por exemplo, cruzassem o cenário, ironicamente, para mostrarem as suas ausências, suas inexistências. Rodrigo S.M. pergunta, enfim: "Qual é o peso da luz?". Peso e principalmente luz que depois fui descobrir que pode ser a fama, a celebrização, o reconhecimento, o ser Marilyn Monroe que Macabéa tanto gostaria acontecendo justo na sua morte.

Vale o quanto pesa? Uma nota de cem vale mais que dez moedas de um real, apesar da nota ser mais leve. O valor é simbólico, pessoal e socialmente atribuído. Coisas pesadas ou leves podem valer, ambas, muito, ou absolutamente nada. E quem dá o peso, a Física, a massa dos corpos? Acho que não... A fama, por exemplo, não se "pesa" objetivamente, ainda que ela seja medida a torto e a direito, e tem um valor, muitas vezes, "furado". Clarice Lispector, sim, é "pesada" e possui um interior triste, melancólico e, mesmo assim, de um valor que só a beleza pode atribuir.

terça-feira, 8 de junho de 2010

Coluna do Leitor - Um Futebol de Domingo

. . Por Thiago Aoki, com 3 comentários

Um futebol de domingo
por Daniel Gorte-Dalmoro

Era para ser uma pelada de domingo de manhã, nada mais. E dava a impressão de que assim seria. Estávamos em cinco e esperávamos por mais gente, para completar dois times e começar a jogar. Batíamos bola – uma bola de futebol society – enquanto isso. Foi quando chegaram duas pessoas mais, uma delas trazendo uma bola de salão (não por acaso mais apropriada para quando se joga futebol de salão). Trocamos de bola para continuar aquecendo. E quando a bola de salão parou nos meus pés, senti que o que eu tinha ali não era uma bola, mas meus doze, treze anos. A partir desse instante, pela próxima hora, aquele não seria mais um simples jogo de domingo de manhã, mas meus velhos jogos de fim de tarde, de segunda à sexta, quando a chuva não caía bem na hora e tirava o ânimo de subir o morro.

Olhei para o lado, onde estavam o Pilati, o Fido, o Tobias, o Rodolfo, o Odená – que tinha um fusca pintado igual ao do filme Se meu fusca falasse, e, por ser mais velho, se sentia no direito de não jogar no gol –, o Cristiano (que tudo mundo queria pro seu time, já que não se incomodava em jogar de gol), entre outros?

Esperamos um tempo mais, ver se chegava mais alguém. Não chegou. Chamamos algumas pessoas que também procuravam mais gente para jogar. Olhei um tanto receoso: na minha experiência de mais de uma década atrás, gente que vem de fora costuma jogar mais sério, dar mais porrada, reclamar mais. Foi isso que acabou com aquele grupo que por três (ou seriam quatro?) anos se reunia quase religiosamente às 17h30 na quadra do meio do Patão, de segunda à sexta.

Contudo, os tempos são outros, e o grupo é outro também. Não é só uma década que me separa daquele grupo, como uns mil quilômetros de distância, em média. Mas alguma coisa ali me fez me sentir que eu era o mesmo. A bola pesada na quadra de cimento, na qual é bom não cair para não se ralar? Eu na ala esquerda lamentando que não sei rodar e tentando ver se alguém no meu time tinha afinidade ao jeito que eu jogo? De qualquer forma, tratei de jogar como jogava antigamente (e como ainda jogo atualmente): para me divertir, desestressar e não para arrumar briga. Coisa que aprendi com o tempo e não sabia aquele tempo: tratei de ignorar e mesmo fazer piada e rir do colega de jogo que não parava de reclamar: estava lá para brincar e nada mais. E como toda brincadeira, jogava sério o suficiente para marcar gols e descontraído o bastante para não me incomodar em perder ou ganhar. Perdi o jogo, mas saí me achando o melhor em campo, como todo mundo.

Na volta, voltei tentando encontrar a escola onde estudei na pré-escola, a Associação de Pais e Mestre, onde casais mais ou menos na mesma idade que eu se escondiam para subverter os costumes – ou ao menos assim pensavam fazê-lo –; a casa onde morava uma família de negros (isso é marcante em uma cidade onde praticamente todo mundo é branco de ascendência italiana ou alemã), a casa onde tinha um são bernardo, a outra em que um dia eu tinha entrado para ver um tucano; a casa dos padres, quase caindo aos pedaços, e a dos Nezelo, que tinha um carrão antigo, banheirão, com velocímetro em milhas e marcha do lado do volante, e um porão cheio de peles (e pulgas). Eu me pergunta se iria assistir tv ou jogar mega-drive ao voltar para casa. Quem sabe passar na locadora alugar uma fita?

Porém não foi isso que encontrei pelo caminho. Encontrei uma avenida vazia, que pelo silêncio até lembrava o caminho de outrora até minha casa. E foi tudo. Pouco depois de vencer essa avenida, ao me deparar com ruas mais movimentadas, me deparei também com os pequenos desrespeitos quotidianos que preciso engolir diariamente. Eles foram me trazendo de volta para a casa de agora. Quando finalmente abri a porta, senti uma dor nas costas – antigamente eu não me contundia a cada jogo que jogava –, e me vi preocupado com o que fazer para o almoço. Eu voltava a 2008. 1995 ficava perdido em algum canto da minha memória, esperando ser iluminado por uma próxima bola de salão em uma quadra de cimento sob o sol de primavera.

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Daniel Gorte-Dalmoro é mais um raro pensador vivo, escreve crônicas - como essa, escrita em 28/09/08 - no Blog cOmportamento gEral, é um dos idealizadores e executores do projeto Casuística e já se atreveu a criar e manter o famigerado Trezenhum. Dentre tantas heresias, a maior é ser assíduo frequentador do Mistura Indigesta. Como recompensa por tal sacrifício, coloca também em seu currículo o fato de estreiar a nossa Coluna do Leitor. Se você quer participar, basta enviar seu texto (conto, crônica, crítica cultural, etc) para misturaindigesta@gmail.com

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Bienal 2010 - Política, Rua e Rebolation

. . Por Thiago Aoki, com 1 commentário

Saiu, ontem, a lista de convocados para o evento que movimenta milhões e o Grafite está na lista. Poderia ser a seleção do Dunga, mas estou me referindo à Bienal 2010. Além da lista dos 148 artistas, os organizadores da Bienal afirmaram, em entrevista coletiva, que buscarão, neste ano eleitoral, uma exposição que possua olhar amplo para a política.

Prova disso é a confirmação da presença de pichadores, muitos deles idealizadores da fatídica intervenção no ano de 2008 - fato já analisado amplamente em postagem anterior. Como afirma o curador Agnelo Farias, "não tenho certeza se é arte ou não, mas certamente o trabalho deles é político". A organização também deixa claro que a presença dos pichadores se dará através de apresentações de seus trabalhos, por vídeos, fotografias, slideshows, afinal "não faria sentido convidá-los para pichar nem eles queriam ser cooptados pela instituição". Para este blogueiro, decisão mais que acertada, não só por da voz a novos atores culturais, como também por não fazer de gabinete uma expressão artística cujo cerne é o questionamento veementemente do "status quo" cultural.

Outro ponto alto da exposição deverá ser a homenagem ao aniversário de 30 anos da morte de Hélio Oiticica. Nada mais justo para uma Bienal que se proponha a falar sobre arte e política, intesecção tão bem feita pelo artista brasileiro, de referência internacional. Oiticica, que se considerava um anarquista, fazia questão de mostrar que a arte deveria extrapolar as paredes e chegar ao povo e às ruas. Neste sentido, levava consigo os famosos dizeres: "Seja Marginal, Seja Heroi". Com esse espírito, por exemplo, foi expulso do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, em 1965, por levar integrantes da Mangueira vestidos com "Parangolés" - isso mesmo, pasmem, o mesmo nome da banda que lançou o hit Rebolation. "Parangolé" fora uma invenção do artista plástico que consistia, nas palavras do Wikipedia, em "uma espécie de capa (bandeira, estandarte ou tenda) que só mostra plenamente seus tons, cores, formas, texturas, grafismos e os materiais com que é executado (tecido, borracha, tinta, papel, vidro, cola, plástico, corda, palha) a partir dos movimentos de alguém que o vista. Por isso, é considerado uma escultura móvel". Vale lembrar também que a ideia dos parangolés foi inspirada em panos usados por mendigos do Rio de Janeiro. Sim, Rebolation, além de bom bom bom, também é cultura.


Documentário de Ivan Cardoso, 1979

Fora os "Parangolés", outra figura marcante da obra de Oiticica são os "Penetráveis", labirintos nos quais o espectador, ao entrar, interage de modo sensorial, através de olfato, paladar, visão e audição. Mostrando que para além da relação unilateral de contemplação, o público deve ser ativo e interferir no desenrolar da obra cujo funcionamento depende da atitude do próprio público. Deste modo, Oiticica brinca com a inércia e conformismo das pessoas, que simplesmente aceita o que lhes é imposto.

Oiticica foi um dos inspiradores e integrantes do Movimento Neoconcreto e Tropicalista, o qual considerava a "primeiríssima tentativa consciente de impor uma imagem 'brasileira' ao contexto da vanguarda". Infelizmente, no final de 2009, um incêndio destruiu mais de duas mil obras do artista, cerca de 90% de seu acervo que se encontrava na casa de seu irmão.

Sobre o desafio de abordar a obra de Oiticica em uma exposição como a Bienal, Moacir dos Anjos, outro curador, afirma que “serão dois conjuntos. Um deles terá o pensamento de Hélio sobre o que é ser herói, o que é ser marginal e seus ecos na arte de hoje. O outro recorte trará os projetos de utopia e distopia do artista, que serão vistos lado a lado de projetos do mesmo teor de agrupamentos como o Archigram [grupo de arquitetos britânicos utópicos, formado nos anos 60] e o Superstudio [grupo de arquitetos italianos utópicos, formado nos anos 60]”.

De qualquer modo, embora não saibamos o resultado de tudo isso, a Bienal 2010 -, que conseguiu multiplicar seus recursos de R$8 milhões (2008) para R$30 milhões (2010) devido à "adesão da sociedade" (leia-se: dinheiro dos empresários) - indica, nas suas preliminares, que certamente não será conhecida como Bienal do vazio. Melhor ainda, não só incorpora ao seu enredo novos "conceitos", mas principalmente novas práticas artísticas. Práticas essas que inclusive, metalinguisticamente, questionam a própria tradição da exposição. Junto com os pichadores, Oiticica invade a Bienal e picha em suas paredes, com letras garrafais e indefinidas, outra de suas frases favoritas, título de um de seus manifestos sobre o lugar da arte: "O Museu É o Mundo".

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