sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Entre falas, coelhos e lapsos: escrita

. . Por Hugo Ciavatta, com 5 comentários

De ideias de girico, algumas vezes, mas apenas algumas vezes, que fique bem claro, muito raramente, aparecem coisas legais. Não digo isso por pura pretensão generalista, somente porque o sujeito que mediou os diálogos que foram editados em Conversa Sobre O Tempo solta uma pérola na abertura digna de nota. O jornalista Arthur Dapieve compara o encontro de Luis Fernando Verissimo e Zuenir Ventura a um reality show: uma ideia de girico. Você já imaginou Luis Fernando Verissimo e Zuenir Ventura em alguma coisa que lembre, de relance, de longe, sem óculos e um pouco ébrio, enfim, que lembre alguma coisa parecida com um Big Brother Brasil, ou A Fazenda, pra não dizer A Casa dos Artistas? Não dá. Uma ideia de girico, mas apenas para aqueles precipitados, como eu, que lêem a primeira oração e quase fecham o livro. Porque Dapieve se explica em seguida, dando a peculiaridade do encontro, realizado ao longo de cinco dias. O jornalista, assim, apresenta o resultado das conversas entre os escritores e amigos que o livro nos traz, e que dispensa incentivos a leitura. Dividida em quatro partes, Amizade & Família, Paixões, Política e Morte, esta última talvez reserve os momentos mais impressionantes do livro.
Me chamaram a atenção, contudo, as falas de Ventura e L.F. Verissimo a respeito da relação deles com a escrita.

Ventura: Escrever é realmente pra mim muito mais penoso. Ler é que é bom. Mas, enfim, escrevo por necessidade, escrevo porque é realmente o ganha-pão, minha maneira de viver, de sobreviver. (...)

L.F.Verissimo: Eu não concordo com a ideia de que o escritor tem uma função social. É sempre por prazer, para fazer uma terapia individual, fazer literatura é ter uma história que tem que botar para fora, de alguma forma. Mas acho que é também uma forma de organizar o meu pensamento. Muitas vezes eu descubro o que penso sobre determinado assunto quando começo a escrever sobre aquilo. É a tua reação diante do mundo, diante das coisas. É uma maneira de botar as tuas ideias para fora.

Ventura: Eu acho que, no meu caso, tem também essa pretensão, do papel, da função social. Existe a vontade de escrever para comunicar, para intervir de alguma maneira, mostrar sua opinião ou sua indignação, ou o que seja, em relação a um fato, a um episódio. (...) Isso pra mim é uma motivação, mas a motivação de escrever é muito mais a necessidade. (p.130-131)

Prazer, necessidade, função social, exteriorizar um história, ou um pensamento... Entre as discordâncias de ambos, me veio um conto de Julio Cortázar.

Carta a una Señorita en París está em "La isla al mediodia". O conto inicia-se com o narrador remetendo suas palavras à Andrée, proprietária do apartamento onde o próprio narrador se encontra. Há uma queixa do narrador, na carta, que se refere à dificuldade por entrar em uma "ordem fechada", como ele mesmo anuncia de início, ou: "Me es amargo entrar en un ámbito donde alguien que vive bellamente lo ha dispuesto todo como una reinteración visible de su alma". Ele situa essa dificuldade ao lado dos coelhinhos vomitados por ele, fato que o levou a escrever a mesma carta. Não, não está errado, o narrador vomita coelhos ao longo da carta. Isso, aqueles animaizinhos brancos mesmo, eles vão aparecendo enquanto ele conta os dias vividos no apartamento de Andrée. Cortázar é conhecido por uma escrita demasiado alegórica, com metáforas pouco usuais para falar de uma determinada temática. Difícil é saber, assim, exatamente, o que o escritor argentino diz quando usa o "vomitar coelhos".... "Como siempre me ha sucedido estando a solas, guardaba el hecho igual que se guardan tantas constancias de lo que acaece (o hace uno acaecer) en la privácia total." O narrador do conto relata, ainda, que soube, que sentiu que logo vomitaria um coelhinho ao entrar na casa de Andrée, e foram dez desde então. Todos os coelhos estariam agora dentro do armário dela, dormindo durante a noite. Dessa forma, a empregada, Sara, parecia desconhecer a existência dos coelhos, uma existência apenas noturna: "Su día principia a esa hora que sigue a la cena, cuando Sara se lleva la bandeja con un menudo tintinear de tenacillas de azúcar, me desea buenas noches - sí, me las desea, Andrée, lo más amargo es que me desea las buenas noches - y se encierra en su cuarto y de pronto estoy yo solo, solo con el armario condenado, solo con mi deber y mi tristeza."
Amargura, tristeza, e angústia também, quem sabe, sejam materializados em forma de coelhos na carta, na qual o narrador justifica a escrita em um momento: porque gosta de escrever e pois chove, simplesmente, construindo um cenário de solidão e isolamento.

Com as discordâncias de Luis Fernando Verissimo e Zuenir Ventura, o conto de Cortázar talvez nos ajude um pouco, imagino. Mas, antes, é justamente por L.F.Verissimo e Ventura discordarem da relação que eles próprios mantém com a escrita, como escritores, que a produção deles se torna atrativa. Se fossem iguais, seriam chatas, provavelmente. Tal como o são, são belas em suas diferenças.
Já o narrador de Cortázar, quando está estranhando profundamente o apartamento de Andrée, diz que "las costumbres son formas concretas del ritmo, son la cuota del ritmo que nos ayuda a vivir". No caso dele, num "ritmo" de angústia e solidão, aparentemente. Enfim, isso me fez imaginar que a escrita pode ser um "costume", muitas vezes ligado à memória, também, e não necessariamente amargurado:

"Estando mais ou menos na metade da metade da minha vida (1/4), já me dei conta de que me esqueço de várias coisas que vivi. Trechos cotidianos, principalmente, que me deixam surpresa quando os recordo. Se isso já ocorre agora, quando eu estiver em outras décadas talvez irei acreditar que minha vida foi composta só das recordações mais fortes, algo que penso ser muito sacana por parte do meu cérebro. Eu não respirei apenas aquilo que me marcou, existiram zilhões de dias e momentos banais. (...) Se estou condenada a deletá-las da memória só porque é assim que as coisas ficam com o tempo, pra que as vivi então? (…) É por isso que escrevo tanto, pra sempre ter ao meu alcance minha vida inteira." (Lapsos, Fernanda Maria Ribeiro Fernandes)

Quando a escrita aparece entre a memória e os fatos da vida, quase como uma ferramenta de registro, nesse pequeno espaço entre elas parece surgir a criação, a invenção de algo que não é nem o acontecimento em si, nem apenas a lembrança, mas literatura.

5 palpites:

a lygia fagundes telles diz que o escritor, ao escrever, faz um diagnóstico do seu tempo. eu acho isso fabuloso: pq o escritor não está descolado de seu tempo, não é? então de certa forma eu concordo e não concordo com o verissimo: não há nenhuma 'função social do escritor', há um entrelaçamento, um pertencer, um refletir (ainda que de maneira refratada, talvez, como a luz branca que se decompõe no prisma), entre o escritor e o mundo em que ele vive. quer queiramos, quer não.

ps: permita-me uma correção: o conto sobre o coelhinho está em 'bestiario', não é? ah, sim, e eu também queria lembrar que: os colhos podem ser alegres e leves, também. como algumas das lembranças do apartamento (talvez a impossibilidade de coisas fora de lugar tenham esse quê de alegria, algo como quase uma alegria não-permitida, uma alegria-consolo, de saber que algo ainda resta, a certeza de que, enfim, 'algumas coisas não mudam nunca...')

um beijo :)

ps2: tem um marcador novo no meu blog, chamado 'memórias'. dá uma olhada nele se você tiver um tempinho ;)

não está descolado de seu tempo, é verdade, bem lembrado.
o livro é um bate-papo, então o tom é mais informal, talvez nesse momento tenha assumido um postura mais de debate, mas não, o título diz muito: Conversa.
só que a expressão "função social" é muito carregada, imagino... sem entrar aqui numa piração conceitual, analiticamente, talvez todos nós possamos ter nossa "função", daí quando alguém diz isso, enuncia, além de soar meio esquisito, deslocado, pra mim, pode soar bastante presunçoso, quase como um ator fora do palco, um professor sem aluno, a impressão que me dá... não sei, é aquela imagem vanguardísitica... por isso tendo a torcer o nariz... mas precisaria pensar melhor sobre isso...

sobre onde está, a versão que tenho está editada em "La isla al mediodia", deve existir outra, sim.

nesse conto é difícil ler o "vomitar un conejito" como algo alegre, Stella ... não sei, interpreto essa carta como suicida...

e tenho lido teu blog, desde que o descobri neste ano. aliás, fica a dica pra todo mundo, é muito bonito! isso de ter um espacinho de reflexão, mesmo que eu tenha reservas grandes com exposição (nóia minha), criação, fazer poesia, crítica, enfim é uma forma de comunicar-nos, seja lá com quem for, até conosco mesmo, como disse o L.F.Verissimo, e isso é muito legal.

ver os meninos (falando como vovô agora) do Beco Livre, você e uma galerinha com quem convivemos esses anos fazendo várias coisas legais por aí, puxa, acho o maior barato!

Beijos!

Outra que nos deve um de seus belos textos!

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