sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Dançando com a Linguagem

. . Por Hugo Ciavatta, com 2 comentários

Existe um pacto implícito aqui: escrevemos e nos lemos para, quem sabe, conversarmos. Contudo, nada garante que o que dizemos é compreendido por nossos interlocutores da mesma forma com que o enunciado foi pensado.

"Ao falar, imaginamos sempre que nos escutam com nossos ouvidos, com a nossa alma (...). A verdade que depositamos nas palavras não abre caminho diretamente, não tem irresistível evidência. Cumpre que decorra o tempo necessário para que se possa formar no interlocutor uma verdade da mesma espécie. E então o adversário político, que, apesar de raciocínios e provas, considerava traidor ao sectário da doutrina oposta, chega a compartilhar das detestadas convicções quando já não interessam aquele que antes tentava inutilmente difundi-las. E assim, a obra que para os admiradores que as liam em voz alta mostrava claramente as suas excelências, ao passo que só chegava aos que ouviam uma imagem de mediocridade ou insensatez, será por estes proclamada obra-prima demasiado tarde para que o autor o possa saber". (Marcel Proust, À sombra das raparigas em flor)

A primeira vez que li o trecho acima, achei um pouco pretensioso, meio arrogante. No entanto, esse dilema acompanha toda expressão da linguagem, imagino. E a linguagem está pra tudo que é canto, por exemplo, numa apresentação de dança.

Sentei pra assistir a outro espetáculo já pensando que seria infrutífero, pois não iria entender nada. O palco era simples, lençóis negros faziam o fundo e as laterais, enquanto a única dançarina, Elisa Massariolli da Costa, se ocupava do terreno praticamente vazio. Apenas uma pequena esteira de palha e um cesto ao fundo a acompanhavam. O início de "Nascedouro" trouxe a trilha sonora com cantos de aves e pássaros e, ao lado da caracterização do corpo da dançarina, como espectadores, sabíamos ser a encenação de uma indígena em meio à floresta. Cada movimento do corpo, cada passo, cada giro, cada corrida, os cantos e gritos, tudo comunicava o enredo do espetáculo: uma tensão permanente entre o sujeito e a mata, o indivíduo e seus pares. Tensão essa, ainda, expressa pelo desejo de proteção de uma mãe em relação ao seu filho. Porém, mais que apenas isso, era possível ler também os momentos de encontro com a natureza, comunicando afinidades entre a mulher, personagem, e a floresta, da mesma forma com os animais que surgiam na trilha sonora, ou ainda na encenação de uma dança-ritual na aldeia. Tudo isso ali, enunciado pelo corpo, pelo correr, pelos passos, pela voz, em quase ruídos, pelo olhar, pelo riso.

Que dançar é uma arte ninguém discute, imagino, só que nem sempre com o corpo.

Em A Casa Verde, Mário Vargas Llosa construiu uma narrativa que, pra mim, somente no meio começou a fazer sentido, afinal, o início é muito confuso, o que é bastante comum em muitos romances, também. Só depois de avançada a leitura me dei conta de que, se não todas, pelo menos algumas das histórias se cruzavam. A maneira com que Llosa escreve é bem dirente também, às vezes, no meio de um parágrafo, acontece um diálogo e o narrador em terceira pessoa vira personagem depois de uma vírgula, e logo volta a ser narrador após outra. Demorei pra pegar o ritmo da escrita dele, que acaba por produzir uma leitura especial, pra conseguir acompanhar o texto.

Lembro que alguns dizem não conseguir, não adianta, por mais que tentem, ler Guimarães Rosa, que preferem que as coisas sejam rápidas, fluídas, claras e objetivas, querem que a escrita não "tropece". Enfim, acho que não sou suspeito pra falar só porque é o autor de que mais gosto, mas, quando se começa a ler Guimarães Rosa, é muito díficil memso, confuso, fechado, perdido, obscuro, misterioso. Daí paciência é importante, e às vezes falta a todo mundo. Grande Sertão: Veredas já tinha deixado no meio e voltei depois de quase dois anos. Quem sabe porque era muito longo e eu estava com preguiça?! Não! Mas quando voltei a ler, depois de uns baita tropeços, tive que ouvir primeiro antes de ler. Foi isso, Guimarães, magicamente, escreve como se acompanhasse um ritmo todo particular. Assim, parece fundamental sentir a musicalidade do texto, os solavancos, as acelerações, a empolgação, todos os sentimentos possíveis que o autor, narrador e personagem dão à história, compondo a escrita e a nossa leitura.

Talvez ler seja como dançar, mesmo que eu não saiba dançar, apenas imagino que sim. Não é porque se pode preferir rock, sertanejo, música clássica, pagode, forró, valsa, samba, axé, funk - bom, já deu pra entender, né?! -, ou o que houver de "estilo" - "jeitão", se preferir -, que não se pode tentar ensaiar, brincar pelo menos num estilo diferente... Sei lá, aprender a dançar é importante quando a gente lê, porque a escrita de cada autor, possivelmente, deve ter um ritmo próprio.


2 palpites:

Interessantes considerações.
Estou seguindo este espaço
Forte abraço.

delícia de leitura...era tudo o que gostaria de dizer no post anterior, mas de forma infinitamente mais bela, o que me dá uma invejinha...

Saramago, no Roda Viva, fez a mesma recomendação, que os leitores que o achassem confuso, lessem em voz alta.

Tenho a mesmíssima impressão de Rosa. E de um autor que adoro, que é Raduan Nassar.

Que seus dias Polianos reflitam textos como este, está ótimo.

Um abração.

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