VÍDEO: MURILO CAMPANHA CONTA ITATINGA

O psicanalista Murilo Campanha fala sobre Itatinga, um dos maiores bairros de prostituição da América Latina, onde ele tem seu consultório.

O nadador

Uma crônica de Hugo Ciavatta.

Ainda que as bolachas falassem

Crônica de Fábio Accardo sobre infância e imaginação

Ousemos tocar estrelas

Uma reflexão de Thiago Aoki.

Entre o amarelo e o vermelho

Uma crônica de Hugo Ciavatta

O homem cordial vinhedense

A classe média vai ao barbeiro. Uma crônica de Caio Moretto.

quarta-feira, 31 de março de 2010

Bola Pra Frente

. . Por Thiago Aoki, com 0 comentários

Sim, fiquei com o papel póstumo do Mistura. 2010 retira mais um de nós brasileiros, mais uma perda, mais um vazio. Depois de Glauco, morreu esta semana Armando Nogueira, cronista esportivo da mais alta qualidade. Neste caso, a lacuna a ser preenchida é ainda maior do que aquela provocada pela morte do cartunista. Afinal, no caso de Glauco temos duas gerações da mais alta qualidade para recompor o quadro, diferentemente do caso da crônica esportiva praticada por Armando. Isto porque o gênero, composto em sua maioria por jornalistas ou ex-jogadores, anda cada vez mais técnico, fazendo análises frias sobre os esquemas táticos e (des)organizações esportivas. Não que seja dispensável esse tipo de excerto, porém cronistas mais lúdicos e literários como Armando Nogueira, João Saldanha, Nelson Rodrigues, Mário Filho, estão em falta. A escassez de tal figura tão importante no imaginário esportivo é, de certo modo, também consequência de um futebol dito moderno, onde o "profissionalismo", "força física" e "tática" vêm tomando conta dos gramados.

Juca Kfouri faz muito bem a parte investigativa. Xico Sá, Torero e Mário Prata têm humor refinado. Nando Reis dá voz aos torcedores. Esquema tático é com o PVC. Ugo Giorgetti também conta causos. Mas, quem se aproxima da poesia de Armando Nogueira? Talvez Tostão, não sei. Ainda assim, poucos, na crônica esportiva, ainda são frasistas, ainda não foram corrompidos pela dicotomia polemicista-padronizado. Quem, de algum modo escreveria frases como:

"Se pelé não fosse homem seria bola"
"A tabelinha de Pelé e Tostão confirma a existência de Deus"
"Para Garrincha, a superfície de um lenço era um latifúndio"
"Os cartolas pecam por ação, omissão ou comissão"
"Tu, em campo, parecia tantos, e no entanto, que encanto! Eras um só, Milton Santos"
"A seleção brasileira jogou com a frieza e a indiferença dos apátridas" (sobre eliminação da copa de 2006)
"Deus castiga quem o craque fustiga"
"Se a bola soubesse o encanto que tem não, não passaria a vida rolando de pé em pé"

Nas áureas épocas em que assistia TV a cabo, acompanhava seu programa na TV, onde entrevistava e lia crônicas. Era sensacional. Depois, apenas pelo google tinha contato com os textos do cronista. E foi também pelo google que soube de sua morte. Na verdade, o último texto que li de Armando, foi quando ainda trabalhava na livraria contentando-me em ver, por juz, seu nome entre os eleitos pela coletênea "Os melhores da crônica brasileira", da José Olympio, de 1977. A crônica (que mais parecia um conto) chamava-se "Peladas" e coloco-a ao lado de outra de Nelson Rodrigues - sobre a invasão do Maracanã de 1976, escrita para "O Globo" - como as duas maiores, ou pelo menos mais marcantes que me lembro de ter lido.

Mais do que a morte de uma história, até então viva, do futebol, perdemos em poesia e fino trato com a pelota. O consolo é que estava velhinho, impossibilitado pelo câncer de fazer praticamente tudo.


Só mesmo por ele e por Garrincha pra alguém torcer pro Botafogo.


Bola pra frente, rumo ao gol.

quarta-feira, 24 de março de 2010

É a Virtualidade Virtuosa?

. . Por Thiago Aoki, com 2 comentários

Pode parecer imbecil, mas foi a melhor metáfora que encontrei. Imagine que há um século atrás não existiam, chutando baixo, 99% dos enlatados e fast-foods que nos entopem. Por outro lado, não havia vegetarianos que pregavam peace-animals-and-love, ou nutricionistas especializados em ensinar as pessoas a se alimentarem melhor. Entretanto, nunca deixou de existir a comida. Houve, isso sim, uma re-significação em sua forma, conteúdo, qualidade, quantidade e consumo.

Com a arte - pasmem e xinguem-me pela metáfora xula - é a mesma coisa! Já explico (ou tento!). Antes, coisa de milhares de anos atrás, era só desenhinho de caverna, depois brincadeiras com o barro, barulhos com pedras, armações com corpos de animais e, não mais que de repente... zapt! Sabe-se lá quando e sem que a humanidade percebesse, estava dado provavelmente o mais complexo modo de interação entre a subjetividade individual e a objetividade social: a arte!

Aí vocês já sabem. Gêneros literários, ritmos musicais, escolas de cinema, companhias de teatro, enfim, toda essa camada infinita de sub-itens que a categoria "Arte" pode abranger. Pois bem, era tão legal de fazer que logo os avanços das técnicas permitiu que novas forma de expressão surgissem. O que, basicamente, era música, escultura e pintura ganhou companhia. Logo tínhamos dança, teatro, fotografia, cinema, histórias em quadrinhos. Entramos na era, dita, tecnológica e os campos artísticos se arreganharam. Tudo é arte, nada é arte, que diabos é arte num mundo maluco como esse? Já não se consegue definir com precisão.

Isso porque, mais uma vez, a tecnologia evoluiu. Temos hoje uma gama enorme de novas expressões artísticas, que sequer podem ser catalogadas em algum dos rótulos que criamos. Sim, estou falando de uma arte virtual, ainda não tão definida, mas que dia após dia consolida sua formação! Exemplos? Vamos lá.


Que tal o famoso Guernica, de Picasso, em 3D ? Ou a antropofagia tecnolóigica dos Clip-Poemas de Augusto de Campos ? E os milhares video-blogs postados por usuários do youtube, seriam crônicas faladas? E as imagens de tirar o fôlego, com muita maestria feitas pelos designers, através dos recusros de manipulação digital? E as arquiteturas dos websites, isso é arte, como a arquitetura dos prédios? E a moda dos robôs, terão estilistas?

Coisas novas estão acontecendo, e muito rápido, o que me deixa zonzo. Não tenho a teoria pronta, mas deixo as fezes no ventilador para que pensemos nas novas formas de arte e novíssimas formas de apreciação, que deixam o tropicalismo a ver navios (ou seriam foguetes?). Questionamentos básicos para qualquer um que se ponha a falar sobre cultura.

(Acima, tirinha dos Malvados - altamente recomendados)

O avanço técnico está posto, se seremos fast food enlatado, carne nobre ou vegetal de alta nutrição, ainda está em disputa.


sexta-feira, 19 de março de 2010

Com um olho fechado

. . Por Hugo Ciavatta, com 5 comentários

Tentava falar outrora do recente filme de Spike Jonze, "Onde Vivem Os Monstros", porque, fundamentalmente, o que mais me encanta nesse filme é o mundo fantástico, a imaginação do garoto Max. Na história do filme, o menino, como qualquer criança um tanto mimada, briga com a mãe e a irmã por atenção. Ele foge, se esconde, e assim vive uma aventura com os “monstros” de sua imaginação. Cada uma das criaturas que habita a cabeça dele tem traços bem marcados, de tipos comportamentais, muitas vezes, estereotipados. Tudo bem, muitos diretores tentam brincar com caricaturas humanas, com humor e ironia, como Wood Allen, para falar de determinados assuntos, entretanto, pra mim, a beleza de “Onde Vivem...” é comunicar que ninguém “é assim”. Max é todos aqueles “monstros” ao mesmo tempo: não tem um único perfil, tem vários.



Parece ainda que, ultimamente, muitos filmes exploram a temática do imaginário humano. Quem sabe, o mais esperado deles seja a leitura de Tim Burton de “Alice no País das Maravilhas”, acompanhado de “O Imaginário do Dr. Parnassus”, dirigido por Terry Gilliam. A gravação de “O Imaginário...” foi alterada devido a morte de Heath Ledger, contando a partir de então com a participação de outros atores famosos, como Johnny Depp, Jude Law e Colin Farrell. Esse último filme, tenho cá pra mim, deve ser uma leitura do “inconsciente coletivo”, a lá Jung, pois, ao passar pelo espelho do Dr. Parnassus, a personagem de Ledger, por exemplo, junto com outros personagens, entra em contato com os absurdos (ou não) que habitam nossos pensamentos. Só que a maneira com que cada um vê as diversas coisas com as quais foram educados, criados, enfim, até mesmo a forma como vêem a si próprios, tudo depende dos caminhos que seguem, ou escolhem, dos sentidos que atribuem às coisas e, ainda, de alguma forma, dos olhares que marcam a trajetória de cada um. Por uma infeliz casualidade, a morte de Ledger deixa tudo isso mais claro, já que nas vezes em que a personagem dele passa pelo espelho, aparece ali dentro de diferentes formas, sendo interpretado ora por Depp, ora por Law, ou por Farrell. São as diferentes faces de um mesmo ser.



"Coraline e o Mundo Secreto" é uma animação do ano passado que deveria estar no time dos mais falados pela leveza e graça que nos traz, mais, também pelos elementos de um suspense infantil doce que nos carrega consigo. A menininha é recém mudada numa enorme casa e aos poucos vai descobrindo a vizinhança, um menino enigmático e o esguio gato dele, e outros vizinhos bem incomuns. Ela conhece, também, os espaços de sua própria casa, enquanto os pais dela vão seguindo a rotina. Coraline então encontra uma passagem secreta num dos quartos, pretexto que surge para que ela viva a fantasia do mundo que desejava, e aos poucos a história ganha todo um mistério. No filme, desse modo, constrói-se um jogo entre a realidade e o sonho, a poesia, o mistério e o medo.



Quando éramos crianças, ou até hoje, muitos de nós assistíamos a "Mundo da Lua", série da TV Cultura que contava com a genialidade e a simplicidade de Gianfrancesco Guarnieri. Lucas era o nome do garoto que adorava ligar um aparelhinho, uma espécie de rádio com o qual fazia contato com a Terra, enquanto estava no quarto e deitado na cama, ali vivia, vivia imaginando.
Em dias recheados de... não sei como dizer... de versões, de opiniões, de respostas, de um clima de horror, de desconfiança (como os que envolvem a morte, pelas mãos de uma maluco, do cartunista Glauco, por exemplo, e o julgamento do casal Nardoni, pra ajudar), algumas palavras na nossa linguagem ganham destaque. Está na moda, por exemplo, ser “bipolar”, até quem nem sequer sabe diferenciar os estados de cada um dos “pólos” já sai dizendo que fulano “só pode ser bipolar”. O "mal" está sempre "lá”, é a “loucura” do mundo por aí, a espreita. Começam a aparecer, ou melhor, se aclaram as formas de controle social, fundantes das relações humanas. No entanto, o que me assusta são as "receitas" de controle, de domínio, de reconhecimento, de identificação do perigo, das manifestações do que se vê como "loucura", "mal". Lembro, com o perdão pela infâmia, o dragão mulato com luvas de pelica que viveu no Rio de Janeiro na transição do Império à República. Em “O Alienista”, Machado de Assis faz com que o “doutor” da cidadezinha interne uma por uma das manifestações de insanidade, até que, no final, o próprio médico se isole, enlouquecido. E um filme que merece destaque, neste ponto, é "Minority Report", cuja ficção possibilita antecipar, prever crimes, punindo executores antes que praticassem assassinatos. Mais uma bela dramatização do conflito entre o Destino e as escolhas, atravessados pelos contextos que vivemos. Ainda que o filme não trate de questões a respeito da loucura, da insanidade, de patologias das quais podemos sofrer. É sempre delicada a margem que separa o biológico da psique, um distúrbio orgânico da confusão dos pensamentos.
Não dá simplesmente pra fechar os olhos, em momentos assim, tapar os ouvidos e correr, se escondendo debaixo das cobertas, tal é a minha vontade, como se as mantas forjassem a nossa transformação e do mundo ao nosso redor... Talvez fechar apenas um dos olhos seja uma saída, assim abrimos as portas à imaginação, sem que sejamos dominados pela loucura que pode habitar a completa escuridão, ou o excesso de luz, e, ao mesmo tempo, tentamos manter algum grau equilíbrio, de razão...

quinta-feira, 18 de março de 2010

O dia em que Jesus matou o criador (a Glauco)

. . Por Thiago Aoki, com 1 commentário

Relutei, mas foi inútil, seria impossível não falar de Glauco.

É que senti uma raiva imensa de não ter falado dele ainda vivo, como por vezes havia planejado. Com certeza, seria alvo de alguma matéria envolvendo a tríade que compunha com Laerte e Angeli. Mas a raiva é porque agora, estapafurdiamente, matérias a mil vem sendo publicadas na grande mídia, em geral recheadas de hipocrisia e oportunismo. Parece que mais importante do que a biografia e órfãos personagens deixados pelo cartunista, tem sido o assassinato em si. Já houve quem diga que o caso ressucita a velha falácia da pena de morte. Mais ainda, a culpa seria do Santo Daime e seu teor alucinógeno. Por outro lado, alguns colunistas políticos que sequer algum dia dissera algo sobre o cartunista ou história em quadrinhos, hoje o colocam como o grande mártir opositor de Lula - esquecendo-se da oposição veemente que o próprio Glauco fizera a todos os governos anteriores. Show de horror e sensacionalismo instrumental dos velhos abutres que fazem com que a perda irreparável em nossa cultura se transforme em mero episódio das páginas policiais.

De todas mesmo, a melhor e mais digna foi a cobertura da Folha de São Paulo, que num primeiro momento deixou todos os espaços para charges e quadrinhos em branco, com a assinatura do falecido, e depois lançou dois cadernos com homenagens ao artista. Gostei também do jornal ter comparado a importância de Glauco, pai de Geraldão, para o Brasil, como a de Charles Schulz, pai de Snoopy para os EUA ou de Quino, pai da Mafalda, para a Argentina. Foi, inclusive na própria Folha, na seção infantil (Folinha), que conheci Geraldinho, que logo virou Geraldão, que me apresentou pra Dona Marta, que me mostrou o Casal Neuras, que apontou Doy Jorge, que jurava que já havia sido abduzido pelos Ozetês, que mais pareciam Los 3 amigos, disfarçados, fugindo de Nojinsk, que na verdade apenas procurava por Faquinha. De fato, os quadrinhos de Glauco e companhia deixavam mais forte o café matinal e mais fácil de ignorar a sujeira do banheiro de minha república durante a sua utilização.

O humor ácido e ligeiro do quadrinista - muito bem descrito em uma crônica de Marcelo Coelho em 1987 - traz consigo uma falsa ingenuidade das mais interessantes. Vale-se de exageros do cotidiano para criticar costumes, políticas e conservadorismos dos mais prejudiciais. Infelizmente, pouco se fala hoje sobre a possibilidade de integração dos quadrinhos com a educação, numa didática multidisciplinar que acrescentariam muito às aulas formais. Tampouco se diz sobre o descaso e preconceito com o qual o quadrinho de costumes vem sendo tratado, muitas vezes não como arte, mas simples ilustrador das notícias, feito o pianista que toca na praça de alimentação do shopping, para ninguém ouvir, apenas adornando o refeitório. Discussões estas que seriam muito mais bem-vinda do que aquilo que ando lendo por aí sobre sua morte.

Por fim, o mais bonito mesmo ficou por conta da homenagem de todos os cartunistas, reconhecendo o grandioso trabalho de Glauco. O blog Universo HQ fez uma, digamos, arrecadação de todas essas homenagens e colocou em seu site. Vale a pena apreciar uma por uma, mas deixo aqui, duas das que mais gostei, talvez por terem sido desenhadas por amigos próximos ao cartunista. A primeira, feita a quatro mãos por Laerte/Angeli, mostra uma árvore, em meio à cidade cinza, em cujo tronco surge um dos semblantes dos desenhos de Glauco. A segunda, de Caco Galhardo, que se auto-identifica como discípulo do quadrinista, mostra, sobre uma pilha de diversos livros teóricos, típicos de uma formação intelectual requintada, uma "Love Story" do Geraldão.

Esse post, na verdade, menos do que celebrar o sétimo dia da morte de Glauco, foi simplesmente um pretexto para a mea-culpa feita no início do texto e também para exibir esses dois quadrinhos, que, para mim, são os que mais sintetizam o vazio deixado por Glauco, irreparável por estas enúmeras postagens que surgem, ou pela pífia e infame prisão de alguém que, ironicamente, se identifica como Jesus, o redentor.

"Quando eu saí deste mundo
Eu deixei minha porta aberta
Eu deixei minha porta fina
Para ver quem me acerta "
(trecho de um dos hinos composto por Glauco, para sua igreja)

segunda-feira, 15 de março de 2010

Lino

. . Por Hugo Ciavatta, com 6 comentários

- Você quer a verdade ou uma história?
Um dia, no casamento do tio, ao entrar no carro para a festa, o menino pergunta aos pais o por que daquele papel (de propaganda) que se encontrava sobre o parabrisa do veículo. A mãe lhe responde então: "você quer a verdade, ou uma história?". Pedida a história, a mãe somente lhe diz que fora um coelho quem colocou aquele papel ali. Resultado, o pequeno ficou a festa toda procurando o tal coelho pelo salão.
Conta-se que os pais, um desenhista industrial e uma arquiteta, sempre foram muito francos com o garoto, nunca esconderam ou mentiram sobre nada, mas nem por isso deixaram de incentivar ludicamente o pequeno, com historietas e fantasias as mais diversas.
Estrábico, Lino, como ele se chama, teve que usar os famosos tampões sobre cada um dos olhos. Não sei se já viu, ou se lembra de alguém com isso, porém, para uma criança , acredito, nunca deixaria de ser constrangedor andar com aquilo no rosto, ir para o colégio e ser azucrinado pelos amiguinhos. O pai, talvez para evitar isso, e tornar divertida a situação, desenhava um super-herói sobre o tampão conforme o menino pedia. Se queria ir com o homem-aranha, o super-homem, ou o batman, lá estaria desenhado. O pai ainda dava uma incrementada nas roupas do menino para que ele fosse ao colégio quase fantasiado. Quando a inspetora da escola, um tanto religiosa, reclamava, o pai, só de pirraça, mandava-o com um capeta desenhado para as aulas.
Bem, mas eles se mudaram de cidade devido ao trabalho dos pais. E a Tia da escolinha ficou mais chata então. Ela logo veio dizer que ali, diferente da outra escola, não era carnaval todos os dias para que o menino fosse fantasiado para o colégio. Pois bem, o pai abriu o jogo com Lino, dizendo que ele teria que escolher uma roupinha mais adequada para ir a escola. Lino escolheu... bem... escolheu... sapatinho e camisa sociais, calça de linho e uma boina: moda anos 20! Como dizem os ingleses, um perfeito dândi. Subversivo, não? Manteve-se fantasiado, mas, mesmo assim, ultra bem vestido, ninguém pôde reclamar.
Passado algum tempo, andando pela nova cidade, o guri viu nas vitrines um daqueles terninhos para crianças: "ô pai, eu quero um terninho daquele ali, ó". O pai lhe disse que era caro e que não poderia pagar, o menino insiste: "não pai, eu te pago". Já que era assim, o pai então comprou o terno, do jeito que pôde, pra ver no que ia dar. Danadinho, o menino vira na tv e nas praças pessoas se fazendo de "estátuas". Uma tarde numa praça brincando de "estátua viva" foi o que Lino precisou para juntar dinheiro suficiente para pagar dois terninhos ao pai.
Já era hora, e Lino estava fazendo teatro numa escola quando o descobriram e agora ele teria sido convidado a fazer parte de um filme com Uma Thurman. Qual o personagem dele? Ele mesmo. Pois é, dizem até que ele torceu o nariz, afinal, queria fazer alguma coisa diferente. Estrelas.
Não sei se acredito, porém gostaria de seguir preferindo histórias, se pudesse escolher.

As pessoas sem imaginação podem ter tido as mais imprevistas aventuras, podem ter visitado as terras mais estranhas. Nada lhes ficou. Nada lhes sobrou. Uma vida não basta apenas ser vivida: também precisa ser sonhada.
(Mário Quintana)

sexta-feira, 12 de março de 2010

Luto por Glauco

. . Por Thiago Aoki, com 1 commentário






Foi com muito pesar que recebemos a notícia da morte do cartunista Glauco e de seu filho, ambos de forma violenta e misteriosa em sua casa, durante essa madrugada. Confira aqui quem foi Glauco.

Que ele esteja em um mundo melhor, onde as pessoas precisem menos de seus cartoons críticos, pois por aqui, fará falta. Os jornais amanhecem um bocado mais tristes e nossa cultura um pouco mais vazia.

Confiram os quadrinhos feitos em homenagem a Glauco por diversos quadrinistas.

terça-feira, 9 de março de 2010

O Gospel de lá e o Gospel de Cá

. . Por Thiago Aoki, com 3 comentários

Alguém mais cansou de ouvir "entra na minha caaasa, entra na minha viiiida"? Após o crescimento expressivo da Igreja Protestante brasileira, divulgada pelo mundo por futebolistas e artistas, foi a vez da música gospel nacional enfim se firmar no mercado fonográfico, prova disso é o grupo mineiro "Diante do trono", que chegou a expressivos 7,5 milhões de discos vendidos, além de 2 milhões de DVDs. Pois bem, não faz meu estilo, verdade, mas o que me conduz a estas palavra é mostrar o porquê da gritante diferença de nosso gospel para o estadunidense, muito mais swingado, e crítico, sendo influência central para demais gêneros predominantemente negros como o jazz, soul, funk (não o carioca), blues, entre outros.

Como já dei a dica, a questão racial é ponto central para essa diferença. O gospel norteamericano deriva, musicalmente, do que foi chamado do "Negro Spiritual". Um movimento de escravos que valiam-se do próprio corpo - claro, era a única propriedade que possuiam - para dar certo ritmo à celebrações religiosas. O termo Gospel, advem do inglês antigo, "God-Spell", ou "boas novas", em referência ao evangelho. Juntando tudo, temos negros com musicalidade ancestral, que aderiam, ainda que segregadamente, às Igrejas Protestantes dos bairros negros estadunidense. Daí pra virar música, foi um passinho. Mas uma musica especial, com a tradicional impetuosa voz negra, oralidade e ritmo - muito diferente dos hinos cristãos das Igrejas Brancas, mais próximas ao Canto Gregoriano. Daí também o fato das letras mais contestadoras ao sistema social vigente. Como exemplo básico, temos o Reverendo Martin Luther King, pessoa mais jovem a receber um Nobel, por sua dedicação, entre uma e outra pregação, à luta pelos direitos civis dos negros estadunidense, imortalizado, entre outras coisas, pelo seu discurso proferido nos degraus do Lincoln Memorial, intitulado "I have a dream".



Curiosamente, em seu funeral, após bruto assassinato, a cantora Mahalia Jackson entoou a bela canção "Take my hand, precious lord", de autoria de Thomas Dorsey, considerado, nos EUA, "the father of Gospel Music" (o pai da música gospel). Dorsey, curiosamente era um cantor de blues, com certo sucesso, quando guinou sua carreira para o gospel, enfrentando inclusive a resistência dentro da própria igreja para fazer ecoar seus cânticos, mundo a fora.



A relação entre o gospel e os outros gêneros musicais de origem negra também é estreita. Do gospel, por exemplo vieram, além da própria Mahalia, Bessie Smith, Aretha Franklin e Ray Charles, em cuja música "Georgia on my mind", ao meu ver, fica explícita a influência gospel no que diz sentido à musicalidade. Ainda assim, talvez o maior divulgador da música gospel para o mundo, durante o século XX, talvez tenha sido Elvis Presley. Justo ele, branco e profano, por ironia do destino. Elvis era declaradamente apaixonado pelo ritmo e interpretou canções das mais diversas, dentre as quais, podemos citar, "Oh happy day", de Edwin Singers, primeiro cantor gospel a alcançar um disco de ouro com o estouro do hit.



Enfim, a indústira reconhecera o potencial mercadológico do gênero, mais ou menos como acontece atualmente no Brasil, embora algumas megastores ainda não trabalhem com o gospel nacional. De qualquer modo, o que queria era apenas delimitar, através das características culturais, as diferenças do gospel de lá pro de cá. Para este blogueiro, infelizmente, perdemos em criticidade, swing e voz. Isto porque se tomarmos como exemplo o trajeto de escravos brasileiros, atravessaremos da bela musicalidade do candomblé para o samba, já que a Igreja predominante no país era a cristã, diferentemente dos norteamericanos, mas isso fica para um próximo post.

quarta-feira, 3 de março de 2010

And the Oscar goes to...

. . Por Thiago Aoki, com 4 comentários

Domingo é dia de Oscar. Para um mísero blogueiro terceiromundista como eu, movido pelo "auto-baixo-financiamento", fica praticamente impossível assistir a todos os indicados. Porém, leal a minha cinefilia, fiz o básico, peguei as críticas, os favoritos e, auxiliado por minha fiel (espero!) namorada, saímos na empreitada de assistir aos principais concorrentes.

Pois bem, vamos em frente. Muita gente questiona o Oscar, seu glamour e ostentação. O favoritismo de "Avatar", de James Cameron, condiz com as críticas. Roteiro ruim, atuação fraca dos atores, montagem comum, mas com altíssimo grau tecnológico e um investimento estimado de básicos U$500 milhões, dinheiro com o qual, este que vos escreve, muito melhor aproveitando, construiria o estádio do Corinthians. Não comentarei aqui este filme, para isso já basta as milhares de reportagens que se embalaram na corrente do sucesso do longa. Apenas adianto que é perpassado por discussões superficiais e maniqueísta do malvado homem branco humano e sua relação mecânica/exploratória com a natureza, diferentemente da espécie de índio bonzinho que habita o outro planeta numa relação orgânica e religiosa de cooperação natural. Curiosamente, quando a coisa aperta o heroi branco norteamericano que resolve com tudo, abrindo mão de sua vida anterior pela causa dos explorados e indefesos índios, que obedecem a tudo que o novo brother ordena. Prefiro aqui, mostrar três filmes que, por qualquer amante das ciências humanas e suas intersecções com as telonas, devem ser assistidos, independente dos vencedores das estatuetas douradas.

Dos concorrentes à categoria, melhor filme é, sem dúvida, "Bastardos Inglórios", do diretor-pop entre os neocults Quentin Tarantino. É o que melhor faz aquilo que torna o cinema mágico: recria, inventa, questiona, inverte, leva a cabo as palavras de Federico Fellini, segundo o qual, "o cinema é o modo mais direto de entrar em competição com Deus". A fotografia, figurinos, diálogos, trilha sonora e montagem impecáveis. A primeira cena do filme no diálogo de um caça-judeus nazista, interpretado com maestria pelo poliglota Christoph Waltz, com um camponês já mereceria, por si, entrar para história do cinema. Mas, entre todas, três categorias deveriam obrigatoriamente ser levadas pelo Inglorious: "melhor diretor", "melhor roteiro original" e "melhor ator coadjuvante" - alguém por favor me explica o que foi essa atuação de Waltz? Há entre os conspiracionistas de plantão quem tenha dito que Tarantino estimula o revanchismo judeu que norteia a política externa contemporânea do eixo EUA-Israel. Balela. Pelo contrário, finalmente os judeus não são coitados, mas sim pessoas com sangue nas veias, que matam, torturam, contra-atacam, exercendo, de fato, sua função em uma guerra. Noutras palavras, é criado um mundo onde a moral tradicional torna-se segundo plano e o espectador é levado a torcer pelo massacre da milícia judaica, comandado pelo tentente Aldo Raine (mais uma ótima interpretação de Brad Pitt) sobre os nazis. Personagens fortes que criam entre si elos tênues e tensos e que, se existido tivessem - e quem garante que não? - mudariam a história do mundo. Insere-se, junto com "Pulp Fiction", na lista das melhores obras do diretor.



Se Tarantino abusa da imaginação, o filme de Lee Daniels, "Preciosa - uma história de esperança", vale-se da ultra-realidade para contar seu roteiro. A história se passa no Harlem, bairro negro americano, em 1987, e tem como protagonista Claireece Precious (daí o irônico "preciosa") Jones, a atriz Gabourey Sidibe - negra, gorda e feia. Além disso, espera seu segundo filho, com 16 anos, ambos resultados de estupro incestuoso por parte do pai. Sua mãe, com atuação impecável de Mo'Nique, à maltrata verbal e fisicamente, fazendo-a de escrava, e exigindo que o Estado lhe dê a pensão pelas netas, já que a "preciosa" ainda não chegou à maioridade. Eis que uma professora lésbica de humanidade incrível, a bela Paula Patton, chama Jones para uma escola alternativa, com outras jovens socialmente excluídas. Soma-se a ela uma assistente social (Mariah Carey), provavelmente inexistente no mundo tamanho acerto em suas atitudes, e as coisas começam a mudar. O filme escapa de duas possíveis armadilhas. A primeira seria o maniqueísmo sensacionalisa, que não ocorre, visto atitudes violentas da própria Preciosa, bem como alguns sentimentos humanos reproduzidos pela mãe. A segunda poderia ser o excesso de personagens densos, mas cada um é bem incorporado ao roteiro. Enfim, é um filme que emociona, e que mostra com muita propriedade a segregação racial nos EUA, em pleno início da década de 1990. Mereceria "Melhor Atriz" e "Melhor Atriz Coadjuvante", embora a maior parte da crítica considera o longa apenas favorito no segundo quesito, já que Meryl Streep ainda é a queridinha dos estadunidenses. Mas, independente disso, será estranho ver uma negra, gorda, que fez o papel que fez, sendo premiada pela fábrica de rostos padronizados de Hollywood. Em uma das cenas do filme, Preciosa olha para o espelho e vê refletida uma loira, branca de cabelos lisos, como ela gostaria de ser, de certa forma uma crítica a todo esse espetáculo. Tudo bem, eu também acho o indiano "Quem quer ser um milionário" contraditório com os padrões do Oscar devido ao roteiro também crítico à seletiva espetacularização social decorrente da premiação. Vai entender, mas será, sem dúvida um momento interessante de se acompanhar, espero que o discurso da atriz, Mo'Nique ou Gabourey Sidibe, ao menos ele, seja contundente como o filme.



Com menos holofotes, o falsamente despretencioso "Amor sem escalas" - de Jason Reitman, famoso por "Juno" - também trata de um tema caro à sociedade contemporânea, a frieza do mundo corporativo. George Clooney intepreta um executivo de uma empresa que terceiriza demissões, tendo, portanto, como função correr os EUA para demitir pessoas, o que faz com êxito e sem demonstrações de remorsos. Rian Binghan, personagem de Clooney, sequer tem residência física, e trata com extrema indiferença sua família, e seu sonho é completar 10 milhões de milhas viajadas. A trama se inicia quando Binghan conhece a igualmente workaholic Alex, interpretada Vera Farmiga, que pode ser considerada sua versão feminina e inicia um romance executivo, pautado pelos seus encontros durante a vida de trabalho. Entra também na vida de Binghan, a jovem Natalie, uma espécie de trainee do executivo, que tenta fazer pose de durona mas não consegue suportar a crueldade requerida pela função de seu chefe. Enfim, é uma comédia romântica na qual o romance torna-se segundo plano, visto que os questionamentos de Natalie sobre a desumanização do mundo corporativo, bem como os diálogos com os trabalhadores que são mandados embora, roubam a cena. Embora não preencha nenhum quesito da premiação de domingo como favorito absoluto - talvez Clooney corra por fora como melhor ator -, é um filme que vale a pena ser visto. Repete a difícil tarefa, normalemente executada por Woody Allen, de tocar em questões delicadas e tensas de maneira cômica e leve, sem ser, entretanto, superficial ou simplista. Assim, a melhor classificação, como afirmei anteriormente, seria de "falsamente despretencioso".



Faço uma ressalva para "Guerra ao Terror", que vem sendo aclamado pela crítica e deve levar algumas estatuetas. Assisti há algum tempo, antes de chegar aos cines, e não gostei, mas o sentimento foi tão distinto da análise corrente, que prefiro, humildemente, aguardar para assistí-lo novamente, para ter uma opinião melhor formada, embora tenha certeza que, no quesito guerra, nem se compare ao "No vale das sombras", de 2007, que nada levou, tanto da crítica como do certame de Hollywood. O que o Oscar nos mostra? Características da indústria cinematográfica e padronizações estadunidense, bem como os discursos aceito pela hegemônica indústria de entretenimento, é claro. Mas também filmes que merecem ser levados adiante, para além do ilusório galmour hollywoodiano. Bom Oscar a todos!

terça-feira, 2 de março de 2010

Novo Layout !!!

. . Por Mistura Indigesta, com 3 comentários

Calma, não mude de site! É o mesmo Mistura Indigesta que você costuma ler, mas com um novo design, mais despojado, mais a nossa cara, mais belo, mais misturado...

O Banner Superior, com Arte Final de Caio Moretto, nosso indigesto publicitário, mostra a arte como sendo a batedeira que, de fato, cataliza os ingredientes sobre os quais nos debruçamos e levamos a vocês, indigestamente, em nossas postagens!

Esperamos suas críticas, sugestões de melhorias e atenção diante de possíveis problemas de funcionalidade do Novo Layout. Terminamos nosso segundo mês com cerca de 825 visitas, somando 1.215 "page views". Nada mal para um público tão seleto como o nosso!

Daqui pra frente, novas seções e parcerias. Aguardem o que virá!

Abraços Indigestos,

Equipe Mistura Indigesta

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segunda-feira, 1 de março de 2010

Nous Sommes Tous des Immigrés

. . Por Caio Moretto, com 10 comentários

Logo_600_800_24clEscrevo este post no calor morno do acontecimento. O dia acabou, mas os desdobramentos ainda não vieram. A imprensa ainda mal teve tempo ou vontade política de comentar. Mas hoje, dia 1 de março de 2010, aconteceu na França O Dia Sem Imigrantes (“La journée sans immigrés”).

A idéia é simples e arriscada: fazer-se notar pela ausência.

Todos os imigrantes aderentes à causa pararam de trabalhar e de consumir por 24 horas. Qual foi a força do movimento? Qual será a repercussão? Ainda é difícil medir.

Em 2004 foi lançado o filme A Day Without A Mexican, uma ficção um tanto esquisita cuja trama é o desaparecimento de repentino de todos os mexicanos dos Estados Unidos.

Em 2006 a vida imita a arte e ocorre nos Estados Unidos da América, no dia 1 de maio, o Great American Boycott ou El Gran Paro Americano, o primeiro Day Without An Immigrant (dia sem um imigrante).

A manifestação de hoje teve um grande azar estratégico. Marcada há alguns meses para a data, ela terá que dividir a atenção da imprensa e da população francesa com uma catástrofe climática. Ontem uma tempesatade arrasou o oeste francês e, sem distinguir imigrantes de não imigrantes, deixou um trágico rastro. Contra um inimigo maior todos se unem?

Enfim…

Separei um vídeo de Chevallier et Laspalles, dois dos melhores comediantes que eu já vi, fazendo uma grande sátira ao racismo e à xenofobia.

Como você pode reparar, o vídeo está em francês. Caso você não tenha achado a menor graça por falta de tradução, vou contar apenas o final:

- É como o direito de voto aos estrangeiros. Eu não sou contra, desde que eles votem como eu.

- E você vota em quem?

- Naqueles que não dão direito de voto aos estrangeiros.

Em maio de 1968, gritavam “Nous sommes tous Juifs allemands” (Somos todos judeus alemães). O Post termina como uma introdução à discussão que acompanharemos nos próximos dias com o novo slogan da solidariedade: “Nous sommes tous des immigrés”.

Somos todos imigrantes.

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