VÍDEO: MURILO CAMPANHA CONTA ITATINGA

O psicanalista Murilo Campanha fala sobre Itatinga, um dos maiores bairros de prostituição da América Latina, onde ele tem seu consultório.

O nadador

Uma crônica de Hugo Ciavatta.

Ainda que as bolachas falassem

Crônica de Fábio Accardo sobre infância e imaginação

Ousemos tocar estrelas

Uma reflexão de Thiago Aoki.

Entre o amarelo e o vermelho

Uma crônica de Hugo Ciavatta

O homem cordial vinhedense

A classe média vai ao barbeiro. Uma crônica de Caio Moretto.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Futebógrafos

. . Por Thiago Aoki, com 1 commentário

Já mostrei, por este blog, contornos de minha paixão pelo Futebol. Corinthiano roxo, a mais remota lembrança que me vem à mente é estar nos ombros de meu pai, em um bar da longínqua Lins, assistindo jogos do brasileiro de 1990, com menos de três anos de idade, o que me faz questionar se não nasci já com o gene alvi-negro - ainda que eu tenda a delegar tudo no mundo como uma construção social. Eis que hoje necessitava escrever algo para o Mistura, porém não sai de minha cabeça o Corinthians e sua estreia na libertadores, então resolvi misturar indigestamente Arte e Futebol, apresentando três trabalhos de artistas-craques que tratam o tema com maestria.

O primeiro, Caio Vilela que, paralelamente ao seu trabalho de jornalista, quase que como hobby, começou a tirar foto de todas as peladas com as quais se deparava por todo o mundo. A brincadeira tornou-se o livro "Futebol sem Fronteiras", com imagens surpreendentes nos mais inusitados destinos. Ganhou notoriedade há algumas semana ao participar do programas Altas Horas, da TV globo. A entrevista no vídeo abaixo, realizada pela Folha de São Paulo, ajuda a melhor compreender seu trabalho.



O segundo, Daniel Kfouri, muito bem apadrinhado por Juca Kfouri, seu pai, um dos mais renomados analistas esportivos do país. Mas, diferentemente do que os conspiracionistas podem pensar, seu trabalho mostra que o sucesso do filho não é resultado do jabá e curujice do pai. O fotógrafo, que já reformara visualmente a revista Sexy e fora chefe de arte da Caros Amigos, acaba de ser premiado pelo tradicional World Press Photo. As fotos especialmente bem finalizadas, possuem um tom mais artístico, em geral preto e branco, aproveitando muito dos contrastes. Coloco ao lado um aperitivo cujo prato principal pode ser melhor degustado em seu site oficial, no qual eu destacaria a galeria "Várzea II", com fotos simplesmente esplendorosas.

Por fim, o trabalho de João Máximo e Leonel Kaz. Ambos, desta vez não-fotógrafos, publicaram o "Brasil: Um século de futebol", selecionando 180 imagens dentre as 60 mil que por suas mãos passaram. Este livro foi um pouco deixado de lado pela mídia, talvez pela falta de apadrinhamento dos autores ou alto valor da obra (em torno de R$150,00), porém não fica atrás das obras anteriores. É uma compição de fotografias desde 1886 aos dias atuais que, complementado pelo texto dos organizadores, recontam a história do futebol brasileiro. Mostra muito bem como no Brasil, qualquer lugar é lugar para uma boa pelada. Deixa um pouco de lado a fotografia glamurosa grandes clubes e grandes torcidas para destacar-se com o futebol do cotidiano, da várzea e do improviso, aquele que efetivamente faz do Brasil o país do futebol. O livro possui fotos incríveis, como a pernas tortas de Garrincha, Leônidas da Silva no alfaiate, Didi andando de bicicleta com Pelé, mas desistam, para mim, nenhuma delas superará a da capa do livro (dir.), um extenso campo de terrão que abriga dentro das suas quatro linhas uma enorme árvore assistindo tranquilamente ao rachão, o qual sequer podemos entender a divisão de times. Mas não se deixem levar apenas pelas imagens, os textos são ótimos e perpassam temas desde racismo até o futebol colocado como cultura nacional.

Isso sim é futebol-arte. Às vezes, em meio a tantas brigas e tumultos por causa da redonda, me pergunto se uma educação que nos ajude a ver o futebol como um todo não seria a melhor maneira de combater a violência no esporte, mas isso fica para um próximo post porque agora é hora de torcer pro Corinthians - e seja o que Deus quiser.

Com que roupa eu vou...

. . Por Fábio Accardo, com 6 comentários

Pego carona em post de um de nossos indigestos, volto a falar de Noel Rosa mas sobre outra perspectiva. Acontecimento anterior ao Carnaval 2010 e que marcou o início dos eventos de homenagem da nossa querida Academia Brasileira de Letras: Noel, o Acadêmico do Samba.

Cartola já anunciava sobre os "tempos idos" nunca esquecidos de uma história que começa lá na Praça Onze e que atingiu até marte (Coisinha do Pai, letra de Jorge Aragão na voz de Beth Carvalho, que despertou os jipes do Laboratório de Propulsão a Jato - JPL, na quadragésima nono dia da missão em Marte. No dia seguinte os robôs foram despertados com Samba de Marte, também Beth Carvalho). Esse ano o enredo da Unidos de Vila Isabel homenageou o poeta que nasceu la na vila e nem sequer vacilou com o feitiço que tal vila poderia rogar em todo o mundo. "Noel a Presença do 'Poeta da Vila'" foi o título para o enredo da escola de samba da vila, com samba de Martinho da Vila para o desfile de 2010 (que obteve o quarto lugar).
Voltando ao tempos idos, falemos dos tempos vindos e da importância que trás Cartola do samba ter entrado no Municipal, porque se hoje ele é branco na poesia, ele é negro demais no coração. O que presenciamos é a entrada do Poeta da Vila na Academia Brasileira de Letras, ABL, com o título de "Acadêmico do Samba". Do poeta humilde, de vida efêmera (pelo anos de vida. Morreu com 26 anos), com mais de 300 composições, Noel de Medeiros Rosa, ou popularmente Noel Rosa, foi coroado com uma homenagem ao seu centenário na ABL.
Interessantes como se dão muitas vezes as coisas na campo artístico. As relações de força na estrutura desse campo de legitimação e valorização da arte, necessitam muitas vezes de instituições que legitimariam o que é arte, como valorizar tal arte e se tal manifestação artística tem valor cultural. Nessa dinâmica se percebe a força legitimadora da ABL em tornar um dos maiores compositores e sambistas do Brasil em um Acadêmico do Samba. Somente depois de apenas cem anos de seu nascimento Noel pôde ser reconhecido com um "verdadeiro" poeta. O reconhecimento (não mais que uma mera homenagem) pela academia, faz tratar, agora, o samba como arte, literatura, coisa de valor. O que antes era malandragem, que virou mercadoria, e até identidade do brasil, hoje pode ser reconhecido como literatura.
Sim, para o samba e sambista, não creio que há ressalva alguma, talvez, glória e satisfação. No entanto, não é pelo samba ou para o samba que existe uma estrutura que continua a legitimar e poder falar o que é ou não arte, ou literatura. Há um campo em jogo, em conflito, em que, aqueles que querem devem seguir e jogar suas regras. Quem sabe revolucioná-las, e assim serem a vanguarda de tal campo.
Martinho e a agremiação da Unidos de Vila Isabel, foram convidados a dar a largada nas comemorações do centenário do acadêmico do samba. Participaram de um almoço e fizeram o carnaval em frente a ABL. Organizador do evento, o presidente da ABL, Marcos Vilaça, conhecido por tentar aproximar a academia com o grande público (já realizou outras homenagens como a Villa-Lobos, Roberto Martins e Ataulfo Alves), disse que essa homenagem "é sinal de uma grande abertura" na ABL. Será?

Agora Martinho teve que se perguntar com que roupa iria em evento tão sublime?!

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Escritores Políticos, espécies em extinção

. . Por Thiago Aoki, com 3 comentários

Recentemente, em uma ida ao banheiro, não pude escapar da revista Veja, a única leitura presente no estabelecimento, se isentarmos da contagem as contracapas de pastas de dentes e desodorantes. Não que eu esteja me justificando, porque o bom sociólogo não é aquele que se nega a ler a Veja, mas sim o que se questiona sobre o porque do sucesso da revista, e para isso é preciso lê-la.. Pois bem, folheando, caí em uma matéria intitulada "Cem anos de adulação", que especulava sobre os bastidores da amizade de Gabriel Garcia Márquez (foto), autor de "Cem Anos de Solidão", e Fidel Castro, ícone político mór de Cuba. Bom, a matéria era ruim, primeiro por seu tom especulativo e panfletário. Segundo por colocar-se contra o apoio de Garcia Márquez ao regime da ilha através de argumentos pessoais, ao invés de discutir os pontos políticos que levaram o escritor colombiano a apoiar o barbudo cubano. Ao lermos, saímos com a sensação de que Márquez seria um tolo num mundo inexistente criado por sua imaginação, o que seria menosprezar por demais o conceituado autor, de biografia notável, nobel, estudioso de Simon Bolívar.

Mas o fato da revista dedicar tal espaço para uma matéria deste naipe nos faz refletir como o posicionamento político dos escritores já tiveram influência grande, embora hoje tenham sido descreditadas.

Pela esquerda, poderímaos citar, além de "Gabo" Márquez, os controversos posicionamentos políticos do português José Saramago que apoiou e desapoiou Cuba durante tempos ou mesmo Eduardo Galeano, cujo famoso "Veias Abertas da América Latina", que virou espécie de manifesto contra a opressão estadunidense-europeia sobre os latinos. Tem também o poeta chieleno Pablo Neruda que fazia dobradinha com Salvador Allende. Se voltarmos um pouco mais no tempo, em terras tupiniquins, temos Jorge Amado, na tentativa de fundar o "realismo socialista" brasileiro, ou mesmo Graciliano Ramos que esreveu seu "Memórias do Cárcere" baseado em memórias enquanto preso pela repressão de Getúlio Vargas. O próprio Oswald de Andrade e toda a penca modernista. Mais adiante, os incontáveis poetas e escritores da geração que lutou contra a Ditadura Militar brasileira.

A direita também não fica atrás. Recentemente, um livro intitulado "Cartas a favor da escravidão" balançou os hitoriadores ao mostrar diversos documentos escrito por José de Alencar, nos quais o autor defende a escravidão no país. Na Argentina, o ótimo Jorge Luís Borges disse que faltou aos argentinos lerem mais Domingo Sarmiento, historiador estampado até hoje nas notas de 50 pesos argentinas, cuja principal tese, a grosso modo, é a da supremacia civilizatória dos brancos de características europeias do centro da Argentina sobre os gauchos e índios das províncias mais isoladas. Que dizer então de nosso Nelson Rodrigues, além de escritor, um dos maiores dramaturgos brasileiros, que se auto-considerava moralista e conservador, autor de máximas como "As feministas querem reduzir a mulher a um macho mal-acabado" ou "Toda mulher gosta de apanhar. Todas não, só as normais, as neuróticas revidam" e franco apoiador do regime militar, embora tenha lutado para tirar amigos como Hélio Pellegrino e Zuenir Ventura da prisão.

Isso porque ficamos nos escritores, sem partir para cineastas, músicos, entre outros campos artísticos. Porém, hoje, pouco vemos dessa ligação íntima entre arte e política. Os escritores acabam por limitar-se a escrever, num repúdio à política jamais vista anteriormente. As críticas dos escritores contemporâneos, mesmo nos bastidores, limitam-se aos costumes (estilo Simpsons) ou à política de gabinete (estilo CQC), sem extender-se ao fazer política como um movimento maior, organizado. Provavelmente devido à crise causada pela confluência entre direita e esquerda e a aversão à política quase como um senso comum dos meios de comunicação dominantes. Apoiar o PT hoje, por exemplo, significa ser de esquerda? Ou que você está buscando um tipo de resistência ao capitalismo? Há até quem diga que Serra está à esquerda de Lula, PT, PSDB e DEM fazem acordão por doação oculta, dentre outras bizarrices que nos provocam saudades de tempos em que a batalha entre direita e esquerda era travada por Carlos Lacerda e Brizola, respectivamente. Após a queda do muro, pouca separação e alternativa tivemos quanto ao fazer política tradicional, isso somado-se ainda às crises dos movimentos sociais e inexpressão dos partidotes da extrema-esquerda. Afinal, que editora contrataria um empregado demodé e invendível, com esse papo de transformação social e apoio a esta ou aquela organização (argh!) política? (o que é, na verdade, uma balela porque o fato de você não ter uma postura política já está sendo político a partir do momento que beneficia àqueles que lucram com uma sociedade nulamente pensante)

Se continuarmos assim, preparemo-nos, por enquanto os escritores estão mergulhados na apatia política, mas logo chegarão os escritores ambientalistas, de livro feito com material reciclável e letras verdes, cujas fábulas serão mais moralizantes e politicamente corretas que as de Esopo.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Nona Sinfonia, microcosmo social.

. . Por Thiago Aoki, com 1 commentário

Antes de começar, deixo claro: música clássica nunca foi o meu forte. Embora tenha dado diversos mergulhos, ainda me parece um lugar muito distante e enigmático, ainda mais se levada em conta minha ignorância técnica para tal. Mas ocorre que, cada dia mais, tem me incomodado essa limitação. Assim, youtube afora, busquei informações e linhas cronológicas para me inteirar do assunto, porque pra mim, sentir uma música, foge à racionalidade estrita. Não precisamos saber sobre o movimento na partitura para sentir a religiosidade de "Jesus, alegria dos Homens", de Bach; ou para saber a grandeza de João Carlos Martins em seu piano, dentre tantos outos exemplos. Com estas inquietações na cabeça, chamou-me a atenção uma frase que li, atribuida a Bakunin, que após assistir à "Sinfonia n. 9" (no vídeo abaixo, sob regência de Leonard Bernstein), de Ludwig Van Bethooven, em concerto de Wagner, teria se levantado e afirmado que "tudo passará, o mundo perecerá, mas a nona sinfonia permanecerá". É esta sinfonia e sua eternidade o motivo desta postagem.





A relação entre Campo Muscial e Ciências Humanas é, por vezes, complexa e mal estabelecida. O potencial da música enquanto fonte documental é, recorrentemente, ignorado pelos analistas socias, que limitam-se a analisar as letras para ilustrar seus pontos de vista. Mas, como fazer uma análise sociológica/histórica de uma música clássica ou instrumental?

Weber já respondeu essa pergunta. Então, como que por brincadeira Weberiana, analisar ainda superficialmente a sociologia embutida na nona sinfonia de Beethoven começa a ficar divertido. Isso porque nela, e em Beethoven, temos implícitas algumas das mais importantes características da sociedade moderna.

1) Sociedade do espetáculo e estratificação de classes - Guy Debord, filósofo marginalizado em sua época, e agora retomado por qualquer sociólogo que estude a sociedade contemporânea, demonstra o vértice central que ocupa a espetacularização dos elementos em todos os setores sociais. Beethoven, foi um dos primeiros a levar a música que adornava festas nobres para o centro dos espetáculos públicos. Os músicos não mais apenas alegrariam as cortes, mas seria a música o próprio espetáculo e quem quisesse que a fosse contemplá-la. Se hoje existem espetáculos artísticos da proporção do "Cirque du Soleil" ou "Blue Man Group", agradeçam ao compositor. Observando essa inovação de Beethoven em colocar a música como "prato principal", clarificou-se as camadas sociais em interação e conflito no século XIX. O espetáculo está dado, mas para se ter acesso ou ser protagonista do mesmo era preciso passar por uma seleção social rigorosa. A grandeza dos espetáculos e busca por status daqueles que os assistiam contrastava com a exploração social vigente no campesinato e trabalho urbano nascente. Beethoven era pra poucos, assim como hoje ainda temos nichos sociais predominantes em cada música, ainda que em menor proporção, ou vocês pensam que o público consumidor majoritário do Chico Buarque é o mesmo do Calypso?

2) Apropriação Política da Arte - Isso já é velho, mas acompanha a história da nona sinfonia. Como se sabe, a nona sinfonia é inspirada no poema do alemão Friederich Schiller, intitulado "À Alegria". Os nazistas bizonhamente colocaram o compositor e poeta, ambos adeptos dos ideais da Revolução Francesa, como símbolo da grandeza cultural do Reich e da superioridade da raça ariana. Vejam este vídeo de 1942 e tenham uma ideia. Talvez por isso Kubrick ironizou no famoso "Laranja Mecânica", em cena em que o rapaz torturado era obrigado a ouvir por horas a nona sinfonia. Vale também lembrar que a sinfonia, rearranjada por Hebert Von Karajan, tornou-se hino da União Europeia.

3) Nação e Transição - O quarto movimento, o mais conhecido da música - aquele utilizado por brinquedos de bebês, trilhas sonoras de filmes, entre outros - chama-se "Ode à Alegria", e ao ouví-lo, o que percebemos, a partir da progressão de suas notas, é a o mesmo movimento da esperança e grandeza, o que diz muito sobre nacionalismo nascente e dominante no século XIX. Alguns pedagogos e musicólogos dizem que ouvir Beethoven e Mozart durante os primeiros anos de vida ajudam os bebês desenvolver o cérebro e percepção, mas me parece que o que vale mesmo são as emoções sentidas durante todo o trajeto da sinfonia.

Apenas uma brincadeira, apontamentos superficiais que nos ajudam a entender a razão da dimensão da arte ou porque algumas obras se tornam eternas, ou, sob a hégide de uma frase do próprio Beethoven, "a música é uma revelação superior a toda sabedoria e filosofia". Mas, o mais importante é que não pensemos que a música, essa reveladora, esteja isenta do todo social. Também nela - de Calypso a Beethoven, de "Rebolation" à "Nona Sinfonia" - estão contidos elementos e contradições de uma época. Distrinchar com a lupa humana essas nuâncias é tarefa nossa, ainda que com muita dificuldade saibamos diferenciar flauta de clarinete.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Meneghetti. Um texto em fuga.

. . Por Caio Moretto, com 1 commentário

Fuga é um estilo de composição musical em que um simples tema é imitado em várias vozes se sobrepondo, se complementado, se procurando e se evitando. Fugare, perseguir. Fugere, fugir.

Este post é sobre um texto em fuga.

Meneghetti é um daqueles personagens entre a ficção e o real. Conhecido como o Gato dos Telhados, assim como a personagem fictícia de Augusto Boal em Contos de Nuestra América, o chamado “bom ladrão” Gino Meneghetti disputava o ódio e a admiração secreta de quem acompanhava seus golpes e aventuras.

“Jamais roubei um pobre. Só me interessa tirar dos ricos, e tirar jóias, que são bens supérfulos que só servem para alimentar a vaidade”. (Frase de Gino que explica bem sua fama de bom ladrão)

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Carreira incrivelmente longa para a profissão, foi preso pela última vez aos 92 anos tentando arrombar uma casa. A versão de Meneghetti é outra. Teria sido reconhecido por um policial que identificando o maior ladrão de São Paulo quis fazer nome as suas custas.

Verdade ou não, foi lá que o prenderam e foi lá que Mouzar Benedito fez questão de lançar seu novo livro Meneghetti: o gato dos telhados, pela coleção Paulicéia.

Eu talvez fosse o único na ocasião que não conhecesse pessoalmente o autor. Esta primeira impressão que tive foi logo colocada em cheque quando, com a mesma espontaneidade e o mesmo sorriso que confraternizava com os amigos, me incluiu na conversa como se sempre tivesse pertencido ao grupo.

A primeira pergunta não foi minha, mas anotei como se fosse.

Ta dando para viver de livros?

Mouzar IIMouzar revelou alguns números, fez umas contas em voz alta e, em tom alegre, mas sem perder a oportunidade, concluíu.

Se eu estivesse dependendo disso para viver já teria morrido de fome uns 10 anos atrás.

Sabia que a entrevista continuaria enquanto ele estivesse assinando contracapas e, para a minha sorte, de uma sacola, a senhora que puxava conversa tirou logo três exemplares.

Todo mundo gosta do Meneghetti. Eu saí até na Folha.(Risos) Eles não escreviam sobre nada que eu fazia há uns 10 anos.

Compartilhei os risos e me senti no direito de fazer uma pergunta.

O senhor conheceu o Meneghetti?

Não.

Demorou um segundo em pensamento. A frase seguinte só poderia começar com um “mas”.

Mas sabe que depois que estava escrevendo o livro descobri alguns amigos que estiveram presos junto com ele. (risos)

Naquele momento a resposta me pareceu natural. Porém com os livros em mãos a leitura flui de tal forma que cheguamos a duvidar: será que Meneghetti não é uma personagem do Mouzar? Talvez um anti-herói criado por Luis Gê que tenha saltado dos quadrinhos para a realidade.

A história de Meneghetti prende a atenção mesmo nos textos jornalísticos da Folha publicados em 1926 e 1976, fato que cria, assim como esse post, uma grande expectativa sobre o livro.

A relação entre escritor e ladrão beira uma cumplicidade ideológica. As interrupções dos comentários em primeira pessoa ao mesmo tempo que desligam o leitor da narrativa, lembram que a história é real e contextualizam os sentimentos paradoxais da sociedade paulista.

O livro ainda republica a HQ de Luis Gê, criada em 1976 para o jornal Versus.

É um resumo em polifonia. Um texto curto, que não perde o ritmo, exatamente porque varia e que busca a história de Meneghetti em várias vozes que se perseguem e se evitam.

Um texto inteiro em fuga: autor, personagem e estilo.

“…o próprio Meneghetti , em certas ocasiões, dizia ser tolice reconhecer um roubo, embora em outras anunciasse que era mesmo o ladrão”. (p.21)

DedicatoriaMouzar

Dedicatória de Mouzar para o Mistuta Indigesta:

“Para os amigos desta Mistura Indigesta, a história resumida de um personagem que também era indigesto para a elite paulista. Um abração de Mouzar. SP. 28/1/10”

*Imagens e trechos retirados de outros sites e blogs têm link direto com a fonte original.

domingo, 7 de fevereiro de 2010

Cadê o controle remoto?

. . Por Hugo Ciavatta, com 5 comentários

Há um enunciado, impreciso de minha parte, que atribuem a Deleuze, ou a Deleuze e Guattari, que gostaria profundamente de conhecer a obra, ou contexto em que ela foi utilizada. Isto, porque me dá receio falar dessa frase como se conhecesse os mesmos filósofos e suas respectivas obras. E possivelmente só me lembre dela porque um professor a repetia sempre muitas vezes. Tenho pra mim que em O que é a filosofia? a sentença a que me refiro não está. Como um excelente aforismo, é curta, bastante ampla e, por isso, me soa perigosa, pois assim me parecem aforismos: quando uma mesma sentença é utilizada em contextos diferentes, pode ter seu sentido muito alterado, quem a enuncia lhe atribui um significado desejado, e que outrora poderia não possuir. Mal comparando, seria como vestir roupas pretas dizendo ser “anarquista”, pois assim foram um dia identificados os integrantes desse movimento, e ainda podem ser; só que na Itália do período Mussolini, a cor negra das roupas lembraria os “camisas negras”, por exemplo, que nada tinham de “libertários”. Desse modo, é bom saber o contexto no qual uma oração é empregada para não cair em um quadro teórico indesejado.
Passados poucos dias da tragédia incomparável que se sucedeu no dia 12 de janeiro de 2010 no Haiti, o mundo inteiro sabendo, comentando e já tendo visto, pelos mais diferentes meios de comunicação, a magnitude de tudo, eu me perguntava qual era o sentido de “tolerar o intolerável”, de Deleuze. Acompanhando a reação de algumas pessoas, repetidas vezes, pedindo para trocar de canal na televisão, ou mudar de assunto, diante do "Haiti". Não toleramos, ou toleramos o intolerável? Será que cabe a oração nesta circunstância? Também me canso de repetições, era exaustivo tudo aquilo, um show, no sentido perverso do termo, um espetáculo macabro de imagens e vídeos. Um país esquecido, explorado, abandonado pela história dos destinados ao “progresso da civilização”, e que então se tornou o centro das atenções, mais do que nunca, urgentes. Por que virar o rosto e seguir caminho? Insensibilidade, não são pessoas legais? É como um filme de terror?
Outro filósofo, estadunidense, Richard Rorty, num conhecido debate com o antropólogo Clifford Geertz sobre etnocentrismo, relativismo, diversidade cultural, pontua muito bem um traço de nossa sociedade liberal, democrática: a tolerância à diversidade. Abriríamos constantemente, afirma Rorty, novas janelas para o mundo, para a multiplicidade presente nele, com cuidado, já que, mesmo assim, não compartilharíamos determinadas crenças, valores, pensando em radicalismos e fundamentalismos religiosos espalhados mundo afora. Tenho cá pra mim que, se não ignoramos “as janelas abertas”, estamos é fechando-as.
Agora, o que me deixou profundamente ... sem saber o que dizer ... foi um comentário no jornal Folha de São Paulo após o depoimento do nosso professor, Omar Ribeiro Thomaz, no mesmo jornal. Thomaz estava no Haiti junto com alunos e amigos nossos, desde o início de janeiro, o artigo dele foi publicado no dia 14 de janeiro. No relato de Omar, há um trecho claro, explícito, onde aquele país depois de um passado de escravidão negra, da proclamação da república ignorada, de um cenário político durante a Guerra Fria que os submeteu, como a quase toda América, à agenda estadunidense, de intervenção americana também sobre a economia, que sobre o manto da "ajuda" só destruiu, enfim, a forma como tudo isto pode se expressar seria então na cor da pele. Transcrevo: “Diante da fúria da natureza não cabe outro sentimento que o de uma frustração que deita raízes numa história profunda e que subitamente pode ganhar cor: o mundo dos brancos nos destruiu; o mundo dos brancos diz que quer fazer alguma coisa, mas o que faz, além de nutrir seus telejornais com fotos miseráveis que só fazem alimentar a satisfação autocentrada dos países ditos ocidentais? Não são poucos os agentes das organizações internacionais que anunciam que a “comunidade internacional” estaria cansada do Haiti. Após escutar os haitianos ao longo de anos, de tentar entender o sentido de sua história, digo que são os haitianos que estão fartos das promessas daqueles que dizem representar a “comunidade internacional”. E então, no dia seguinte, surge o dito comentário infeliz: "Assim como muitos sindicatos usam a luta de classes contínua como ferramenta para alimentar o seu fundo de comércio, alguns antropólogos parecem usar a luta racial para o seu. É o que concluo após a leitura do aloprado artigo de ontem de Omar Ribeiro Thomaz. Se alguém tiver dúvida de que a antropologia brasileira do século 21 tem uma agenda ideológica muito definida, basta ler as paranóias publicadas naquele artigo. São as viúvas do comunismo procurando outras bandeiras para prosseguir com sua luta destruidora da sociedade, não respeitando nem as tragédias dos povos." (João Luiz Da Costa Carvalho Vidigal - São Paulo, SP).
Por favor, “luta destruidora da sociedade, não respeitando nem as tragédias dos povos”?
?
O que seria “respeitar”? Tolerar o intolerável?
Por fim, dias depois, um dos editores do mesmo jornal, Ruy Castro, resumiu bem: “Nenhum livro, filme ou série de TV jamais poderá dar conta da real dimensão da tragédia de Porto Príncipe. Mesmo a simples reconstituição de um desses – daqueles – dramas individuais está além da capacidade humana de descrever o terror”. Só me pergunto qual o “terror” é aquele que vivemos, estando ou não no Haiti.
Quando inventarem um controle remoto pra trocar desses “tipos de canal”, por favor, me avisem...

sábado, 6 de fevereiro de 2010

O que José Paulo Paes me mostrou sobre o concreto.

. . Por Thiago Aoki, com 3 comentários

Trabalhar em uma livraria tem seus benefícios, dentre os quais conhecer as novidades dos mercados editorias ou simplesmente ter acesso a um acervo bem maior do que a estante de nossa casa. E foi por lá, em 2008, tive acesso a uma velha novidade, um livro do poeta brasileiro José Paulo Paes. Pouco conhecia do autor, na verdade acho que só a sua "Canção do Exílio Facilitada", presente em praticamente todos os livros didáticos de literatura que já passaram por minhas mãos. Bom, o próprio título do livro, "Poesia Completa", me exime de descrever do que se trata, mas não de recomendá-lo veementemente.Sua leitura, á época, me ajudara a enfrentar um antigo trauma que possuía com relação ao movimento concretista. Explicarei como.

Foi bem antes, durante um flerte com os soviéticos, em especial com Maiakoviski que havia chegado aos concretistas brasileiros como Décio Pignatari, Augusto de Campos, entre outros, que bebiam na fonte de uma citação do poeta russo: "Sem forma revolucionária não há arte revolucionária". A ideia proposta pelos cconcretistas de acrescentar o elemento visual à poesia, bem como quebrar com um certo expressionismo reinante daquele tempo, me parecia um interessante movimento no modernismo reinante. Era uma retomada da antropofagia e do Oswald de Andrade, ou seja, mostrar como a transformação deve ocorrer em um movimento que se proponha anti-tradicional. Mas algo não me descia naquilo. Gostava de alguns poemas do Pignatari (Em especial Beba Coca-Cola) e das peripécias visuais de Augusto de Campos, mas algo me limitava em suas leituras. Problematizei então a mudança de uma forma poética enquanto talvez o leitor (no meu humilde caso) não estivesse preparado para tal. Eu via as poesias, mas não lia. A poesia concreta tem um ritmo e uma fluência, como todas as outras poesias, mas como saber identificá-lo? Na poesia tradicional, ou até mesmo no modernismo, é muito mais fácil. Esse choque com o novo me aproximou e distanciou, ao mesmo tempo, da poesia concreta.

Pois bem, como eu dizia, trabalhar em uma livraria tem seus benefícios, mas engana-se quem pensa que é como estar em uma biblioteca. Para que a megastore esteja impecável, é preciso muito trabalho, uma escala 6x1 mortífera e ainda paciência e sorrisos para o cliente. Tempo para os livros mesmo, pouco, afinal, não se quer um Dostoievski após trabalhar oito horas em um shopping, ainda mais tendo que concluir a faculdade no período noturno, mas serve para entendermos porque os reality shows fazem tanto sucesso em um mundo de trabalho precarizado. Enfim, o livro de Paes chegara, durante a arrumação da sessão de "lançamentos" da loja, em minhas mãos. Abri em página qualquer, por rotina, como que buscando saber para qual perfil de cliente indicaria e:

SEU METALÉXICO

economiopia

desenvolvimentir

utopiada

consumidoidos

patriotários

suicidadãos


Abri em outra, aleatório:

EPITÁFIO PARA UM BANQUEIRO

negócio

ego

ócio

cio

o

E ali, naqueles dois poemas acho que consegui, senão entender o concretismo por si, entender o que ele poderia signifcar para mim, ou seja, o que me faltara no passado. E assim foi, durante cada brecha do serviço, nos poucos tempos que restavam do atarefado almoço e antes de dormir, exausto, era aquela poesia concreta que lia, talvez porque era aquilo que conseguia ler, que tinha tempo de ler e que me lembrava da fragmentação e pragmatismo de um mundo que exige de você compreensões semióticas que vão muito mais além do imediato, ou de um mundo em que a delonga não é permitida. Nada mais concreto do que trabalhar no shopping. Sim, o concretismo fazia sentido. Meu reencontro com o autor veio alguns meses depois, em outro livro. no mesmo procedimento Era uma coletânea de haicais da Cia das Letras, série Boa Companhia, e, por incrível que pareça, em mais uma abertura aleatória de página, caí nos haicais do mesmo Paes, que sequer eu sabia integrante da coletânea

Apocalipse

O dia em que cada
habitante da China
tiver o seu volkswagen

---

LAR


espaço que separa
o volkswagen
da televisão

Daí pra frente, foi consequência. Pesquisei mais, vi que tinha ótimos trabalhos de conotação infantil, mas falsamente ingênuos, como "Ana e o Pernilongo" e "Dicionário". Descobri em um dos seus poemas, versos entre os mais bonitos que já li, sobre uma sociedade machista de sua época em "Outro Retrato" ou o simples, curto e belo Madrigal. Tem também os historiográficos como o já citado Canção do Exílio Facilitada, L´Affaire Sardinha, O segundo império. Entre tantos outros.

Vale a pena ver a excelente entrevista para o Jornal da Poesia, realizada no ano de 1998, em que o autor responde a contundentes questionamentos sobre o que é o "fazer poesia" contemporâneo. E explica a frase provocativa, título de um dos seus poemas, "A poesia está morta e juro que não fui eu": "A poesia morre toda vez que se publica um mau poema. Por isso mesmo, só publico um poema quando acho que estou de mãos limpas. Se me enganei, perdão: mandem-me para a guilhotina. ". Paes, que teve a sorte-azar de ser de uma geração de gênios da poesia como Dummond, Bandeira, entre outros, e acabou um pouco esquecido pela historiografia literária, moreu meses após a entrevista, dez anos antes de eu o conhecer, com as mãos limpíssimas e sem saber que de mim aliviou fardos de traumas e trabalhos.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Guia Básico da Arte, Capítulo I: As Seis Formas da Arte [Parte I]

. . Por Fernando Mekaru, com 5 comentários

Antes de se falar sobre arte e afins, é bom fazer alguns esclarecimentos, e o objetivo dessa postagem e de outras que portem esse título é fazer justamente isso - limpar o meio de campo para entender melhor o que diabos estamos falando aqui.

Na primeira postagem, a abordagem de um tema velho, mas recorrente, que vem da famigerada expressão "sétima arte", utilizada de maneira exagerada por pessoas, publicações e afins para designar o cinema - se o cinema é a sétima, quais são as outras seis, que nunca ouvimos falar por aí? E que papo é esse de "oitava arte" (fotografia) e "nona arte" (histórias em quadrinhos) que só meia dúzia de pessoas gosta de falar?

Para isso, temos que voltar a um dos grandes nomes da filosofia moderna (séc. XVIII e XIX), um dos mais incompreendidos até hoje (parte disso é culpa do próprio autor, que não fazia questão de ser claro na sua maneira de escrever e nos raciocínios que fazia) e o criador da hierarquia de artes da qual o cinema seria a mais recente - George Wilhelm Friedrich Hegel, membro do quarteto fantástico do Idealismo Alemão e parceiro da dupla dinâmica Hegel-Kant do Iluminismo Filosófico.



"Mas por que vou estudar esse cara ultrapassado, prolixo e que dizem pra eu não ler porque ele é de esquerda?!", os leitores podem exclamar. Por dois motivos: Hegel foi o filósofo que inventou a classificação das artes em seis formas - ou seja, é indiretamente o responsável pela criação dos termos "sétima arte" e afins. O outro é que o cara, independente de ser de direita ou de esquerda, continua ecoando nas nossas vidas de um jeito ou de outro com a sua filosofia extremamente complexa e detalhada - o que torna importante saber o que ele escreveu para descobrir o porquê de ter durado tanto e nos influenciar até hoje.

Para compreender essa classificação em seis formas, é preciso primeiramente compreender um dos temas principais da obra do alemão - a sua concepção de arte.

A arte é parte constituinte do sistema filosófico que Hegel desenvolve para a compreensão da realidade e a descoberta de seu sentido: para ele, a atividade humana e toda a sua história tendem a algo que ele chama de Ideia Absoluta - resumidamente, ela é a unidade de todo conhecimento humano, desenvolvido a tal ponto que não se pode avançar além dele, e que representa o ápice desse conhecimento; além disso, a própria vida material e biológica seria uma extensão dessa Ideia: a atividade no mundo material é guiada racionalmente por essa Ideia, através de uma "extensão" da ideia presente nos seres pensantes que o autor chama de Espírito. Complicado, não?

Fica um pouco pior agora: a arte, na visão de Hegel, seria uma das maneiras pelas quais o Espírito é capaz de compreender tanto a si mesmo quanto a Ideia da qual ele é derivado (para efeitos de curiosidade, as outras duas formas de fazer isso são a religião e a filosofia). Ela expressaria essa auto-compreensão do espírito fabricando objetos que tem como fim único esse entendimento de si mesmo, efetivamente expressando de maneira sensorial (audição, visão, tato) toda a liberdade do Espírito. A essa liberdade do Espírito, expressada de maneiras que podemos apreender através dos sentidos, Hegel dá o nome de beleza.

Para Hegel, a verdadeira arte possui esse único propósito - a criação dessa beleza, na qual é possível perceber, através dos sentidos, a liberdade do Espírito. Não há a famosíssima e vazia "arte pela arte", ou a arte revolucionária dos marxistas da teoria crítica, nem mesmo a arte como mera decoração de ambiente - a arte existe com um único propósito: possibilitar o entendimento de nós mesmos, e a expressão de si próprio da maneira mais livre (e, portanto, bela) possível.

Agora que já temos uma definição de arte, podemos tentar descobrir o que são as tais seis formas de arte. Mas isso fica pra próxima postagem - esta já ficou excessivamente longa. Até lá!

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Pandora, Coruja Branca e Paulistão

. . Por Thiago Aoki, com 6 comentários

Primeiramente, gostaria de agradecer ao milhares de e-mail de nossos assíduos leitores dizendo que sentiam falta de minhas postagens. As férias de uma semana que tirei da internet me fizeram bem. Em contrapartida aos quilos a mais, o namoro nos impulsiona culturalmente, pelo menos no que diz respeito ao cinema. Fazia tempo que não enfrentava as telonas, mas resolvi seguir o conselho de um de nossos Indigestos e voltar à ativa. De quebra, foram três filmes. Pela ordem: "Contatos de quarto grau" (Olatunde Osunsanimi), "Abraços Partidos" (Pedro Almodóvar) e "Avatar"(James Cameron). Deixarei o filme do espanhol de lado, acho que está um pouco desconexo em minha cabeça, talvez por não ter encontrado o Almodóvar da freneticidade de seus trabalhos anteriores, mas um filme mais sensível, lento e silencioso. Ficará para uma próxima.Vamos aos que sobraram. Neste post, falarei sobre os filmes de Osunsanimi e Cameron, pois acredito que possam nos dizer muito sobre as limitações e tendências tomadas pelo cinema contemporâneo.

Cameron, cria, através de sofisticados efeitos de computação gráfica e o investimento de U$500mi, Pandora, uma lua do planeta Polifemo, habitada pela também criada civilização Navi. Poderia aqui discorrer acerca das incongruências do filme: sobre o sempre heroi estadunidense, cujo maniqueísmo é extremo ao ser um tetraplégico que enfrenta um insensível capitalista que apenas que explorar Pandora e o chefe do exército que é tão mal que ao bombardear os "inocentes" Navis pede ao piloto do avião: "Vamos logo com isso que eu quero voltar para janta". Enfim, o roteiro é fraco, com discussões superficiais ancorada na "onda ambientalista" que assume o mundo, personagens ridículos e diálogos banais . Mas me recuso a dar ibope para essa discussão, até porque minha cisma contra o politicamente correto já me levara ao cinema preconceituado quanto a isso. Quem quiser ler mais sobre o conteúdo em si, leia a polêmica coluna escrita por Luiz Felipe Pondé na Folha de SP. O que me ficou à mente, entretanto, é a potencialidade dos efeitos visuais. É praticamente impossível não se sentir atraído pelo universo criado, pela riqueza de cada detalhe de Pandora e dos Navis. Se deixa a desejar no conteúdo, sobra em seus recursos técnicos. Um enredo completamente fantasmagórico, mas que, no cinema 3D, assume ares de realidade. Impressiona como nos satisfaz o sentimento de participar do cinema tridimensional como estar participando de uma quase-realidade, de tão otimizada a qualidade da imagem. O próprio título "Avatar" remete a uma representação do real, através de um mundo paralelo, virtual. Não duvido que, em breve, tenhamos outras formas sensoriais como o olfato ou o paladar, dentro da sala cinematográfica. O paradoxo de presenciar um filme, na minha opinião, ruim, mas, ao mesmo tempo, sair do cinema com a estranha sensação de que não teria graça mais assistir qualquer filme que não fosse 3D, me aporrinha as paredes da caxola.

"Contatos de quarto grau" também se apropria de nossa relação com a realidade para causar impactos no espectador. Este já é um filme mais bem feito, entreteu durante todo o tempo, eletrizante, sabe criar um ambiente de suspense assustador sem ser vulgar, valeu o ingresso. Trata-se de uma psicóloga, Abigail Tyler, que, após morte misteriosa do seu marido, também psicólogo, resolve dar sequência aos estudos do mesmo. Para isso, se manda para o Alaska, onde, para seu espanto, diversas pessoas, que sequer se conhecem, têm crises de insônia após sonhar com uma coruja branca, todas entre 2h e 3h da marugada. Então, a mulher recorre à hipnose para entender melhor o que se passa com os pacientes durante as noites de sono interrompido, e por aí vai. Mas o que inova mesmo é a utilização de áudio e vídeos reais gravados pela psicóloga durante as seções. Veja o Trailler abaixo para ter uma ideia.




Eu mesmo sou cético quanto a ET´s, OVNIs ou coisa que o valha, é um assunto que não me desperta tanto interesse, porém o filme me deu calafrios. Esses documentos são colocados em momentos estratégicos, nas situações mais apavoantes, mesclando com a atuação dos atores, e consegue cutucar o ceticismo racional com vara curta. Aquela coisa de "uma imagem vale mais que mil palavras" não vale só pro corno que pega no flagra. Se, quando sabemos que o filme é baseado em fatos reais já temos um elemento a mais na emoção do suspense, no "Contatos", além desse recurso, temos o vídeo e áudio do registro da pesquisa, o que amplifica ainda mais o medo.

Nessa instrumentalização do real para conquistar o espectador, apresentada de forma distinta por ambos filmes, temos o alicerce daqueles que ganham, ano a ano, peso no mercado da produção cinematográfica. A fantasiosidade performática do Avatar, ou do Crepúsculo, com vampiros que fazem cosquinhas em Anne Rice, por um lado. E a espetacularização do real (achavam que era só o Datena?) em filmes como "Contatos" ou o "Exorcismo de Emily Rose", por outro.

Ainda com medo de sonhar com corujas brancas e com raiva de ter pertido dez minutos do Corinthians e Palmeiras - o que me custou o gol do Jorge Henrique, melhor jogador do Brasil, na atualidade - para ver a guerrinha entre Navis e Colonizadores, saí das múltiplas seções do cinema com uma ideia fixa concluinte: vamos ao cinema para reencontrar nossa relação com o mundo, desafiando cada filme, para que ele supere ou corrobore aquilo que, de fato, acreditamos. Quando não acontece nem um nem outro, bem melhor o campeonato paulista, ainda mais se o Corinthians vencer...

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