VÍDEO: MURILO CAMPANHA CONTA ITATINGA

O psicanalista Murilo Campanha fala sobre Itatinga, um dos maiores bairros de prostituição da América Latina, onde ele tem seu consultório.

O nadador

Uma crônica de Hugo Ciavatta.

Ainda que as bolachas falassem

Crônica de Fábio Accardo sobre infância e imaginação

Ousemos tocar estrelas

Uma reflexão de Thiago Aoki.

Entre o amarelo e o vermelho

Uma crônica de Hugo Ciavatta

O homem cordial vinhedense

A classe média vai ao barbeiro. Uma crônica de Caio Moretto.

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Escrever... ahn?

. . Por Hugo Ciavatta, com 3 comentários

Há alguns anos ficou bastante conhecido um livro de Yrving Yalom, psiquiátra e romancista estadounidense, Quando Nietzsche Chorou. Misturando um pouco do que foram as biografias do professor de Freud e do próprio filósofo, Yalom cria uma, senão brilhante, curiosa história em que Nietzsche é paciente de uma embrionária psicanálise. Sem entrar no mérito dos méritos do livro, da literatura, da história, ou mesmo da psicanálise e da filosofia envolvidas, o ousado intento de Yalon merece destaque, afinal, Nietzsche é figura mais do que controvertida para todos nós. Intrigantes são as cartas do filosófo, que o escritor resgata para o contexto criado pelo livro. É sabido que entre elas reside a admiração de Nietzsche por Dostoiévski, do qual, dizem comentadores do filósofo, lhe vieram muitas das reflexões ao longo de sua obra. Também já conhecemos o quanto o mesmo escritor russo é celebrado, tamanha é a apaixonante obsessão dele pela misteriosa mente humana.
Anos mais tarde, depois de Dostoiévski, e quase contemporaneamente a Niezstche, aparecia na outra ponta do continente europeu um sujeito que muito contribuiria ao dito universo, melhor dizendo, só traria caótica maior: Fernando Pessoa. Fernando Pessoa? É. Tudo bem, mas quem? Ele mesmo? Alberto Caeiro? Ricardo Reis? Bernardo Soares? Álvaro de Campos? E sabe lá Deus quantos mais heterônimos, personalidades, traços, orientações e biografias o maluco inventou. Pois bem, se com Nietzche, veja bem, não é um qualquer, Zé Povinho, não, é o tchan tchan tchan... é o Niezstche, a coisa já ficou complicada, agora imagina um carinha fraco das ideias feito o... o Pessoa... Imagina o Fernando Pessoa no divã. Essa eu queria ver, Yalom. Ele não era único, ou diverso, ou desafiador, era simplesmente múltiplo, podia ser muitos, muitos. Não se interessava apenas pela alteridade (a antropologia adora essa palavra), ele sim tornava-se Outro.

(Salto)

Parece que muito tempo depois, em um contexto completamente diferente, Eduardo Viveiros de Casto pode ter encontrado algo parecido quando dá outro sentido a sociedade Tupinambá em "O Mármore e a Murta", de A Inconstâcia da Alma Selvagem. Pois o antropofagia ritual daquela sociedade seria símbolo da abertura para o Outro, a outra sociedade com a qual se relacionavam, do desejo por "ser" o Outro, já que os Tupinambás poderiam desconhecer a noção de identidade personal tal como a nossa (com o perdão devido pelo jargão utilizado) sociedade moderna, de origem judaico-cristã, teria constituído. Tudo bem, desconhecer a noção de identidade tal como o ocidente a conhece não significa que pudessem ser pluri, ou múltiplos, de qualquer forma, quem sabe, diga que poderiam forjar um "novo ser" diante daquilo que o Outro (a sociedade literalmente comida, em vingança) lhe apresentasse. Em resumo, parece que os Tupinambás, que absurdo, tal como Fernando Pessoa, por caminhos tão, tão distantes, também se tornavam Outro.

(O intercâmbio entre planos diferentes, ou dito de outra forma, da psiquê e do social, representa uma profunda falta de rigor.)

Já Enrique Vila-Matas, escritor catalão, em O Mal de Montano, cria a história de um romancista, narrador-personagem, em crise com a própria escrita, ou melhor, que está doente de literatura, enfermidade, por sua vez, que dá título ao livro. Na obra, a personagem sofre por enxergar o mundo, ele próprio e as pessoas com quem convive e que atravessam o cotidiano dele, por meio de comparações com obras, trechos, frases, poemas, escritores, enfim, com a literatura que o mesmo narrador conhece. E, no meio da trama, o filho do narrador, e que também escrevia, passa pela mesma moléstia. Assim se desenrola a história do romance, entre reflexões sobre a condição da literatura e suas possibilidades no mundo em que vivemos, ao mesmo tempo em que somos brindados por referências belas e sutis de autores como Borges, por exemplo, para quem a escrita, além do sentido autoral que possa ter, era também uma forma de diálogo com outras obras. Mais, o que se destaca são as comparações, as referências dos acontecimentos da trama e da posição das personagens, ademais da condição delas no interior da obra, situadas que são com outras histórias, outras ficções, romances. É como se uma história pudesse ser lida não somente pela conexão dos elementos que a constitui, mas por outra muito distante no imaginário da literatura, o que faz com que aquilo que pareça óbvio, normal, inevitável e natural, se abra ricamente em significados, em possibilidades. A obra de Vila-Matas não deixa de ser provocativa, no sentido de que constitui também uma crítica ao nosso mundo tão desencantado, de necessária coerência aos nossos preconceitos, lógicas e quadradinhos fechados de racionalização. Ela é um discreto brilho de surpresa poética, mesmo que não nos reserve uma experiência sensacional de leitura.

Uma passagem de Vila-Matas que pode dar alguma coerência, se é que é possível, à minha preguiça em escrever este presente texto hoje, é a referência do narrador a mãe dele: "Se Geoges Bataille dizia que escrevia para não ficar louco, de minha mãe se poderia dizer que, sendo pessoa sensata na vida real, ficava louca quando escrevia"(p.129).

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Arte: Ser ou não Ser

. . Por Thiago Aoki, com 5 comentários

Desculpa-me pela postagem um pouco mais longa, eu te perdoarei caso pares de ler após a primeira linha.

Já é sabido que este blog fala sobre Arte e Cultura. Aqui, postamos artigos próprios sobre música, cinema, fotografia, artes plásticas, entre outros. Porém em nosso, digamos, "backstage" discutimos muito sobre pressupostos que utilizamos, em vista a tentar fazer um editorial mais ou menos coerente. É claro que seria impossível a mão única, visto que somos cinco sociólogos e, como se sabe, a principal característica do cientista social é contrariar o que estiver à sua frente. Pois bem. Recentemente, em uma de nossas indigestas reuniões, discutíamos afinal o que seria arte e cultura, avaliando essa tentativa que fazemos de não analisá-las como campos autônomos, desvinculado do restante da sociedade, como o faz a crítica tradicional. É um questionamento que sempre vem à tona, afinal, impossível uma resposta concreta e definitiva.

Eis que, durante leitura do caderno Ilustrada, do dia 20/01, dois artigos que indiretamente falavam sobre o tema, me chamaram a atenção. O primeiro, de Mário César Carvalho, sobre o ritmo tipicamente latino reggaeton, cujo título era "Análise: adjetivos contra o ritmo dizem mais sobre os críticos". Já o segundo, de Marcelo Coelho, falava sobre o vale-tudo na arte, mas não encontrei na internet o texto aberto para não assinantes da Folha, potanto escolhi aqui, outro artigo do mesmo autor e ainda melhor elaborado, no site Digestivo Cultural, cujo título é "A letargia crítica na feira do vale-tudo da arte".

O texto de Mário Carvalho mostra como a crítica, preconceituosamente, age de modo a colocar empecilhos contra negros e latinos que tentam fazer algo distinto na música, foi assim com jazz, funk, soul, rap e agora o reggaeton. Mas, no final das contas a indústria cultural acaba por apropriar-se desses ritmos e a "enquadrar a malandragem".

Já o artigo de Coelho é, na verdade, uma análise acerca do livro de Luciano Trigo (A grande feira: uma reação ao vale-tudo da arte contemporânea), sobre o qual o autor simpatiza-se (mais no Digestivo do que na Folha). O cerne do livro, nas palavras do colunista, é mostrar como "o resultado pernicioso que a 'falência da crítica' e a ausência de debate proporcionam: um aglomerado de pseudo-obras de arte estão sendo incondicionalmente aceitas por todos, independentemente de seu valor, mas legitimadas por marchands, galeristas e acionistas, além de serem agraciadas por críticos de arte que não conseguem senão adular o espetáculo/imbróglio comercial no qual a grande parte da produção de arte se envolveu e da qual se tornou prisioneira." O autor discorre sobre vários exemplos e bibliografia sobre o tema e conclui: "O texto de Trigo nos faz pensar. E principalmente nos faz pensar até que ponto muito do que circula por aí se autodenominando e sendo chamada de obra de arte não passa de 'signos portadores de valor financeiro'. E nada mais que isso".

Para ilustrar os artigos, dois exemplos que me vieram à cabeça ao lê-los. 1- certa vez alguém que já não lembro comentou comigo que ao cansar-se de andar pelos corredores da Bienal, sentou-se em um banco com as penas cruzadas e cabisbaixo, quando percebeu alguém tirando sua foto. Ao tirar satisfação com o dono da câmera, o rapaz disse que pensou que estava fazendo uma "intervenção artística". 2- Em 2007, Katja Schneider, diretora do Museu de Arte de Moritzburg (Alemanha), atribuiu a Ernst Wilhelm um quadro, na verdade pintado por uma chimpanzé fêmea. (nada contra os símios, que fique claro à geração verde)

Resumo da ópera, quando entramos, pisando em ovos nesse campo amplo e delicado que é arte e cultura precisamos ter em vista o que está por trás de cada trabalho, de cada artista. O movimento que a Indústria Cultural faz, levando alguns ao sucesso e outros ao anonimato, não é ingênuo e não pode ser ignorado. Há uma complexa trama subliminar envolvendo mídia, patrocinador, artista, valor de exposição, mercado consumidor e crítica. Há outros fatores extra-artístico que determinam o que é e o que não é aceito como arte. O preconceito de críticos sobre determinados ritmos ou obras diz mais do que aos próprios críticos, mas sobre a dinâmica de dominação da própria sociedade. Dissecar essa dinâmica e esse jogo de vencedores e vencidos, é o nosso desafio. Ao ler neste Blog o artigo sobre Vale-Cultura escrito por um de nossos Indigestos, pensei sobre como determinar o que poderia ser consumido como cultura. Por que tendemos a não aceitar o gasto com um ingresso pro jogo do Corinthians, uma Playboy, ou para um show do Calypso? E por que sequer questionamos a possibilidade de se utilizar para exposições, mostras e galerias que muitas vezes alavancam e mantêm essa própria estética dominante? Como hierarquizar o campo artístico, senão pela reprodução desse elitismo?

Por fim, somando os artigos e os exemplos, como subverter a letargia de uma crítica já enquadrada por um valor de mercado e instrumentalizada pela dominação social?

É o que tentaremos, com muitas falhas e limitações, fazer aqui, ainda que não tenhamos a pretensão de nos livrarmos dessas perguntas que surgem como espectros que devem seguir todos que se proponham a falar sobre Arte e Cultura.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Cinema, Passatempo e Confusão

. . Por Hugo Ciavatta, com 4 comentários

Já vai alto o verão, muitos em férias do trabalho, ou da faculdade, ou simplesmente desempregados, outros... nem tanto. Azar destes últimos, ora, podem também procurar alguma coisa interessante pra fazer nas horas vagas, pois elas sempre existem, e como. E se só conseguem pensar “no que fazer?”, podem também seguir pensando enquanto lêem um livro, fazem a caminhadinha diária, sentam em frente ao computador pra “não fazer nada e tentar parar de pensar”, ou não. Um filme é sempre uma boa opção e ir ao cinema, por exemplo, é algo que tende a ficar mais raro, dizem as projeções, afinal, os famosos modos de compartilhamento de arquivos pela internet, a pirataria, ou qualquer outra maneira de ter acesso aos filmes, podem diminuir cada vez mais o trânsito nos salões de pipoca. Pode-se ir a uma vídeo-locadora, também (sim, elas ainda existem, incrível, não?). Qualquer uma das opções pode resultar em horas que passam rápido, pois prendendo os olhos à tela é possível simplesmente esquecer o mundo. Provável que numa sala de cinema isso ocorra mais facilmente, já que as circunstâncias, a temperatura estável, o som, a imagem que invade o campo visual, enfim, tudo contribui para que aquelas horas possam trazer diversão, ou alívio, mais intensos.
Atualmente, nas prateleiras do cinema, o atrativo são os filmes 3D, justamente, dizem, pra que o “ir ao cinema” não se perca, outra vez, devido ao amplo acesso aos filmes. Se você for ao cinema, no caso de estar sozinho, o leque de escolhas deve ser mais restrito. Veja, um filme de terror, ou suspense, é mais divertido se visto ao lado de alguém, quem quer que seja, só pra comentar depois “nossa, que susto levei naquela cena, você não?”, do contrário são grandes as chances de sair somente com o sentimento de medo transbordando por você. Um documentário... só se estiver atento, porque pode cochilar feio ali, e caso esteja acompanhado, que seja de alguém com “simancól”, ora, comentários elaborados, cheios de firulas teóricas ao sair da sala... não dá! Uma aventura, ou um policial podem ser uma boa tanto em grupo como só, não têm muita contra-indicação. Se o humor permitir, um infantil, um desenho animado será ótimo, ou melhor, talvez sempre sejam, em qualquer situação, mas no caso de um mau-humor daqueles, você tem chances de se irritar com aquele menininho que quer fazer xixi e não pára de se mexer e empurrar com o pé a sua, bem a sua poltrona. E, se for o caso, uma comédia, no entanto, a solidão, novamente, às vezes, faz chorar em coisas que, em tese, são de rir, vá acompanhado também. Dramas existências, somente se quiser impressionar a companhia, com intenções que não se confessa, ainda que possa ser infrutífero. Porém, se for com "aquela pessoa especial", ah, esqueça, entra em qualquer sala, não faz diferença, não é mesmo?
Uma passada rápida de olhos pelas ofertas recentes mostra o incansável, nos elogios técnicos e pesadas críticas de roteiro e história, Avatar, é um 3D longo. O ator mais lucrativo e trabalhador da indústria hollywoodiana também aparece, Morgan Freeman, como Nelson Mandela. Tem ainda aquele doido de cabelo bagunçado e, às vezes, de cenas escurecidas, Tim Burton, produzindo algo. Além de uma comédia romântica, ou qualquer outro gênero que complete a estante. Contudo, voltou à cena um sujeito que andava sumido desde aquilo que foi classificado até como “humor-negro” em “Quero ser John Malkovich”: o diretor Spike Jonze, que depois também dirigiu “Adaptação”. O primeiro filme explorava a descoberta de uma porta que permite a qualquer um estar em outra pessoa, ver e sentir o mundo através de outro ser humano que não você, e no caso, através do ator John Malkovich interpretando um John Malkovich. Além de algumas cenas entre a comédia e o drama, a temática é de fundo existencial, claramente, sobre a constituição do EU, daquilo que nos constitui em nossas relações, como nos vemos e somos vistos, desejos, ansiedades, vícios, traumas, enfim, da loucura que é serhumano. Charlie Kaufman é o roteirista de ambos e, no segundo, é também a personagem principal. De novo, a mesma temática reaparece, agora com uma dose ainda maior de metalinguagem, já que a história envolve transpor um livro para os cinemas em meio às crises existenciais da personagem, ele mesmo, Charlie, ainda que a história tenha pouco de autobiográfico. Parece confuso e, de fato, é, assim como com “Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças”, cujo próprio título já complica a história, também escrito por Kaufman.
Também me perdi agora. Voltando. Spike Jonze é quem deu as caras novamente e o recente filme dele, “Onde Vivem os Monstros”, é uma adaptação de um conto infantil do escritor Maurice Sendak. Diga-se de passagem, outro sujeito nada convencional, o escritor é bastante polêmico, inclusive, tendo um texto censurado nos EUA por desenhar o Mickey com pênis, e que só foi publicado depois que o rato mais famoso do mundo ganhou uma fraldinha. O novo filme é dito “infantil”, ainda que possa não ser somente para crianças. Jonze mais do que adapta o conto, que tem pouquíssimas frases, cria um belo filme a respeito do universo infantil e de conflitos pelos quais passamos todos, em qualquer idade. Menos confuso, como os outros filmes, o diretor utiliza recursos para dar movimento às cenas e aos personagens da maneira que um moleque gostaria. Sensível, lírico sem pieguices, reflexivo e divertido, o filme ainda apresenta ótima trilha sonora, assinada por Karen O, vocalista dos Yeah Yeah Yeahs. Não, não são só elogios, pois seguramente muitos terão sono em alguns momentos do filme, que oscila entre as tensões vividas pelo menino-protagonista e pelos monstros, que, por sua vez, são criações do próprio menino, e entre os monstros e o menino. Ai, sujeito confuso esse Spike Jonze. Pelo menos, ele mostra o quão desajeitado é encerrar um filme nas tradicionais classificações, nos epítetos que mais atrapalham que ajudam para sentir o cinema.
É bom ler o horóscopo antes de entrar na sala pra ver “Onde Vivem os Monstros”, porque dependendo se sua condição astral, e se acompanhado ou não, as combinações entres os diferentes fatores podem levar você a sair dali alegre feito um menino correndo numa brincadeira, ou melancólico feito qualquer miserável. Cinema deveria ser mais do que uma mera arte, perfumaria estética, ou erudição barata, poderia ser uma ciência médica, ou farmacológica.

sábado, 16 de janeiro de 2010

Conversa de doidos - Chema Madoz e Luis Buñuel

. . Por Thiago Aoki, com 3 comentários

Se José María Rodriguez Madoz fosse brasileiro, provavelmente seria conhecido como Zé Maria ou simplesmente Zé. Mas é espanhol, nascido em Madri, 1958, e por lá ficou conhecido como Chema Madoz, azar o nosso que sequer conseguimos pronunciar seu nome. Por que José Maria tornou-se Chema? Não sei, mas essa mania de mudar o sentido lógico das coisas pode dizer muito sobre esse fotógrafo, pois é exatamente isso que ele faz em seu trabalho.
Com sua Hasselblad, Madoz pega os objetos comuns do cotidiano e alterna sua funcionalidade e sentido. Não é nonsense, tampouco ingênuo. Não apenas o contraste do preto e branco muito bem utilizados destaca o fotógrafo, mas especialmente o conteúdo de sua obra. Suas fotografias possuem um ar de ironia e provocação. Ao nos depararmos com as mesmas, é impossível não questionarmo-nos sobre a normalidade, ou melhor, sobre sua imposição. Quanto do que fazemos e dizemos acontecem apenas pelo hábito de fazermos do mesmo modo? Ainda mais em uma sociedade onde as possibilidades de mudanças tornam-se cada vez mais escassas, um mundo mergulhado na apatia política-social. Pode ser que essa impressão que tenho de Madoz seja viagem de minha imaginação, mas acho que é justamente nisso que o fotógrafo baseia-se: na interpretação que cada espectador terá daquela, digamos, "disfuncionalidade" dos objetos. É brincar com a própria imaginação, levá-la para além da razão estrita e ativar outras percepções, como aconteceu comigo. Luis Buñuel, o grande surrealista do cinema, amigo pessoal de Dalí, afirmara que "a imaginação é o nosso primeiro privilégio, tão inexplicável como o caso que a provoca". Engraçado que foi justamente Buñuel que me veio a cabeça quando vi pela primeira vez as imagens de Madoz. Aliás, mais especificamente uma cena do filme "O fantasma da liberdade"(1974), um dos últimos de sua filmografia. Esta cena abaixo, para mim é uma das mais magníficas do cinema.



Inclusive, se você começou a ler esse mísero post por aqui - pra ver do que se trata o vídeo e se valia a pena ler esta coluna desde o início - faço-lhe um apelo para que assista, pelo menos os cinco primeiros minutos desta cena. Nela, duas famílias burguesas típicas da época do filme combinam um encontro. Quando Buñuel mostra a mesa, a surpresa é que invés de cadeiras, temos privadas e invés de refeição revistas. Durante a conversa, um dos homens divaga sobre o problema da superpopulação, como todas aquelas pessoas terão condição para "evacuar"- leia-se cagar. A conversa é interrompida pela garotinha, filha do casal, que diz "Mãe, estou com fome" e a mãe, constrangida, logo corrige a menina, dizendo para não usar palavras impróprias na mesa. Logo depois, um dos homens pede licença e pergunta baixinho à empregada "onde fica a sala de jantar", então, segue para um cômodo parecido com um banheiro, mas que invés de privada tem uma cadeira e invés de revista, comida e vinho. Ele senta e faz sua refeição. E por aí vai, não me estenderei (isso mesmo, estender é com "s" e extensão é com "x", obrigado pela correção Rita) porque só essa cena valeria um post inteiro. No filme, cujo título, segundo o próprio autor, é uma alusão à primeira frase do Manifesto do Partido Comunista, de Karl Marx ("Um fantasma ronda a Europa, o fantasma do comunismo"), Buñuel critica veementemente o modo de vida burguês e a liberdade prometida pela sociedade de consumo, através justamente do trajeto normalidade-absurdo, mais ou menos o mesmo trajeto percorrido por Madoz.

E em ambos, guardados seus distintos contextos, saímos com a sensação de que o absurdo não é tão absurdo assim, ou, talvez, que a realidade, o cotidiano, o normal sejam também um grande devaneio. E é com este argumento que, antes que me questionem, fujo da rotulação de Madoz a alguma escola artística, mais fácil escolher um hospício.

Veja mais imagens de Chema Madoz em seu site oficial.

domingo, 10 de janeiro de 2010

Jerry Uelsmann - Fotografia e Surrealismo

. . Por Thiago Aoki, com 4 comentários



Não sei se vocês notam, mas há palavras que, de tão divulgadas, vulgarizam-se. Se pegarmos a política como exemplo, "comunista" e "neoliberal" é o que mais se diz sem se saber o significado. Já nos RHs das empresas, a moda é a "pró-atividade" e o "dinamicidade". No caso da arte e cultura, diria que é o surrealismo. Até propaganda de chocolate já usou o termo para dizer que o doce era "surreal". O surrealismo, como se sabe, expandiu-se e tomou forma com Salvador Dalí e André Breton. Mas o que mais me incomoda, escapando ao público leigo, é a confusão que se faz entre uma arte surrealista e a arte conceitual abstrata. Tenho horrores a rótulos, justamente porque, embora interessantes didaticamente, levam a equívocos grotescos como este, visto que a lógica de romper-se com a razão, dominante no surrealismo é praticamente oposta à dominância do conceito na arte conceitual. Foi aí que resolvi pesquisar um pouco sobre alguns artistas surrealistas contemporâneos até para melhor compreendê-los e distinguí-los. O primeiro que me interessou foi Jerry Uelsmann, cujas fotografias espalham-se por este post (clique para ampliá-las).

Uelsmann é de 1934, nascido em Detroit, EUA. Em uma época em que sequer a fotografia digital existia, o fotógrafo revolucionou com incríveis manipulações de imagem. Ele mesmo, em entrevista à revista Photos explica os efeitos que utiliza desde à decada de 1960, sob desaprovação dos fotógrafos da época: "É puramente fotomontagem. A foto é feita com a combinação no processo de revelação no 'darkroom' , usando alguns ampliadores e movimentando o papel. Não há corte ou colagem de papel. A imagem final fica numa folha fotográfica". Assim, sem os recursos de nossa época, Uelsmann, que até hoje prefere o 'darkroon' ao photoshop, praticamente cria um novo estilo da fotografia, rotulado por muitos críticos como parte da "fotografia surrealista". O processo criativo, portanto, o motor da fotografia de Uelsmann, é enganosamente simples, como afirmou em excelente entrevista ao site Shutterbug "Meu processo criativo se inicia quando saio com a câmera e interajo com o mundo. Não há coisas desinteressantes. O que há são pessoas desinteressantes. Para mim, dar a volta no quarteirão onde moro levaria cinco minutos, mas, quando estou com a câmera, levaria cinco horas. Se consegue chegar a um ponto onde você responde emocionalmente, e não intelectualmente, há um mundo inteiro para encontrar com sua câmera.(...) Mas minha aproximação incial é muito não-intelectual. Hoje há muita arte dita conceitual que inicia-se em uma teoria particular e então o indivíduo ajusta a imagem"(Trad Livre). Parece-me que, nessa fala, Uelsmann coloca a principal distinção entre o surrealismo e a arte conceitual, no que diz respeito ao processo de criação artística.

O fotógrafo e "image-maker", como ele mesmo se intitula, ainda revela a influência de Carl Jung, -aquele da teoria dos arquétipos e inconsciente coletivo - e do filósofo francês Jacques Derrida, principalmente por sua teoria dos múltiplos significados. Embora não o tenha citado nas entrevistas que pesquisei, é impossível não
lembramos de Salvador Dalí (figura colorida à direita) quando vemos a obra de Uelsmann.
Independente de rotulá-lo estritamente como surrealista, o certo é a influência que sofreu conscientemente ou não (o que seria muita ingenuidade!) desta escola. De qualquer modo, fica o convite aos que lêem essa coluna de visitar a galeria virtual de Uelsmann - em seu site oficial ou no Modernbook - e viajar nas imagens que, além de técnicamentes muito bem feitas, trazem um pitaco a mais da subversão da fotografia tradicional, aquela do mero retrato da realidade. Há de se romper com a lógica racional que estagna, ou, como Breton afirma em seu Manifesto Surrealista, "(...)se a razão objetiva prejudica terrivelmente - como é o caso - quem nela confia, não convirá fazer abstração dessas categorias?" Espero que este seja o primeiro de muitos posts sobre o tema.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Vale-Cultura - Uma Discussão

. . Por Fernando Mekaru, com 8 comentários

Para quem não sabe, o Vale-Cultura é uma iniciativa do Governo Federal que se propõe a beneficiar uma parcela da população brasileira que teria seu acesso à cultura bloqueado graças aos custos um tanto proibitivos da cultura em nosso país. Nas suas etapas finais, o sancionamento da lei que o estabelece ocorrerá em Fevereiro, após votação na Câmara - passada a votação, tudo dependerá do aval do presidente Lula, que já mostrou apoio incondicional ao projeto de lei; caso aprovado, a implementação efetiva do programa está marcada para 2011. Ou seja, o vale-cultura é praticamente uma certeza nas vidas de muitos cidadãos brasileiros a partir do ano que vem.

Mas no que consiste exatamente essa medida, que causou certo furor na mídia, sendo chamada de "vale-circo" por Gilberto Dimenstein, "mais uma bolsa-esmola" entre a oposição ao governo atual, e comentários virulentos como "pão-e-circo petista", "pega-trouxa de ano de eleição", "medida governamental pra fazer o povão ver o filme do lula" no Twitter, no Orkut e em outros meios sociais?

Ideologismos emocionados à parte, vamos aos fatos sobre o Vale-Cultura. E eles estão à disposição de todos, na forma do PLC 221/09, que descreve detalhe a detalhe como é que a primeira medida de fomento de consumo cultural da história do país funciona.

Basicamente, o Vale-Cultura consiste na concessão de um vale de R$ 50 (para aposentados, o valor é de R$ 30), pessoal e instransferível, para qualquer cidadão que consiga comprovar que sua renda mensal é igual ou menor a cinco salários mínimos (R$ 2550 segundo os valores de Jan/10). Ele é distribuído pelo governo federal às empresas cadastradas no programa; estas, por sua vez, devem repassar o Vale aos seus funcionários que se enquadrem como beneficiários do projeto, que poderão utilizá-lo em qualquer estabelecimento autorizado a recebê-lo como forma de pagamento. Ou seja, somente empresas cadastradas no programa poderão aceitar o Vale-Cultura, e o governo não coloca o cadastramento no programa como obrigação.

De forma a tornar a adesão atrativa às empresas e incentivar o cadastro do maior número possível de empresas no programa, o governo oferece um desconto no Imposto de Renda de Pessoa Jurídica para aqueles que oferecerem o Vale: todo o dinheiro gasto dessa maneira pode ser revertido em abatimento do IR. Além disso, a empresa está autorizada a deduzir até 10% do valor do Vale (R$ 5,00) do salário dos funcionários beneficiados na forma de "despesas operacionais" (custos embutidos na emissão dos vales, compra de equipamento adequado, treinamento de pessoal, etc), de forma a diminuir os gastos com a implementação do programa na empresa.

O Vale-Cultura pode ser gasto somente naquilo que o PL enquadra como sendo um serviço ou produto cultural. Isso pareceria restritivo de início; porém, da maneira que se põe na lei, a definição é bastante abrangente, englobando todo serviço ou produto que possa ser incluído como sendo das artes visuais/cênicas, da literatura e das humanidades, do audiovisual, da música e dos patrimônios culturais. Isso incluiria tanto produtos e serviços culturais tidos como definições-padrão daquilo que seria cultura (teatro, apresentações musicais, cds de música, livros, idas a museus) quanto alguns que causam horror e espanto quando são chamados de cultura (jogos de videogame, livros de RPG, revistas em quadrinhos e/ou pornográficas, shows de funk, apresentações eróticas).

Deixando discussões políticas um pouco de lado, observemos alguns pontos interessantes que o projeto levanta, independente de ser aprovado ou não: ele aborda uma série de questões e elementos que, tradicionalmente, não tentamos responder, por não sermos confrontados com elas cotidianamente.

- Democratização da Cultura - O Lado Positivo. É inegável que o aumento do acesso à cultura, salvo raras exceções, é visto como um ponto positivo inegável na proposição desse projeto. Em um país cuja forma mais popular de difusão de conhecimentos continua a mesma desde os anos 50 (a televisão), não se pode negar que variar as possibilidades de contato com a cultura da população mais empobrecida é uma medida mais do que bem-vinda: isso acaba levando a novas maneiras de observar e pensar o mundo, a si mesmo e educar por vias não tradicionais uma camada da população que, por muitos anos, foi extremamente negligenciada nesse aspecto.

- Democratização da Cultura - O Lado Negativo. É também inegável, porém, a possibilidade da existência de efeitos nocivos com uma democratização irresponsável da cultura. Adorno e Horkheimer já alertavam nos mesmos anos 50 da ascensão meteórica da televisão e do rádio sobre os efeitos extremamente nocivos da popularização de produtos culturais extremamente pobres e de fácil produção, produzidos somente para serem vendidos como mercadorias descartáveis e vazias e como uma das mais eficientes maneiras de manter a população satisfeita, alheia à sua situação real e completamente sedada pelos prazeres do entretenimento. A grande questão é: o programa, por si só, já basta para resolver os problemas relativos à presença e variedade da cultura na vida das pessoas? Certamente, uma proposta que vá além da garantia de acesso é necessária para se evitar armadilhas que, a princípio, são positivas sob o aspecto da democratização mas que em seu funcionamento acabam sendo o contrário disso e agravam os problemas que o programa, a princípio, deveria resolver.

- O Que é Cultura? Talvez o ponto mais polêmico do projeto seja apresentar uma definição muito abstrata e ampla daquilo que contemplaria os serviços e produtos disponíveis à compra através do Vale. Existem defensores, os que enxergam benefícios e malefícios e detratores dessa indefinição conceitual. Ela envolve debates antigos sobre arte e cultura (os mais importantes envolvidos: elitização e qualidade vs. popularização e variedade; e popular vs. erudito); questões que, graças à sua subjetividade, não podem receber uma única resposta definitiva. É uma questão que muito provavelmente permanecerá da maneira que está, do ponto de vista do governo: tendo como ponto de partida o próprio objetivo do programa (i.e. maior acesso à cultura), faz muito mais sentido liberar o máximo possível do que impor, à força, restrições a manifestações culturais e artisticas através de uma definição de cima-para-baixo daquilo que o programa pode abranger.

Pelos pontos que levanta sobre a arte e a cultura, e ao mostrar uma maneira pela qual a sociedade e o governo podem se relacionar com esses dois assuntos, o novo projeto governamental está longe de ser mais uma bolsa assistencialista de um governo de centro-esquerda - ela é o centro de uma série de discussões interessantes sobre a sociedade, a política, nossas fontes de entretenimento, a arte e a cultura, e as maneiras pelas quais acessamos produtos e serviços que, em primeira vista, não servem para nada, mas que nos são muito importantes. Pensar e refletir sobre esse projeto é tentar solucionar o mistério da arte e da cultura, que nos aflige de diferentes maneiras conforme o tempo passa.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Charles Chaplin e os Tempos Modernos

. . Por Caio Moretto, com 4 comentários

Quem não viu, já ouviu falar. Talvez seja essa uma das definições mais vulgares para um clássico.

Conhecer as polêmicas entre Wilson Batista e Noel Rosa, saber que Mozart não era reconhecido, que o público de Shakespeare era o mais barulhento de sua época, tudo isso muda nossa forma de apreciar a arte. Não que a arte seja só técnica ou só contexto, mas conhecer essas determinantes, esses constrangimentos, reconhecer as influências e os ingredientes, também são um grande prazer.

Chegaremos na cena de Chaplin no fim do post, mas antes queremos aproveitar muito bem as preliminares, não queremos?

Esse primeiro vídeo é uma aula sobre grammelot, do teatrólogo, ator e dramaturgo italiano, Dario Fo.

Dario Fo é um dos principais estudiosos sobre o assunto. Seu livro Manual Mínimo do Ator já nasceu clássico e levou o Prêmio Nobel de Literatura de 1997. Ele e sua mulher, Franca Rame, são referências no teatro italiano por sua incansável pesquisa sobre a commedia dell’arte (aquele teatro de máscaras de Arlequino, Pierrô, Pantaleão etc) e seu ativismo político ácido. Sua peça Misterio Bufo, baseada nessa mesma técnica, foi considerada pelo jornal oficial do Vaticano "o programa mais blasfemo jamais levado ao ar na história da televisão mundial".

Claro que nada disso é importante para apreciar esse ótimo vídeo, em que não entendemos uma palavra, mas compreendemos tudo.

Grammelot é uma técnica que começa a ser usada, segundo o premiado livro citado ha pouco, pelo grupos italianos de commedia dell’arte. É um resmungo, uma imitação da sonoridade da voz em um idioma, que não diz nada, mas comunica muito.

Aproveitando que estou falando de pessoas que admiro, deixe-me colocar um outro exemplo fantástico.

O palhaço deste vídeo é o russo Slava Polunin, famoso mundialmente por seu humor poético e pelas inovações na interação com o público. Esse trecho faz parte do Slava Snow Show, que foi representado algum tempo atrás aqui no Brasil. O dia que assisti a peça, em São Paulo, a personagem principal foi interpretada por outro palhaço, mas não há do que se reclamar, pois é exatamente essa dinâmica que criou o espetáculo tal qual conhecemos. Assim como na comédia dell’arte o show não tem roteiro fixo, apenas um canovacio ou roteiro de ações. A cada apresentação são convidados atores, palhaços e amigos para atuarem em cima deste roteiro e criar um novo show.

O vídeo é de 1981 e o espetáculo já passou por diversas alterações, como era de se imaginar. A cena do telefone, quando vi, foi bem parecida, porém a sonoridade buscada foi semelhante ao português e quase conseguíamos identificar uma ou outra palavra no meio da embromação. Uma sutileza gostosa de assistir.

Gostaria de ter um vídeo para este próximo exemplo, mas ele ficará apenas como referência literária. Molière, como talvez você já saiba, é um escritor, dramaturgo e ator francês. Sua história está intimamente ligada à commedia dell’arte, assim como a história de Marivaux e de Goldoni. Todos eles escrevem com as máscaras da commedia, porém, eliminando-se outras grandes diferenças que não cabem aqui, tem uma característica em comum: eles escrevem. Como já observamos ao falar de Slava, a commedia dell’arte é caracterizada, entre outras coisas, pela inexistência de um roteiro de falas, o que faz a maioria dos estudiosos classificarem esses escritores como posteriores à tradição teatral em questão.

Antes que fique chato. Estou contando esse exemplo mais literário e mais distante, porque é na obra de Molière que está escondido um exemplo interessantíssimo da técnica que estamos desvendando.

Cavando só mais um pouco. O grammelot começa com a commedia, pois essa era itinerante. Viajava pela Itália e pela França, ou seja, navegava pelos dialetos franceses e italianos de cada região. Com a crescente padronização da língua e o a transformação de roteiros de ações em roteiros escritos, o grammelot perde seu sentido original.

Eis que surge a censura.

Molière, como se sabe, teve diversas peças proibidas. Reza a lenda que algumas de suas personagens mais polêmicas eram representadas por habilidosos atores que contornavam e entortavam a censura usando o grammelot em dribles fantásticos, que, obviamente, não constam nos livros.

Poderíamos ter ido direto ao ponto, mas a graça é exatamente perceber como a mesma técnica foi reinventada várias vezes, antes de falarmos de Chaplin.

O cinema mudo tinha uma característica inusitada, perceptível apenas aos muito atentos: ele não tinha falas. Chaplin havia fundado seu estúdio em 1919. No fim da década de 20, o cinema falado já havia se popularizado, mas o comediante resistia em utilizar as falas. Seu primeiro filme sonorizado foi Tempos Modernos, que apesar disso, não tinha falas, apenas a canção final.

A voz de Chaplin nunca tinha sido ouvida. Era o primeiro filme com som produzido pelo consagrado humorista e a primeira fala que vemos em um de seus filmes. Claro, que após esse blábláblá todo você já deve estar imaginando a escolha do ator. Temos que admitir: que ousadia.

Aproveite esse trecho genial da obra em que ele canta “Je cherche après Titine” de Leo Daniderff’s em um grammelot nonsense que zomba da própria linguagem do cinema e das novas técnicas para se consagrar como um dos melhores filmes de todos os tempos.

Não sei se Chaplin foi só uma desculpa para falar disso tudo ou se tudo isso foi uma desculpa para admirar Chaplin. De qualquer forma, foi um grande prazer.

Conversa Absurda

. . Por Hugo Ciavatta, com 4 comentários

Passou o tempo de festas... Mas, por ele apareceu um texto de Drummond, Organiza o Natal, em que o poeta conta as considerações sobre o período. Drummond enlouquece de tantos sonhos, desejos e projeções, já que naquele momento as pessoas viveriam de maneira diferente. A expectativa do poeta é de que os tempos se invertam, ao invés de vivermos assim somente naquele período, iríamos viver cada vez mais nele o ano todo, até que todo o tempo seria Natal. O Natal é o tempo da solidariedade, da compaixão, da simpatia, do Amor e, segundo Drummond, isso contagiaria as relações políticas, sociais. Não esqueçamos, também, é tempo de “novos planos”, pois o ano chega perto do fim, e o próximo anseia-se que seja melhor.
Parece que, em Drummond, o tempo é uma corrente (da qual se desconhece o início e o fim, mas pela qual passamos, e ela, ao mesmo tempo, nos atravessa, indefinidamente) de duas porções, no caso, a do Natal e a do Não-Natal. Mais, com uma dimensão, de certa forma, cíclica, porque de acordo com as convenções de medida, ou melhor, o calendário, encontraríamos as “duas porções” durante o ano. Porções que teriam intervalos desiguais durante a passagem de um ano. Claro, o Natal seria mais curto. No entanto, conforme essa corrente fosse passando, ano a ano, nas expectativas levantadas pelo poeta, mais uma vez, os intervalos se modificariam até que uma deixaria de existir, a do Não-Natal.
Às vezes, se o tempo permitisse, interessante seria o resultado de um diálogo absurdo entre aquele Drummond e o Fernando Pessoa do poema Andei léguas de sombras: “Andei léguas de sombra/ Dentro em meu pensamento./ Floresceu às avessas/ Meu ócio com sem-nexo,/ E apagaram-se as lâmpadas/ Na alcova cambaleante./ Tudo prestes se volve/ Um deserto macio/ Visto pelo meu tato/ Dos veludos da alcova,/ Não pela minha vista./ Há um oásis no Incerto/ E, como uma suspeita/ De luz por não-há-frinchas,/ Passa uma caravana./ Esquece-me de súbito/ Como é o espaço, e o tempo/ Em vez de horizontal/ É vertical.
Que merda, se o tempo é vertical, quer dizer que ele sobe e desce? Só sobe, ou só desce? Não sei. Talvez não, se houver movimento no tempo vertical, digamos, quem sabe, que haveria somente uma mudança de perspectiva. Sem muita reflexão, é possível que assistíssemos a passagem do tempo, como a um programa de TV transmitindo o trânsito de elevadores. Como se o tempo levasse muitas coisas pra cima e pra baixo, ao mesmo tempo em que nós também transitaríamos pelos andares, mudando, trocando. Do mesmo jeito que a tradicional perspectiva horizontal nos daria um movimento simultâneo, nosso e do tempo, do tempo passando pela gente e da gente passando pelo tempo, tal qual o texto de Drummond. Pode ser. Hum, mas se o tempo fosse vertical, de outra forma, sem movimento, poderia significar que o tempo não passa, que o tempo não corre, ou voa. O tempo estaria parado. O tempo simplesmente olharia, o tempo esperaria. Nós é que nos movimentaríamos pra lá e pra cá, correríamos, lutaríamos, fugiríamos, seguiríamos, então, passaríamos. Com que tipo de gente Pessoa conversava?
E se, chegada a noite do dia 31 de dezembro,
(ver tirinha em
http://autoliniers.blogspot.com/2010/01/liniers-macanudo-el-humor-de-macanudo.html)
e estiver atrasado para o fim e o começo, dos anos que se encontram? Tem que correr. Só vivemos cada coisa em seu tempo, que passa. Há de se aproveitar então. Na vida, que é uma só, não se pode estar atrasado, faça, corra, conquiste! Imagine, chegar atrasado no ano, que atraso de vida!
E Drummond, no final do texto, além de tudo, também pede pra que os sonhos dos poetas possam se tornar realidade. Vai ver, começava a dar-se conta de que estava “sem-noção”...
Pois na véspera do Natal, ouvia eu nestes dias, é possível lucrar mais indo a uma ceia que a outra. Não, não é extrair um valor a partir da compra-venda-troca de seja lá o que houver, não. É um cálculo simples, uma escolha que considera ainda possibilidades de memória, excluindo-as, para o qual ir a um lugar pode resultar maior proveito com, ou das pessoas.

Faltava aos caras umas aulinhas de RH.
Fim de papo!
"Que é pois o tempo?
Se ninguém me pergunta,
Sei,
Se alguém pergunta e quero explicar,
Não sei mais
."
(Santo Agostinho)

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Crônica Retrospectiva - Casoy, Boal e Neguinho falam pelo Brasil

. . Por Thiago Aoki, com 4 comentários

Pouco assisti das famosas retrospectivas de final de ano, que inundam a TV brasileira todo dezembro. Eu inclusive tentei, mas me irrita a linha seguida pelos mesmos, iniciando com tragédias e escândalos dos mais variados (enchentes, mortes de celebridade,s corrupção na política), transitando até orgulhos de nossa pátria e situações positivas de exceção (Brasil sede da copa e olimpíada, alguém que se curou de alguma doença, entre outros). Essa linha tragédia-redenção, com maniqueísmo de dar inveja a roteirista de comédia romântica hollywoodiana, parece propagar uma esperança ilusória e conformista, numa espécie de "hipocrisia de fim de ano" tão bem desmascarada pela crueldade de Boris Casoy.

Mas se fizesse a retrospectiva do que não foi retrospectado culturalmente, citaria dois brasileiros cuja morte, em 2009, fora praticamente ignorada por toda grande mídia. Falo aqui do carioca Augusto Boal e do baiano Mestre Neguinho do samba.

O primeiro, até foi um pouco mais celebrado, talvez por sua influência dentro do campo artístico brasileiro. O tão endeusado Chico Buarque, por exemplo, compôs o hit Meu Caro Amigo, cuja letra é uma carta destinada a Boal, seu caro amigo. Mas, mais do que personagem central da canção, Boal fora talvez o maior dramaturgo brasileiro, fundador do teatro do oprimido, que mesclava a ação de intervenção social ao teatro, tornando-se referência de importância internacional para a comunidade teatral. Pesquisem os prêmios recebidos, peças dirigidas e hão de se surpreender com o currículo dele. O jornal inglês The Guardian chegou a dizer que "Augusto Boal reinventou o teatro político e é uma figura internacional tão importante quanto Brecht ou Stanislawski". Sua militância no teatro levou o diretor inclusive a ser um dos indicados ao Prêmio Nobel da Paz, em 2008, e a ser nomeado pela Unesco, em Março de 2009, dois meses antes de sua morte, embaixador mundial do teatro.

Já o caso de Mestre Neguinho, que nem na wikipedia está, é mais complicado. Talvez por ser negro, nordestino, ou simplesmente não ser amigo de Chico. Entretanto, a romper com a mídia bairrista de São Paulo, o cortejo de Mestre Neguinho fora levado de corpo de bombeiros pelas ruas soteropolitanas e acompanhado pelas batucadas de Didá, Olodum, Muzenza, Ilê Ayiê, Filhos de Gandhy, entre outros. Todos esses grupos musicais beberam do ritmo inventado por Mestre Neguinho, o Samba Reggae. Ainda assim, o ápice de seu reconhecimento se deu quando o Rei do Pop Michael Jackson, ironicamente também morto em 2009, viera ao Brasil gravar o clipe do hit "They Don´t Care About us", acompanhado pelo Olodum, em plena Bahia. A mistura entre o pop rock e o samba reggae fora ritmada e "orquestrada" por Neguinho.

Não se trata aqui de exigir que a morte de Neguinho e Boal fossem tão lembrados como a de figurões - Michael Jackson, Clodovil, Levi-Strauss etc. Tampouco a ideia igualmente reacionária e simplista de que tudo o que é pop e midiático não presta. Porém, falamos aqui de dois brasileiros que, não só tiveram seus respectivos talentos, mas criaram e inovaram. Um teatro nosso, um ritmo nosso. Nacionalismo? Também não, prefiro a antropofagia. Seria mais uma repulsa por sermos ainda, como disse o historiador Sérgio Buarque de Holanda - também conhecido como "pai do Chico" - "desterrados em nossa própria terra". Por hora, entretanto, limito-me a constatar que, do alto de nossas vassouras, nossa memória curta não é referente apenas às questões políticas.

    • + Lidos
    • Cardápio
    • Antigos