VÍDEO: MURILO CAMPANHA CONTA ITATINGA

O psicanalista Murilo Campanha fala sobre Itatinga, um dos maiores bairros de prostituição da América Latina, onde ele tem seu consultório.

O nadador

Uma crônica de Hugo Ciavatta.

Ainda que as bolachas falassem

Crônica de Fábio Accardo sobre infância e imaginação

Ousemos tocar estrelas

Uma reflexão de Thiago Aoki.

Entre o amarelo e o vermelho

Uma crônica de Hugo Ciavatta

O homem cordial vinhedense

A classe média vai ao barbeiro. Uma crônica de Caio Moretto.

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Andy Warhol I - Os dois lados da moeda

. . Por Caio Moretto, com 2 comentários

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Por que parece certo dizer que Jota Quest é pop, mas o samba é popular (ao menos comparativamente)? O pop parece esconder um lado comercial, com um que de arte feita para o consumo.

Entre o diretor de arte e o artista, a publicidade e a arte, onde está Andy Warhol? Sua obra é uma crítica à sociedade de consumo ou é uma arte feita para ser consumida? É arte?

Há fumaça, mas reluz.

Engels observou que as nações possuem a classe dominante que merecem, e o mesmo é válido para Warhol, que devolvia à sociedade americana sua imagem refletida em toda sua glória fraturada.

A observação é de Philip Larratt-Smith, curador da exposição Andy Warhol – Mr. América, em entrevista consedida à Gisele Kato, da BRAVO!.

Warhol é a arte que evidencia o culto à marca e à fama.

Há fogo, mas não é ouro.

Warhol é também a busca desespero pela fama e pela criação de sua marca pessoal, o nome Andy Warhol.

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Silk screen Most wanted men (homens mais procurados) ao lado da Print Screen do site da Interpol, que adicionou recentemente Paulo Maluf à lista de homens procurados.

A declaração de Andy à respeito da série Most Wanted Men é muito boa. Não anotei as palavras exatas, que estão expostas ao lado da peça no Mr. America, mas a mensagem era: eles venceram. Não importa se são criminosos. Eles conquistaram a fama e é melhor ser um criminoso bem sucedido do que ser ninguém.

Os dois lados da moeda

A sabedoria popular parece ter os dois lados da moeda, de forma que sempre haverá um ditado para negar o anterior.

Quando pensamos assim o conselho fica tão pessoal quanto popular. Os ditados viram uma linguagem por meio da qual nos expressamos.

A arte é pessoal e subjetiva, mas nunca é alheia ao contexto em que foi feita.

Mas o pop não é o popular.

O popular são os dois lados, a dialética e a constradição.

O pop é a moeda.

Andy Warhol II – O Papa do Pop

. . Por Caio Moretto, com 1 commentário

A possível convergência das mídias, a impossibilidade da independência artística e outros temas correlatos estão cada vez mais em pauta. O lado do artista fazendo publicidade e do status de arte sendo atribuído à peças publicitárias não é novidade. Depois dos cartazes de Toulouse Lautrec, Warhol talvez seja o maior exemplo de publicidade reconhecida como arte. O que vemos hoje parece a evolução dessa mistura. Filmes como Náufrago e Amor Sem Escalas, que apesar da qualidade incontestável, parecem propagandas em longa metragem. E pagamos para ver essa publicidade, afinal ela também é entretenimento e, quiçá, arte.

Como publicitário, preciso dizer: apesar de toda dessa mistura indigesta entre o artistico e o comercial é muito difícil chegar perto de algo parecido com a liberdade artística em publicidade. Porque em última instância é preciso vender, seja uma imagem, seja um produto. E é preciso vender com eficiência e resultados mensuráveis. A arte do publicitário é dar soluções criativas para problemas empresariais. A do artista, teoricamente, não. Ele pode procurar soluções criativas para problemas subjetivos, seja de nossa sociedade ou de suas inquietações pessoais, ou pode simplesmente apresentar novos problemas e perguntas.

Antes que o fio condutor se perca em desabafo, vamos voltar para o Andy. A constatação é simples. Ele era procurado para criar. E a marca Andy Warhol foi tão bem elaborada, que, mesmo quando havia um contrato e um fim comercial por parte do contratante, ele não tinha a obrigação de apresentar soluções para a marca, para o produto ou para o marketing do produto. Ele precisa fazer sua arte e apresentar apenas soluções estéticas, praticamente sem restrições.

Sempre achei muito difícil ver Warhol como arte, mas também tenho achado que não dá para jogá-lo para o outro lado.

A simplificação reduz demais a complexidade desse fenômeno que foi Andy Warhol, mas não deixa de ser interessante reparar nas classificações que o apontam ora como o mais vendido dos artistas, ora o mais livre dos publicitários.

jaggerEssa carta de Mick Jagger para Warholjá circula pela internet há algum tempo e é um ótimo exemplo desta situação.

Querido Andy,
Estou muito feliz pelo fato de você poder fazer a arte do nosso novo álbum de hits. Aqui vão duas caixas de material que pode ser usado, e o álbum.
Na minha curta experiência, quanto mais complicado o formato do álbum, por exemplo, mais complexo do que páginas ou um encarte dobrado, pior é a produção e mais agoniantes os atrasos. Dito isso, deixo em suas mãos capazes a permissão de fazer o que quiser… e por favor, escreva de volta para dizer quanto dinheiro você quer.
Sem dúvida o Sr. Al Steckler vai contatá-lo em Nova York com mais informações. Ele provavelmente vai parecer nervoso e dizer pra você se apressar, mas não dê bola.
Com amor,
Mick Jagger

(via ideiafixa)

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Morte, fama e consumo. Os três temas constantes das obras de Wahrol parecem estar ligados de muitas maneiras em sua obra, em sua vida e na sociedade que vivemos.

Na exposição que passa pelo Brasil vemos, na descrição das cadeiras elétricas uma citação de Andy, na qual ele revela que a repetição acaba com o significado.

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As figuras de Che ou de Bob Marley estampada nas camisetas parece um bom exemplo.

lgpo7028 che-guevara-1962-pop-art-revolutionary-figure-poster Ao contrário do que possa parecer, essa silk-screen de Che Guevara não é de Andy, mas de Gerard Malanga.

I don't know how that affects the arts world. Art has become commerce. Big Business. Andy would love that.

Tradução livre: “Eu não sei como isso afeta o mundo das artes. Arte se tornou comércio. Grandes negócios. Andy teria adorado isso.” (link para a íntegra)

O site http://www.warholstars.org tem um impressionante acervo de artigos e links sobre Warhol. Passeando por lá encontrei essa divertidíssima história de Malanga, que teria vendido essa peça como sendo autêntica de Andy. Desconfiado, o negociante escrevera à Warhol solicitando a confirmação e dizendo que o poeta (Malanga) seria pego no “estilo italiano” e mandado para a cadeia caso estivesse mentindo. Warhol garantiu a autoria para defender o amigo mas acrescentou que todo o dinheiro deveria ser enviado diretamente para ele diretamente já que “Mr. Malanga was not authorized to sell the artwork” (Sr.Malanga não era autorizado à vender as obras de arte).

Após o primeiro incidente, Andy ficaria desconfiado que outras falsificações teriam sido feitas e vendidas por Malanga como pode ser lido em trechos de seus diários e outros depoimentos. Entre as falsificações haveria, inclusive, uma Eletric Chair, como as que acabamos de ver acima. (link)

Afogando na própria sopa

As capas da Esquire por George Lois são sensacionais. Famosas por suas montagens e pela forma irreverente de desconstruir as celebridades, elas se tornaram um marco na história da edição de revistas. Provavelmente voltarei a fazer um post apenas sobre Lois, mas não poderia deixar de apresentar aos que não conhecem essa fantástica capa em que Andy Warhol afoga-se na sua própria sopa Campbell. Selecionei alguens trechos de depoimentos de George Lois sobre esta capa e sobre Warhol que encontrei na rede.

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“This was hot shit. The article was basically a caustic review about what was going on in the arts in America at the time, and without even reading it, I knew I wanted Andy Warhol drowning in his own soup. I just had the image in my head. And I called him, and said, ‘Andy I want you on the cover ofEsquire.’ And he said, ‘Wait a minute, George, you always have an idea on the cover, what’s the idea?’ And I told him, and he said, ‘I love it!’ When Andy saw it, he lost his mind. He kept saying he wanted to trade me for the original art, he’d give me some Brillo boxes, a Campbell Soup painting. He was after me a month before he died, he was still trying to trade me. I told him I don’t want to trade, ‘cause someday that’s going to hang in the MoMA.' And he said, ‘Oh, I’d love to see it there! Me hanging in the Museum of Modern Art!’ Which is so funny, because now there’s twenty goddamn Warhols in the Museum of Modern Art.”

"Isso era quente. O artigo era basicamente uma revisão candente sobre o que estava acontecendo nas artes nos Estados Unidos na época, e sem sequer ter lido, eu sabia que queria Andy Warhol afogando em sua própria sopa. Eu tinha apenas a imagem na minha cabeça. E eu o chamei e disse: Andy, eu quero você na capa da Esquire. E ele disse: Espere um minuto, George, você tem sempre uma idéia para a tampa, qual é a idéia? E eu disse a ele, e Ele disse, Eu adorei. Quando Andy viu, ele perdeu a cabeça. Ele continuou dizendo que queria negociar comigo pela arte original, ele ia me dar algumWarholas de suas caixas da Brillo, a pintura da Campbell Soup. Ele estava atrás de mim, um mês antes de morrer, ele ainda estava tentando negociar comigo. Eu lhe disse que não queria negociar, porque um dia isto estará pendurado nas paredes do MoMMoMAA. E ele disse: Oh,  eu adoraria vê-lo lá! Eu pendurado no Museu de Arte Moderna! Que é tão engraçado, porque agora há vinte Warhols maldita no Museu de Arte Moderna.”

Traduzi também livremente dois trechos desta outra declaração de George Lois (ao lado) sobre Andy.

O símbolo que permeava todo o movimento Pop Art daquela época era a lata de sopa Campbell, de Warhol. Eu nunca consegui enxergar a Pop Art como um movimento sério.

Não há dúvidas, no entanto, que Warhol era um showman da primeira divisão. Qualquer cara que consegue transformar uma lata de sopa em celebridade pode não encaixar na minha definição de artista, mas é certamente algo quente. 

 

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As histórias acerca de Andy Warhol parecem inesgotáveis. Caso tenha despertado em você uma curiosidade de saber mais sobre a vida e a obra de Andy Warhol visite a exposição Andy Warhol - Mr. América, na Estação Pinacoteca e não deixe de procurar as as histórias do Factory (eu começaria por aqui), de Nico e a banda The Velvet Underground e de Valerie Solanas, que tentou matar Andy Warhol.

 

Afinal o que é Rock’n Roll, os óculos do John o olhar do Paul?

Finalizamos com essa ótima foto, que talvez até fosse realmente rara (como dizem outros blos) antes antes de cair na rede. Nela vemos Yoko Ono e os dois papas do pop Andy Warhol e John Lennon, ambos vítimas de tiros à queima roupa.

O pop não poupa ninguém.

Dia Onze são Vinte e Três

. . Por Hugo Ciavatta, com 3 comentários

É irritante o tanto que se fala sobre isso e, irritado, resolvi então dar o meu palpite. Porque dia 11 de maio é uma terça-feira pós Dia das Mães. E estarão contentes e orgulhosas vinte e três mamães, aquelas que terão seus filhos na lista do ex-capitão do tetra, agora técnico da seleção brasileira de futebol, Carlos Caetano Bledorn Verri, o Dunga. Nos últimos dias, o comandante das camisas amarelas soltou uma "pérola" digna de nota, e bem explorada já por muitos também. Quem mais o fez com bom humor e classe foi Xico Sá. Mas falou o Dunga mais ou menos assim: “No futebol não há surpresas, quem trabalha com futebol, quem vive o futebol, sabe que não existe surpresa”. Simplesmente, infeliz. Quando ouvi isso na televisão, a única coisa que me veio à mente foi, “puxa, jurava que gol-contra era uma fatalidade!”, ironicamente.
São-paulino pessimista que sou, registrado em cartório com coração ribeirãopretano e panterino, já imaginava, era previsível, pra seguir os ditames do professor Dunga, que o meu time não passaria pelo Santos da garotada de futebol bonito. Nem era pessimismo, era só um “realismo fatalista”, convenhamos. Parecia impossível, como foi. E outro exemplo logo me veio pra dizer o contrário, calma lá, “o Barça não perde pra esse time da Inter de Milão, pode ganhar de pouco, empatar, mas não perde”. Perder de ‘três a um’ na Itália é que eu não esperava mesmo. Não dava pra dizer que era impossível se classificar jogando em casa, porém era muito difícil, pra qualquer equipe seria - infelizmente, para a fantástica equipe do Barcelona, também -, vencer, obrigatoriamente, por uma grande diferença de gols. Na Itália, parecia nhaca, a bola não estava entrando. É preciso lembrar ainda os méritos da equipe da Internazionale, taticamente quase impecável, de atletas de muita qualidade também. Mesmo assim, torci como uma criança catalã hoje pela equipe grená, com os olhos mais atentos que nunca no Pulga. Como se pedisse, a cada instante, que uma surpresa, paradoxalmente, bastante esperada, por fim, acontecesse. Não deu certo, uma escalação estranha do Barça, com pouca movimentação em campo dos jogadores, ao mesmo tempo que a Inter parecia plantada dentro da área de seu goleiro Júlio Cesar, com "quinze jogadores" de branco, era a impressão que eu tinha. Uma pena, a escola de futebol "de resultado" venceu hoje mais uma vez.
Não conseguia esquecer, só para outra vez contrapor aquela declaração equivocada de Dunga, que nas quartas de final da Liga dos Campeões da Europa, depois que Lionel Messi marcou quatro vezes no Camp Nou, nem ele, nem ele acreditava. As câmeras filmavam ele ainda em campo todo atordoado, rindo. Até o melhor jogador do mundo atualmente, que todos perguntam se é de verdade, se é humano, pois parece fazer coisas impossíveis com uma tranqüilidade absurda, estava fora de si, em êxtase, perdido diante da surpresa que então ali acontecia. Muita gente gosta de se questionar “onde é que ele vai parar?”, quando o melhor seria, “quando é que ele vai começar?”, já que um futebol como o dele e da equipe catalã a gente quer ver sempre, como se estivesse começando, na expectativa de ir ao estádio, sentar em frente a tv e acompanhar contente. Me arrisco: que Messi não pare nem contra a seleção brasileira!
Já que fora de campo a coisa anda pra lá de ruim, é de uma equipe como a do Santos, com Neymar, Paulo Henrique (Ganso) e companhia, de jogadores como foram, para a nossa geração, Zidane, Ronaldo, Ronaldinho (este, quem sabe, ainda pode ser), Romário, verdadeiros inventores, criadores, artistas do esporte, que por enquanto seguimos com vontade acompanhar o esporte. Figuras assim tornam previsível o inusitado.

terça-feira, 27 de abril de 2010

Divulgando - Virada Cultural Apresenta Programação Inusitada em 2010

. . Por Fernando Mekaru, com 1 commentário

Para aqueles que não conhecem, a Virada Cultural é uma iniciativa da Secretaria de Cultura da Prefeitura de São Paulo, inspirada em iniciativa semelhante de algumas capitais europeias, que tem como proposta a execução de inúmeras atividades e expressões culturais na capital do estado de São Paulo durante 24h ininterruptas. O evento é conhecido por sempre apresentar atrações de alta qualidade, pelo alto grau de variação dos programas propostos e pelo público, sempre numeroso.

A programação desse ano apresenta algumas atrações já esperadas (como os já tradicionais palcos de rock e samba). O mais curioso dessa edição, porém, são algumas adições completamente inesperadas - a Virada Cultural 2010 terá, pela primeira vez, espaços dedicados exclusivamente à cultura nerd (na chamada "Dimensão Nerd", na Praça Roosevelt) e à comunidade paulistana do body art (na Galeria Prestes Maia).

Além disso, o Cine Windsor terá uma maratona de filmes do Godzilla (sendo que quase todos não passaram nunca no Brasil), e o Cine Dom José continua com as maratonas de filme de terror, iniciadas no ano passado - a temática desse ano são os lobisomens, ao invés dos zumbis de 2009. O Cine Arouche, estreante desse ano, emplacará uma programação de 24h de musicais - incluindo clássicos obscuros, como Rocky Horror Picture Show, e grandes sucessos mainstream, como Mary Poppins e A Noviça Rebelde.

As tradicionais peças de teatro e shows musicais agora dividem espaço com práticas pouco ortodoxas, como Live Actions de RPG, apresentações de cosplay, suspensão corporal, shibari e o encontro do Conselho Steampunk, em uma inesperada mistura de cultura erudita, popular, urbana, trash, nerd e underground, surpreendendo muito na transição de uma edição a outra.

Essa programação indigesta ajuda a dar força ao evento, que mostra buscar novos públicos e novas expressões artísticas e culturais em práticas que quase sempre são deixadas de lado por serem restritas a um nicho e de serem amplamente desconhecidas entre o grande público. Ainda que não seja a prioridade, a apresentação dessas diversas manifestações de cultura alternativa são louváveis - tanto para variar as atividades da Virada, quanto para mostrar que há sempre muito mais para conhecer e apreciar do que aquilo que o senso comum coloca como cultura e arte.

À organização do evento, os parabéns por planejarem uma programação que ao mesmo tempo que consolida as atividades que deram o formato geral da Virada, ainda por cima abre espaço para novas expressões culturais, buscando a apresentação e popularização entre o público tradicional de atividades e demonstrações culturais que hoje são restritas a certos nichos, mas que possuem tanta validade e capacidade de expressão quanto as artes mais consolidadas e tradicionais.

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Intelectuais e a miséria

. . Por Thiago Aoki, com 7 comentários



"A gente quis, desde o começo, dessacralizar a literatura. Não sei quem disse que a gente odeia ler e que literatura é chato. E a gente quis fazer justamente o contrário, associar ao aplauso, ao barulho à festa, a literatura. Talvez seja por isso que alguns intelectuais e a academia não perdoem a gente, porque não tão gostando de ver palavra bonita na boca de gente feia, né. E isso assusta um pouco as pessoas."

"o que me revolta muito é ir em alguns bairros bons e falar: por que que a gente não tem isso, por que que a gente não tem teatro, por que que a gente não tem livraria?"

"se você analisar, nós [da periferia] estamos vivendo a nossa tropicália, a nossa primavera de Praga. Nós estamos vivendo a nossa bossa-nova."

"hoje você olha na periferia, as pessoas estão procurando pobres, laçando pro edital. Uma coisa meio Glauber Rocha, um pobre na mão e um edital na cabeça"

"esses dias foi uma jornalista muito generosa lá, assistiu o Sarau, me chamou e disse 'Vem cá, eu vou ajudar você a melhorar isso aqui'. Aí, diante de tanta generosidade eu falei: 'Ó, se você não vier mais já começa a ajudar!'"

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Prezado Poeta Sérgio Vaz,

Acabo de me formar na Unicamp, no curso de Ciências Sociais (sociologia). Assisti atrasado, porém atentamente à sua entrevista ao escritor Ferréz, no programa Interferência. Permita-me a reflexão de alguns pontos.

Minha experiência na Academia resumiu-se às pessoas falarem sobre os pobres, sobre os trabalhadores. A grande maioria deles sem nunca ter sido pobre, sem nunca ter trabalhado, dentre os quais me incluo, sem constrangimento... na verdade com um pouco. Mas esse constrangimento se dá porque durante os quatro (se você tiver uma graninha extende até uns cinco ou seis) anos de faculdade aprendemos a idealizar a pobreza. Chico Buarque, guru da intelectualidade artística, junto com Vinícius de Moraes já diziam "Igual a como quando eu passo no subúrbio / eu muito bem, vindo de trem de algum lugar / e aí me dá uma inveja dessa gente / que vai em frente sem nem ter com quem contar". Na Unicamp, o desafio colocado pelos alunos e pesquisadores (boa parte deles) da Sociologia, por definição aquela ciência que estuda a sociedade, é o de "como iluminar o caminho dessa gente", "como ultrapassar a ideologia capitalista que está impregnada na cabeça dos desavisados" para chegar à Revolução. Dizemo-nos contra o assistencialismo e inimigos da elite nacional, sem perceber que nossas teorias, em geral isentas de trabalhos práticos e belas no papel, não fazem mais que reproduzir a apropriação do conhecimento por nossa pequena classe. Somos uma minoria que se vangloria por ler os livros das livrarias que não chegam aos bairros de vocês, de conhecer as peças que não chegam ao palco de vocês. Precisamos disso, de sermos exclusivos, de sermos anti-democráticos, ainda que brandemos, por voiciferação, a democracia ou o socialismo. Afinal, qual a graça de discutir a Folha Mais se todos entenderem o que ali está escrito? Revoltem-se e nós teorizaremos.

Quando saímos da faculdade e vamos para a realidade, mesmo que seja para laçar pobres em editais, percebemos que vivemos, nesses anos universitários que nos fazem ser mais "capacitados" que os demais, um mundinho de mentira. De disputa de ego, teses e conceitos que, fora do mundo das ideias, em nenhum lugar pode ser encontrado. Bora mundo afora, pregar a revolução e recebermos, em contraponto, pedidos de empregos. Bora mundo afora, não entender a linguagem de nossos "objetos" de estudo. Bora mundo afora, perceber que talvez não tenha sido exatamente aquilo que Guimarães Rosa quis dizer com "pão ou pães é questão de opiniães". Nos damos conta, então, que somos privilegiados, mas não era nossa função combatê-los? Pensar que os pobres não reconhecem o quanto são explorados tem sido a melhor saída e a mais ilusória. Precisamos, nosso ego exige, pensar que vocês precisam de nós para se salvarem da barbárie da qual estamos alheios, sem perceber que somos nós os bárbaros. Todos nós, da elite intelectual das humanidades, temos um pouco da "generosa" jornalista descrita em sua entrevista com o companheiro Ferréz. É por isso que não podemos ver vocês fazerem poesia, música, artes plásticas. Palavra feia na boca de gente bonita, é o que tentamos ao manter termos prolixos e padrões de beleza.

Entre a Bossa-Nova e a Tropicália, acho que vocês estão mais para Tropicália, pois era dela a principal característica de recriar, inventar, criar uma nova linguagem, questionar o velho, o dominante. Neste sentido a contestação estética é bem maior do que a da bossa-nova, ainda que Tom Zé talvez seja o único tropicalista, mas essa é outra discussão. Porém o fato que interessa é que a estética que surge da periferia e que nós, agora à reboque, temos acesso apenas depois que vocês inventaram e difundiram na comunidade, mostra-se uma revolução jamais vista nas artes brasileiras. E não precisou o Chico Buarque dizer que o Rap era a nova MPB para nos darmos contas. Não precisou que Sérgio Buarque dissesse que somos "desterrados em nossa própria terra". Vocês cruelmente fizeram e fazem sem nós e sem nosso aval politicamente correto, sem nosso tapinha nas costas, sem nossas monções de apoio votadas em assembleia, sem nossa doação. Até na bienal vai ter pichadores! Quanta audácia! Dessacralizar a literatura? Que profano, para nós, puristas teóricos! Por isso entramos com a represália de ignorarmos o que vocês fazem, de apenas citarmos as expressões artísticas ou linguísticas que vêm da marginalidade se for para ridicularizarmos vossos costumes, vossos cabelos enrolados vossos mal-educados-ruídos que interferem na fala do poeta, bem como a linguagem suja e ritmada que utilizam, mesmo que, durante toda a faculdade, neguemo-nos a ir ao McDonalds para ir ao Bar do Garcia, ouvindo samba desconhecidos, pensando que assim estaríamos sendo revolucionários. Nossa revolução é linda, mas quando o PCC aparece, melhor nos enclausurarmos em nossas KitNet's.

Mas que porra você quer dizer com isso tudo? - você deve estar pensando.

É apenas um pedido: ilumine nossa gente. Nós, intelectuais, precisamos enxergar para além da ideologia dominante.

Atenciosamente,

(o escritor não quis se identificar com medo de possíveis retaliações como perder o orientador, a bolsa de pesquisa ou até mesmo seu garantido lugar em uma revista alternativa cult, meio intelectual, meio-de-esquerda, porém, ressalta sua linha de pesquisa, seu doutorado na França, ter conhecido o Louvre, sua extensa biblioteca particular e que fala seis línguas...opa, esqueceu-se do português...sete línguas)


Não Estou!

. . Por Hugo Ciavatta, com 1 commentário

Saia do metrô quando um sujeito, no mínimo diferente, no infinito corredor antes da escada, arranhava na guitarra uma música bem conhecida, que eu, péssimo pra acertar, não me arrisco a dizer qual era. Me prende muito a atenção quando ouço uma música “no meio do caminho”. É como se houvesse uma trilha sonora pelas ruas pra mim. A canção invade o dia, preenche o lugar, atribui sentido a qualquer possível banalidade. E, naquele dia, quando na rua já, caminhava com uma leveza que há muito não tinha, distante, distante de tudo, ainda que bastante presente, atento, mas tranqüilo, sem pressa, fazendo esquecer ansiedades, dúvidas, incertezas, não estava vazio, muito pelo contrário, apenas sereno. Talvez por causa da música. Ainda na rua: "Nossa, que cartaz... não é daquele filme?...” Bom, seguimos daqui pra lá, de lá pra cá, e passou-se o dia.
No dia seguinte, a mesma dúvida: “curioso mesmo, bem que parece aquele filme, como é mesmo o nome daquela atriz?... Ela fez um baita filme, foi um show particular dela, brilhante... ?...” E lá se foi mais um dia, e a dúvida nem era mais dúvida, era só uma brincadeira visual, procurava a imagem pela rua só pra distrair os pensamentos, que não precisavam e nem queriam concentração. Mas era muito simples resolver a tal dúvida, ora, somente ler o cartaz e pronto. Só que era divertido daquele jeito, em cada canto pelas ruas lá estava uma imagem diferente do filme. Enfim, chegou um momento que não pude mais brincar, já que, por acaso, me deparei com as letras do cartaz antes da imagem, fiquei chocado: “Não Estou Lá” (I’m Not There).
Como assim, eu vi este filme dois anos atrás, não? E foi em casa ainda, fui na locadora e peguei ele em DVD. Como pode estrear nos cinemas de novo? Impossível, não pode ser uma regravação em tão pouco tempo, que absurdo! Em que ano estou? 2010? Não é 2010?! 2010, é 2010!! Me perdi no tempo.
- Este filme já não estreou, você já viu?
- Já, já vi sim. É, eu não tinha entendido também, faz tempo, estranho mesmo...
Ufa, estamos em 2010 mesmo, e eu vi este filme há dois anos. Ponto.
Curioso é que o sujeito já é, digamos, peculiar, o título do filme já é emblemático, e ainda acontece isso. Piada, né? “Não estou lá!” Onde e quando, há dois anos? Só agora é que está?! Ai ai.
Já tentei falar do Fernando Pessoa, em outro momento, mas não precisava ter ido “tão” longe temporalmente: será Bob Dylan o Fernando Pessoa da atualidade?
Um amigo, que teve o privilégio de vê-lo (o Bob Dylan, claro, por favor!) numa apresentação, dizia com certo desdém: “Ah, um véinho ranzinza lá no palco com uma viola, uma voizinha chata que só, nhénhénhé, é isso... e um pouco caro ainda”.
Bom, caro deve ser mesmo... Eu nunca vi, ao vivo, o Bob Dylan, e muito, muito provavelmente não vou ver, a não ser que ele apareça na porta de casa amanhã, cantando:




É... pouco provável também que ele, do nada, venha trocar uma idéia comigo, de boa, como numa conversa de bar, convenhamos. Mas, é o Bob Dylan, né, quem sabe?! Aparecendo por outra pessoa, como na saída do metro aquele dia, já está valendo. E se é difícil falar de uma canção assim, tem gente que escreve até um livro somente pra ela: "Like a Rolling Stone - Bob Dylan na Encruzilhada", de Greil Marcus, resenhado semana passada pelo jornal Folha de São Paulo.
Não sei exatamente quantos foram os atores que participaram da gravação, acho que seis dentre os famosos, mas são muitos, claramente. Cate Blanchett é a principal entre todos eles, e ela está irreconhecível. No filme, cada um dos atores, desde uma criança atrevida, até Richard Gere, com os cabelos sempre grisalhos, interpreta a mesma personagem: Bob Dylan. Conclusão: esse cara é louco. Também acho. Se o Fernando Pessoa brincava de heterônimos, serão as facetas, os “alteregos” de Bob Dylan, heterônimos também? Ele aparece, no início de sua carreira, com músicas de protesto, dizem, depois se cansa, dizem, e queria falar sobre outras coisas. Muitos se queixaram. Outros seguiram o adorando. Mas ele não ficava quieto, logo já estava “de outro jeito”, escrevendo e cantando sobre outras coisas, de novas maneiras. São muitas dúvidas sobre ele, que definitivamente, merece o bordão, é “uma lenda viva”. De folk, rock e música gospel, “lá está” Bob Dylan, mas qual? Acho que o próprio título do filme diz qual seria a resposta para algumas das pergunta sobre ele, sobre a arte que ele produz também: “Não estou lá!”

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Movimentos Circulares Numa Cabeça Quadrada

. . Por Hugo Ciavatta, com 2 comentários

A partir de hoje tudo será diferente. Certeza. Que dia lindo pra que tudo comece bem. Ontem já achava que as coisas continuavam na mesma merda, mas que nada, com esse emprego dando certo hoje tudo vai ser novo. “Vamos, Hugo, levante, não fique moscando na cama enquanto o dia passa, como sempre, se apronte e pegue o ônibus já que é tão importante...”. Um banho e um café rápidos porque são dois ônibus. “Tudo será diferente, sei, com uma grana boa no final do mês, que te importa se serão seis dias puxados de trampo por semana, né, velho?”. É, tudo vai dar certo, com um trampo, vou me organizar melhor, separar tudo direitinho, ter tempo pra cada uma das coisas que gostaria, não ficaria a maior parte do tempo perdido, procurando algo pra fazer, ou pensando na morte da bezerra, esperando que “algo novo aconteça na vida”, caindo do céu, poderei fazer várias coisas. Vai me fazer bem, dará um “up” na minha vida, serei mais “eu”. Até a mocinha que eu dou em cima me dará atenção, verá que não sou apenas mais um idiota no mundo, como outro qualquer, irá me valorizar. Prestará atenção nas minhas indiretas diretas, achará isso uma graça e não me quererá somente bem, me quererá bem e com ela.

- Atchim, atchim, atchim!!!

Opa, que é isso? “Ah, nada, vai, só aquelas frescuras suas com alergia, mudança de temperatura, daqui a pouco você esquece, vamos! Hoje eu quero ver!” Demora esse ônibus pra chegar, não? Quantas voltas, pegá-lo todos os dias não seria cansativo? “Hugo, que bosta, você só reclama, deveria ver pelo lado positivo, aproveitar pra ler alguma coisa no caminho, ou ouvir uma boa música, o que você deveria estar fazendo já agora!” Tenho que descer, e só faltam vinte minutos para o início do processo seletivo, preciso passar no banheiro, meu nariz está escorrendo.

- Atchim, atchim, atchim! Por favor, onde será a seleção?
- No piso superior, no auditório à esquerda.
- Obrigado.

Dois punhados de papel higiênico enrolados em cada um dos bolsos totalizam oito. Acho que serão suficientes. Um, dois, três, quatro, oito, comigo são doze. Doze num processo seletivo. Serão quantas vagas? “Hugo, imbecil, não importa, concentre-se! Não queira aparecer mais que os outros, e não fique muito discreto também, lembres-se!”

- Bom dia! (...) Bom dia, pessoal?!
(um bom dia coletivo em resposta aparece)
- Nossa, mas que “bom dia” mais preguiçoso, gente, um pouco mais de ânimo, vamos!

Como assim, é a gravação do programa do Gugu numa quarta-feira de manhã? “Hugo, BOM DIA!”

- Atchim, atchim, atchim!
- Bom, gostaria de começar lembrando que o mais importante para a empresa é o trabalho em grupo, coletivo, em que cada um tem a sua função e todos fazendo a sua parte constroem tudo o que hoje nós podemos presenciar neste instante.

Filosofia das abelhas, sei, conta outra. Como chama aquele nêgo lá, amiguinho do Ford, Taylor? O maluco das funções do trabalho... Essa é mais velha que a piada do paraguaio, hein, moça da voz-do-além?! Meu nariz está escorrendo muito, neste ritmo não agüento todo o tempo com somente estes papeizinhos. Mas, que voz é essa, moça? Com esse veludo insuportável de radialista de velório seria o remédio perfeito para minha crônica insônia, dormiria o sono mais profundo que qualquer bebê. Eu deveria ter trazido um gravador... “Presta atenção nas apresentações!”.
Ah, seu pai mora nos EUA, e o que isso diz de você, mané?
Ah, seu pai faleceu faz dois anos, sinto muito, senhora.
São tantas obras de arte que te definem, sério, puxa, você é quase uma "metamorfose ambulante", a lá Raul Seixas, humm, só faltava gostar de Paulo Coelho, o amiguinho dele também, né, benzinho?!
Ah, que interessante, seu pai pediu pra você fazer faculdade antes de fazer História, com certeza deve ser um homem de sucesso então, meu rapaz.

- Atchim, atchim, atchim! Me chamo Hugo, tenho 23 anos, sou formado em Ciências Sociais. Atchim, atchim, atchim! (...) (...) (...) Atchim! (...)

“Não deveria ter falado aquilo, foi excessivo, se achou, babaca, poderia ter enfatizado aquele outro negócio, seria melhor!” Estão acabando os papeizinhos.

- Atchim, atchim, atchim.
- Agora é hora de um pequeno intervalinho, pessoal. Podem sair, comer alguma coisa e em quinze minutinhos a gente já está de volta.

Obrigado, moça da voz Tsé-Tsé. Agora posso recarregar-me de papeizinhos. Beber e comer algo. Comida árabe quase, não? Não é Kebab, mas um kibe e uma esfirra estão quase lá.

- Dá licença, por favor, posso sentar aqui?
- Claro, fique a vontade. Cara, estava aqui pensando, né? Você, com um puta currículo tendo que se sujeitar a trabalhar de vendedor no shopping?
- Que isso, mano? Tá loko? Não tenho “puta currículo” nada, cê deve tá impressionado só porque fiz Universidade “Pública”, raridade no nosso país, é verdade, mas isso não quer dizer porra nenhuma. E não é “me sujeitar” não, mano, o trampo de vendedor no shopping dá uma puta grana legal, mano. Puta troço que muita gente daria mó corre pra estar aqui hoje, ser chamado pra disputar essa vaga com a gente! Não viaja, mano.

Putaquepariu, que kibe horrível, deveria ter pedido uma coxinha ao invés disso. Toma sua Coca-Light aí, vai, doido! Pô, fazendo a segunda facul, já formado em publicidade, marketing, e agora na psico, e ainda vem me dizer do meu “puta currículo”. Psicologia reversa, só pode, quer me derrubar, certeza. O ar condicionado está ligado, e bem ligado, então por que raios sinto calor, por que meu rosto está ardendo se não estou “envergonhado”? “Febre, Hugo, é febre, não seja idiota, mas esqueça, se concentre para a parte coletiva agora da dinâmica!”.

- Atchim, atchim, atchim.
- Não, porque tem que ser assim, a gente diz isso, faz aquilo e boa, tá ligado, mano? É isso, eu sei, já trampei no shopping! Eu sei, é assim!
- Atchim, então, acho que seria melhor se pensássemos de outro modo, se perguntássemos antes de agirmos diretamente, é melhor pensar nas possibilidades de reação diante de determinadas situações. Não sei, imagino, deve ser melhor que já termos uma postura pré-determinada... eu acho...
- Hum, pode ser. Pode crer, mano. Pode crer! É melhor mêmo!

Ué, mas você não “já sabia”, bonzão? Droga, deveria ter feito aquilo, dito outra coisa, não deveria ter feito isso. “É, Hugo, como diria o saudoso Bezerra da Silva: malandro é malandro, mané é mané. Nem preciso repetir que seu espírito teima no último time, né?!” Ah, tá bom, tá bom, chega, se sabe e entende tanto de mim, por que não age diferentemente? Por que não transforma essa merda toda que vê e acompanha diariamente? “É muito mais divertido assistir à desgraça, meu caro.” Não se esqueça que ela é sua também, esperto. “Não, não, ela é inteiramente sua, inteiramente, a-ha-ha-hahaha!”. Humpf...

- Bom gente, hoje foi apenas isso – aquela voz incrivelmente insuportável, mediana, pausada, sem uma alteração facial, parecia um cadáver falando, que horror. Agora vocês devem aguardar o nosso contato dizendo se foram aprovados ou não para a próxima fase. Obrigado, espero que tenham todos um ótimo dia.
- Atchim... tchau...

É, ainda tenho que pegar o mesmo ônibus de volta... pra nada... “Como é mesmo, Hugo, malandro é malandro e mané é...?” Vai se fudê! O dia ainda não acabou, pode ser que eu tenha passado pra próxima fase. “HA!” Peraê, meu telefone está tocando, dever ser ela, nossa, ela tem mesmo meu telefone, e está até me ligando, é um sonho? “O-ho, pode ser um pesadelo também... i-hi-hi!” Cala a boca, por favor.

- Alô?
- Alô. Oi! E aí, tudo bem?
- Oiii! Tudo, e você?! – não acredito!
- Beleza! Escuta, dá pra gente ser ver ainda nesta semana, né?!
- Nesta semana... claro, claro! Dá, dá! – não acredito!
- Massa, então passa amanhã no supermercado em frente antes de vir, não esquece o andar, hein, porque o interfone está quebrado ainda, Marquinhos!
- Que supermercado em frente, abriu um quando, onde, como assim? Andar, você se mudou? Onde você está? Ahn, Marquinhos? Mocinha?
- Mocinha? Não, quem está falando?
- Hugo...
- Ai, mano, nada a ver, foi engano...

A voz parecia, pelo menos... “Hugo, ai, aha-aha-ahahaha, ai, ahahah-aha-ahahaha, ai ai, não consigo parar, como assim parecida, endoideceu? Deve ser a febre, está delirando agora: já pra Farmácia!” Tudo bem, que bosta, viajei... Acho que um resfenol resolve, ou alguns... Como chama aquele cara lá que ouvi uma vez, diziam ser importante pra aprender a conseguir um emprego, se organizar, obter sucesso e tal? “Ai, nossa, Roberto... alguma coisa “Sempre-chique”, mas troque as letras por um nome oriental e reproduza o som, pronto, vai encontrar o segredo de tudo aquilo que você não é, ou tem! Hi-hi, mas cadê o moço meio-intelectual, nãnãnã? Vai ler Dostoievski?!” Qual é, e o que esse russo inútil te (ou me) trouxe até hoje? Uma voz chata na própria cabeça que fica bancando o senhor sabichão, cheio de ironia e sarcasmo?! Grande bosta! “Ui, ele ficou nervoso agora. Calma, vai ler Guimarães Rosa então, vai, se tranqüilize. Não é dele a sua paixão, querido?!” Ok, ok, ok: vai tomá no seu cú!
Reza a lenda que Borges adorava dizer que na língua espanhola os verbos “inventar” e “descobrir” teriam origens semelhantes, como se pudessem ser intercambiados, como sinônimos. Muito bonito, mas quem foi o filhodaputa que inventou, ou descobriu, a porra da dinâmica de grupo?

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Um spray na mão e uma Bienal na cabeça

. . Por Thiago Aoki, com 2 comentários

Em um dos meus primeiros posts por aqui, ainda tímido, tentei mostrar o movimento da Indústria Cultural sobre o Rap e Grafite, artes, em geral, vinculadas à contestação social. Durante essa semana, Monica Bergamo, em sua coluna da Folha de São Paulo, anunciou novo episódio dentro dessa cena artística cuja estética associa-se à periferia brasileira. O informe dado pela colunista é de que dois dos pichadores que realizaram intervenção na Bienal de 2008 foram convidados a participar, desta vez como artistas, da Bienal 2010.

Para quem não se lembra, um dos andares da Bienal de 2008 ficou sem exposição alguma. O espaço - intitulado pela organização como "Em Vivo Contato", mas que ficou conhecido como "Bienal do Vazio" - tinha como proposta, segundo os próprios organizadores, a reflexão acerca das formas de arte. Pois bem, a provocação deu resultado. Primeiro, ainda antes da inauguração, o grupoArac fez a primeira intervenção não-autorizada com "stickers" dos mais diversos, mostrando o passo-a-passo da ação no blog Bien-Mal 2008. Por fim, dias depois aconteceu a ocupação do prédio por pichadores das mais diversas correntes e logo se puseram a expressar no mais vivo contato, através de muita tinta e correria. À época, o posicionamento da Bienal não fora tão amistoso como o desta semana. Pichadores e seguranças entraram em conflito e uma das pichadoras, a gaúcha Caroline Pivetta da Mota, acabou presa e condenada, o que causou revolta até mesmo entre alguns artistas convidados.



Voltando aos dias de hoje, o anúncio de Bergamo é de que o pichador considerado líder da intervenção de 2008, Rafael Guedes Augustaitiz e Djan, outro pichador, serão atrações oficiais da edição 2010. Além daquele episódio, Rafael ficou conhecido por apresentar, como TCC, um ataque de pichação à própria Faculdade Belas Artes e também por liderar pichações à Galeria Choque Cultural, em São Paulo. É também atribuido ao seu grupo, a pichação de um famoso grafite d'Osgemeos, ícones reconhecidos internacionalmente, com os seguintes dizeres: "Cidade em Calamidade - R$200.000,00", em referência ao valor pago pela prefeitura paulistana aos artistas por aquele grafite.

Seria fácil, de trás do computador criticar os pichadores convidados ou pensar que seria mero oportunismo por parte dos organizadores. No entanto, posso me demonstrar satisfeito pelo fato de que um dos líderes dos pichadores participar do evento significa passar por cima do comunicado - esse sim, completamente retrógrado - que a organização soltou em 2008, após remover as pichações e reforçar a segurança. O documento concluia-se com os seguintes dizeres: "O vandalismo causado pela atitude autoritária e agressiva desses jovens representa uma ameaça à constituição de um espaço público coletivo, que respeite a integridade de cada cidadão e o patrimônio material e simbólico de nossa cultura".

Pensar no espaço público como composto por sujeitos passivos e contemplativos contraria inclusive a própria ideia do espaço vazio, ou da mostra intitulada como "Em vivo contato". Naquele ano, questionou-se se a intervenção realizada poderia ser considerada uma expressão artística ou apenas um ato de vandalismo. Em longa entrevista, Carol Pivetta, ainda presa, disse que "tanto grafite quanto picho são underground, coisa do fundão. A parada que eu faço é na rua, pro povo olhar e não gostar. Uma agressão visual". Fugindo do maniqueísmo datenístico de buscar herois ou vilões, os hieroglifos quase intraduzíveis pichados pelas paredes do andar nulo do prédio arquitetado por Oscar Niemeyer trouxe consigo outros incômodos questionamentos: "quem diz o que pode ser considerado arte?"/"existe espaço propício para arte?"/"a arte deve ser contemplativa?". Se a ideia era preparar o espaço para se discutir a arte, a ação dos pichadores deveria ter sido considerada argumentos que colocam o dedo na ferida dos campos artísticos hegemônicos. Entretanto aquele comunicado, bem como a imediata restauração do prédio, fez com os mandachuvas da Bienal perdessem a oportunidade de avançar a discussão extremamente relevante sobre Arte e, num sentido contrário, ainda utilizaram de um legalismo purista para desqualificar, com acusações pessoais de caráter moral, as ações organizadas coletivamente pelos grupos de pichadores.

A Bienal 2010 pode estar tentando corrigir esse caminho, voltando a pensar as novas formas artísticas, por vezes marginalizadas, mas isso dependerá de quão autônoma será a intervenção dos, finalmente reconhecidos, artistas-pichadores. A incorporação dos pichadores ao evento, para além de uma tentativa de trégua após algumas ameaças de novas intervenções, indica um reconhecimento dos pichadores como sujeitos de uma cena artística, ainda que marginalizada. Entretanto, tal fato também abre brechas para um movimento de apropriação da Indústria Cultural sobre a crua contestação.

É pagar pra ver.

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Na madrugada distante de uma noite paulistana aos arredores da vida sexual

. . Por Fábio Accardo, com 3 comentários

Dessas minhas última andanças, conto a que mais me chamou atenção. Talvez não deveria ter chamado atenção. Digo isso por dois motivos: o sair de noite com amigos para bares e terminar a noite bêbados em um puteiro (o chamo assim para ficar sem meias palavras, bem entendido e parar com a conversa do politicamente correto) não pode ser considerado um programa muito distante do “normal” da realidade de muitos adolescentes ; além disso, o tal roteiro cabe muito bem quando se tem na turma um dos amigos que está prestes a cometer um suicídio social e confirmar seu matrimônio. No entanto, à minha realidade é uma coisa de chamar a atenção, e, talvez pelo “olhar sociológico/antropológico”, ou mesmo meu posicionamento político/ideológico a cerca da situação, vivi certo estranhamento aquela noite. Noite não mais feliz de minha parte quando pude “perder” umas horas com uma companhia, em um dos “bares” do roteiro, trocando uma idéia com uma das profissionais do sexo que trabalhava no local. Digo feliz pois, se for realmente verdade, tive a sorte de poder conversar sobre a situação da Andréia (nome fictício, pois não me lembro muito bem e não colocaria o nome que ela me disse aqui) e os porquês de estar ali.

Muitos (talvez não nossos queridos leitores! Ai!) poderão ver tal rolê como uma perda de tempo, já que existiriam centenas de pernas capazes de dar prazer a qualquer marmanjo que ali se encontrava. Confesso que me senti num mundo muito próximo das histórias, ou do ideário do autor livre/autônomo paulistano Ricardo Carlaccio. Porque numa dessas poucas noites que passo em bares de Sampa, tive a sorte de poder contribuir com seu trabalho e comprar o último livro do mesmo escritor, “Dois minutos de Gasolina para a Meia-Noite”. Seja no livro, ou em seu blog, as mulheres parecem estar sempre com as coxas molhadas e prontas para o sexo. De forma espontânea, sonhos adoslescentes se misturam com uma trajetória bitnik (daquelas tiradas de livros como “On The Road”, ou “Pé na Estrada”, de Kerouak), em que mulheres, viagens, e velhos aparecem pela estrada para comentar a condição da vida. Nessas histórias, carros se entrelaçam com o poder do tempo (conceito bastante marcado em várias das narrativas) e deslumbram contos meio machistas, meio homofóbicos, meio rebeldes, meio de esquerda, meio intelectuais, meio qualque-outro-tipo-de-formatação-crítico-intelectualóide-que-possamos-enquadrá-lo. Enfim, vale a pena conferir e, além do mais, Ricardo Carlaccio deve uma entrevista para o nosso blog.

Voltando ao roteiro noturno, de uma quinta-feira descasada, as mulheres ali presentes pareciam prontas e dispostas a qualquer apetite sexual que lhes propusessem. Retomo o que disse antes, meu olhar, minha condição, minha formação e “todo o meu tato com as mulheres” (RS!), me colocaram na situação de trocar uma idéia com uma delas. Eram seus primeiros meses em tal profissão, o terceiro, se não me engano, e sua primeira noite naquela casa. Ela não se mostrava contente e nem disposta a realizar seu trabalho. A conversa se estendeu até o fechamento da casa: contou-me que não gostava e “não era para aquilo”. Tinha uma filha e queria logo arranjar um emprego para dar sustento à filha por outra situação. Às vezes, aquelas pernas nem sempre estão tão molhadas e dispostas a qualquer coisa ... e uma conversa franca acaba acontecendo na noite paulistana ... Ela disse, ainda, que dali, depois do fechamento da casa (que, segundo ela, era comandada por um maluco que não a via com bons olhos e que as outras meninas estavam a matando com os olhares, naquele instante), iria para uma boate próxima, onde poderia se divertir e, talvez, “arrumar uma fita” de forma mais tranqüila. Não obstante, o nosso roteiro, “de jovens numa noite paulistana”, passava pela mesma boate, mas não mais a encontrei na noite.

Depois de um energético com vodka, para acertar meus olhos pendentes ao sono infinito, caminhamos até a porta da tal boate. Que estranhamento sem tamanho ao sentir um encontro de interesses tão distintos num só lugar: procura por sexo (óbvio!), lugar para dançar, encontro de amigos, espaço propício para o uso e venda de drogas, bonados e pé rapados, intelectuais e nerds, mulheres, homens, bis, heteros, homos, trans, gays, viados, dentro de um lugar que parecia desafiar aquela lei da física que diz sobre matérias no mesmo espaço. Poli-dance, misturado a axé, pagode, putzs-putzs (vulgo tecno!), rock, entre outros ritmos animavam aquela noite que parecia mais uma na vida de muitos que ali estavam. A mim era uma noite que chamava a atenção, estranha e um pouco divertida.

Pode parecer que quero administrar a minha distância daquelas situações e das pessoas ali envolvidas. No entanto, o envolvimento era constante, as situações de oferecimento e “esfregação” raramente faltavam. Agora poderá parecer uma posição machista sobre tal realidade, mas não sinto nenhum tipo de prazer sexual nessas situações. Sou um modelo ultrapassado que não foi criado por tios que me levaram para “tirar o cabaço” em puteiros de beira de estrada nas cidades do interior do estado. Feliz, ou infelizmente, minha trajetória pessoal não me levou a esses encontros, passando uma ou duas vezes por casas mais ou menos parecidas. E curiosamente, também, tive a oportunidade, numa outra “chacrinha”, de trocar uma idéia com outra puta, ou profissional do sexo – como preferirem!

Mas que caga-dáguas esse tipo de relato está fazendo num blog que se diz de arte e cultura? Divulgar um escritor maldito que anda pelas bandas paulistanas da Avenida Paulista e Augusta? Talvez. A idéia era trazer meu relato de uma noite de despedida de solteiro, em que presenciei um pouco da arte e cultura dessa realidade que a mim parece distante, mas que é recorrente na realidade de muitos. Campinas, cidade em que todos os indigestos fizeram a faculdade, é referência no que diz respeito a movimentos por direitos das profissionais do sexo. Cidade onde está localizado ainda o maior centro de prostituição a céu aberto, o bairro Itatinga, na periferia de Campinas, que oferece histórias, experiências de vida, e um caminho político para a situação das mulheres que vendem seu corpo. Cito duas obras que tive contato: a primeira foi uma peça teatral, um monólogo, em que a atriz, formada na Unicamp, passou dois anos conversando com as mulheres, homens e transsexuais do Itatinga para, enfim, montar a peça que traz histórias verdadeiras relatadas por aqueles e aquelas que ali vivem e trabalham. Creio que a peça não está mais em circulação no roteiro cultural campinense, mas pode ser encontrada em DVD, chama-se “Eu quero ver a Rainha”, de Fabiana Fonseca. O segundo fato que chamo de “obra” é uma pesquisa de mestrado de Luiz Carlos Sollberger Jeolás, em que trabalha a auto-representação daqueles e daquelas que trabalham e vivem no Itatinga. O trabalho, “Vendo o corpo, vendo a imagem: a auto-representação fotográfica de travestis e mulheres profissionais do sexo do Jardim Itatinga/Campinas”, trás a história de alguns “personagens” daquela trama e se propõe a mostrar o olhar deles a eles mesmos, através da fotografia. Trabalho que se intitula endógeno, pois a fotografia é utilizada para retirar simbolismos e ser ponto de partida para conversas sobre a realidade dos fotógrafos ou fotografados. No decorrer da pesquisa, foram feitas oficinas de técnicas de fotografia, e disponibilizadas câmeras digitais, que ficaram com esses “personagens” durante um bom tempo, para que pudessem fotografar o bairro, a casa, o trabalho, os instrumentos de trabalho, alguns objetos que os relacionassem com a condição deles, etc. É um trabalho interessante, que desloca o olhar para o próprio objeto de pesquisa, transformando-o no sujeito discursivo de sua própria realidade.

Termino pontuando que foi uma noite que valeu a pena. Alguns sentiram falta de um relato mais picante, mas, para isso, procurem os contos do tal escritor! Os deixo a sós numa posição de vouyer!

A gente sômo tudo baiano!

. . Por Hugo Ciavatta, com 2 comentários

Segunda-feira é como qualquer outro dia, mais ou menos. Na cidade, que tem duas estações anuais, um verão chuvoso e outro verão seco com cinco dias de “frio”, o início daquela semana poderia ser como o de qualquer outra, na primeira estação. Por volta das seis da manhã, o sol espreguiçava na garagem que, pintada de branca, reluzia por todos os cantos, é o primeiro despertador avisando que já já é hora de levantar. Sem pressa também, porque se o fim de semana foi de festa em casa, ao som da terrinha e com a cervejinha gelada, o trajeto leva três, quatro quarteirões de casa.
Ray ainda sentia um pouco de zonzeira ao acordar, fruto da longa noite anterior, achou melhor passar um cafezinho bem forte pra dar aquela rebatida e, junto com uma ducha rápida, se preparar, pois um dos homi tinha dito que naqueles dias as coisas ficariam um pouco mais “pesadas”. Resolveu ainda dar uma chacoalhada nos outros dois bródi do “quarto”. O Linel estava ao lado do carro verde, o primeiro depois da parede onde o colchão de Ray estava, e o Nenê parecia já ter levantado, porque o colchão dele estava vazio ao lado do carro vermelho. Quando saiu da garagem e entrou na casa, Ray viu que Nenê já colocara a água pra ferver e estava comendo na cozinha, assim ele entrou logo no banho e Linel foi chamando o restante do pessoal dentro da casa, os outros dezessete que dividiam os três quartos, sala, cozinha e dois banheiros da residência.
A república deles foi recentemente montada, mas não são bixos, não são universitários, ainda que a cidade tenha enorme oferta de faculdades. Não vieram descobrir um mundo diferente, conhecer pessoas novas e viver novas experiências, vá lá, de uma certa forma, pode até ser. Porém, logo logo têm que procurar nova casa na capital da província, serão novas experiências, com certeza. E, conforme um homi lá, todos terão mais oportunidades, também, na capital da outra província do lado, que em alguns anos receberá as Olimpíadas. Raymundo Soares*, o Ray, Linelson Barbosa*, o Linel, e Marco Antônio de Jesus*, o Nenê, já pensam, sonham até, em viver na Cidade Maravilhosa, com certeza aproveitarão os fins de semana daquele bairro importante, as noites de música de um outro, os domingos de estádios cheios então: arregalam os olhos.
Aos poucos vão saindo, um por um, e em cinco minutos chegam ao largo terreno ao lado da lagoa nada limpa do bairro, onde completam o time dos que trabalham na construção dos edifícios de um novo condomínio. A lagoa, apesar de suja, foi alvo de recente disputa judicial, já que a área seria de proteção ambiental, desse modo, a concessão do espaço esteve em litígio por algum tempo. Mas foi rápido, agora a obra já está bem encaminhada, resultado da agilidade do homi, engenheiro do estrangeiro. Joaquim Manoel Olegário Farias de Souza e Campos* aparece pouco por lá. A construtora vai bem por aqui sem ele, que formou uma bela equipe de trabalho, são os Associados da Souza e Campos Ltda*. Joaquim prefere cuidar dos negócios da família em sua terra, que não anda bem economicamente, o que, inclusive, já lhe causou alguns transtornos por conta da empresa aérea que prefere para atravessar o oceano. Nas últimas três vezes, neste ano, que ele voou pela tal empresa, sofreu overbookings que lhe custaram algumas horas, mesmo assim, teve paciência com isso, compreende as dificuldades empresariais: a indenização é justa.
Quando dá umas onze da manhã, o time todo pára pra bater a quentinha, jogam conversa fora, cada um num canto, e se recostam na grama, a sombra de uma árvore, com sorte. Logo retornam e, antes que o dia se esconda, a república já está formada de novo, voltam para a casa próxima. Casa próxima, pois a casa longínqua não é visitada por muitos faz tempo. Nenê, por exemplo, que vira a sobrinha nascer lá no centrão do país, outro dia ouviu da mãe dele, pelo telefone, que a menina já sabe ler. Ray, que engole o choro todas as noites de pensar que a meninazinha de quem gosta tanto se casou com o Mané do Vilarejo, já visitou todo mundo da família nas três vezes que foi ao sul. E Linel, por fim, que tenta de tudo para enviar dinheiro todos os meses aos quatro filhos que ficaram no extremo oeste com a ex-mulher, nos últimos três anos conseguiu visitar toda a família. Os três se encontraram na região norte, no ano passado, uma vez que aquela é a maior área produtora de grãos do país, eles então ali ajudavam no desenvolvimento da região, desbravando a floresta. Nenê e Linel estão nessa vida desde o século passado, mas todos na rép têm em torno de trinta anos.
Naquele final de tarde, preferiram não ligar o som dos carros, pois durante o fim de semana já tinham festado bastante, e, como de costume, ou sem outra opção, pelo cansaço, não levariam aquela noite de segunda-feira muito além das 22h, apenas pegaram o violão do Clodô e prosearam na calçada, por fim.
Do outro lado da rua, no mesmo instante, Dona Firmina* regava o jardim da casa dela e ainda não se conformava: “Nem pra jogar uma água na calçada, como pôde a Sra.Violeta* ter alugado a casa pra esse mundo de baiano?!”. Enquanto isso, também, o marido dela acompanhava pela TV as questões que marcavam as enormes diferenças entre as candidaturas à presidência do país no ano...

(*Nomes e história fictícios)

domingo, 4 de abril de 2010

Crônica nossa de cada dia nos dai hoje

. . Por Thiago Aoki, com 4 comentários

Toc Toc Toc. A traseira do lápis na madeira da mesa. Provavelmente, ambas vieram de árvores distintas. Quando, sem o auxílio do homem, essas duas madeiras teriam a capacidade de se encontrar? Nunca. O homem que o lápis segura martela-o a buscar ideia ou inspiração para próxima crônica. Passa o tempo, nada vem, muda a tática. Agora anda pelo corredor da casa, passa incomodado, cômodo a cômodo, como se ideias fossem objetos perdidos entre os móveis, esperando ser encontradas. Anda, cantarola, esperneia, rodopia, abre a geladeira. Volta. Senta na cama, e sem remoto controle liga a TV, espera que de algum modo Deus, ou o diretor da emissora, traga-lhe algo novo. Quem sabe uma tragédia, um novo espetáculo, o surgimento de um novo herói, algo que o valha. Nada disso, nem daquilo. Apenas uma entrevista com o político mais importante na hierarquia democrática do país. O presidente sabe dialogar como poucos, pela primeira vez pós-docs e analfabetos entendem o que sai da boca do engravatado barbudo que à TV aparece. Não serve, não vai elogiá-lo, muda o canal. Duas famílias brigam ao vivo, tem suspeita de traição no meio. A "máquina da verdade", que no fundo é um aparelho de frequencia cardíaca, vai ajudar a resolver o impasse. Deveriam testar em quem inventou esse programa, para ver se dentro do peito algo bate. Muda o canal. Um cantor assume sua homossexualidade para o mundo, bem quando os holofotes tentavam esquivar-se de sua imagem. Oportunismo? Não cabia ao homem responder a essa pergunta ou contribuir para falsas polêmicas. Muda o canal. Jogo do Palmeiras, nada mais desinspirador, melhor desligar antes que tal 0x0 concretize-se no formato de uma crônica ruim. Desliga a TV. Pensou em recorrer ao álcool, ler algum livro, lembrar de crônicas inspiradoras, contos curtos esquecidos, filmes que viu recentemente, grandes partidas do Corinthians, filósofos com frases facilmente-descontextualizáveis-de-origem-duvidosa, ditados populares. Nada. Estava frente à frente com a desitência e ao seu caminho seguiu, lentamente, flertando-a nos olhos, passo a passo. Eis que, a um milímetro do triste e resignado encontro, toca seu telefone. Alguns minutos de conversa e ele volta, acelerado, precisava escrever qualquer coisa. Lápis é lento. Liga o computador. Tec Tec Tec. Faria uma crítica à indústria do entretenimento, falaria sobre a necessidade de não ser complacente aos políticos, sobre a justa visibilidade da causa homossexual, mostraria como uma sociedade decadente muitas vezes não estimula as potencialidades individuas, como tudo aquela mer..mercadoria é desinspiradora, sobre como todo esse lixo cultural levou os poetas à extinção. Relacionaria tudo isso para culminar o texto demonstrando que não basta queixar-se niilisticamente dessas adversidades onipresentes. É necessário contraatacá-las, com pedras e poesias. Citaria Weber e o desencanto do mundo, passaria pelo pessimismo revolucionário dos primeiros modernistas, chegaria às lições, de inspiração antropofágica, deixadas pelos tropicalistas e terminaria por fim com uma frase impactante, embora descontextualizada de Schopenhauer (será que é dele mesmo?): "o destino embaralha as cartas, e nós jogamos com elas". Tudo isso do modo mais picareta do mundo, através de uma crônica cujo tema seria a dificuldade de se escrever uma crônica! Era o único modo de tratar tudo aquilo respeitando os limites de linha do editorial. Quem disse que o mundo é cronicamente inviável ? Seria acima de tudo uma crônica sobre as possibilidades humanas! Começaria com uma metáfora, precisava de uma metáfora, talvez um encontro entre madeiras de origens e processos diferentes! Assim foi e, como um raio, escreveu a bendita, coisa de 15 minutos, desfazendo-se de toda uma tarde gorda vivida à base de nhaca e cafeína. -Alguém há de ler, colocarei um título que chame a atenção, sou tão bom nisso que poderia ser o responsável pelos nomes das operações secretas da Polícia Federal! - sonhava após concluir sua missão. Dormiria satisfeito, ego robusto, inteligência socialmente validada - seus colegas-universitários-recém-formados adorariam! - e espírito apaziguado, ainda que em contradição com o rumo mundano. Quem ligou pra ele? Metro e meio de inspiração!

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