sábado, 14 de agosto de 2010

Onde Moram As Cidades

. . Por Hugo Ciavatta, com 2 comentários

Todos têm seus podres, portanto, como mais uma pessoa comum, lá estava eu ouvindo Fágner no carro... Fágner, isso, aquele mesmo... E um trecho da canção dizia assim: "Bela é uma cidade velha...". Opa, então quer dizer que, segundo Fágner(!), a nossa capital, Brasília, que neste ano completou cinquenta anos, não deve ser considerada uma bela cidade?! Puxa, mas cinquenta anos não é bastante coisa para uma pessoa - sem querer ofender, muito pelo contrário, isso inspira todo respeito -, meio século? Sim, mas para uma cidade é bem pouco. Se o tempo tem valor diferente para os animais e para as coisas, o que dizer de uma coisa como uma cidade: Brasília é um bebê.

E não foi uma criança inesperada, pelo contrário, nossa capital foi planejada, concebida pelas mãos e imaginação dos arquitetos e urbanistas Lúcio Costa e Oscar Niemeyer. Inspirados por aspectos de uma arquitetura modernista, cujos traços denotam clareza, objetividade, simplicidade e o atendimento a determinadas funções, por exemplo, Brasília privilegiaria em sua concepção o fluxo de automóveis. Contudo, Niemeyer gosta de enfatizar, sem perder as curvas que a paisagem natural inspirava, exemplo de alguns dos prédios ali presentes, e, talvez, da imagem formada pela cidade vista do alto: um pássaro.

Tem história que não precisava ser história, só estória, narrativa inventada. Não? Sim. Sabe aquelas crianças que não param quietas, que ficam fazendo perguntas, perguntas, aporrinhando, e que quando deixam de falar passam a mexer as pernas, depois, se colocadas sentadas é a vez das mãos, dos dedos não pararem? É como se a agitação migrasse de um canto pro outro do corpo a cada instante. E então o que geralmente se faz é ocupá-las. Pois bem, tenho pra mim que um dia (não qualquer, mas O Belo dia) decidiram dar um monte de papel, caneta, sorvete, lápis de cor, doces, pirulitos, chocolates, muitos chocolates, a uma criança dessas, pedindo pra que ela rabiscasse ali, na esperança dela dar sossego. Só que de tão atentado, o pivete fez régua, compasso e esquadro dos palipos de sorvete e pirulitos.

Quem disse que criança só tem menos de doze anos? Que nada! Pegaram os desenhinhos da criança grande e fizeram casas, parques, começaram até a fazer igreja: Antônio Gaudí. A Casa Batló parece ter saído do fundo do mar da imaginação... Há nela uma riqueza de ornamentos, de detalhes em cada pequenino espaço, tudo nos deixa abobalhados... devia ser massa brincar de esconde-esconde por aqueles corredores e andares.

Mas se parece que estou falando de coisas distintas, porque uma casa é um espaço sobretudo privado, fechado, restrito a poucas pessoas – e no caso das casas feitas por Gaudí, também destinadas a estratos sociais muito, muito ricos –, ao invés do planejamento de uma cidade, a riqueza fantástica do universo de Gaudí ainda está presente num parque público, como o Güell. Este, por exemplo, parece ser, antes de mais nada, um ponto de encontro, ou de realização da sociabilidade.

Mais, tenho pra mim que Gaudí tinha um irmão perdido, Ildefonso Cerdá. Foi ele o responsável pelo Plano de urbanização da cidade de Barcelona, no século XIX, cuja principal característica é o quadriculado formado pelo Ensanche. Ademais do cruzamento das largas avenidas e das ruas que, em tese, não diferenciariam transeuntes, o desenho da cidade apontaria, fundamentalmente, para o interior dos pátios criados pela disposição das casas. Pensando num equilíbrio entre privado e público, e também entre os aspectos do rural e do urbano, que privilegiava a ventilação e a construção de jardins, Cerdá viu seu plano sofrer várias críticas pela suposta pequena área construída, e que ainda desvalorizariam as mesmas áreas. Porém, se hoje o Ensache não tem a realidade imaginada por seu idealizador, a história da arquitetura, do urbanismo, ganhou um modelo de cidade bastante difundido e voltado para o que depois seria chamado de espaço público. Espaços nos quais, ao menos, estariam pressupostos o uso coletivo, enquanto a tal realidade, não só espacialmente, continua funcional e segregada.

Não tenho pretensão alguma aqui de estabelecer uma comparação que hierarquize ou sobrevalorize uma cidade em relação à outra, entre Barcelona e Brasília, por aquilo que elas têm enquanto tempo de vida, pelo contrário, quero pensar a experiência de passar, de atravessar, de encontrar, de viver numa cidade. Procurei apenas destacar minhas dúvidas quanto à concepção de uma cidade. Claro, nisto, construí algumas oposições gerais e não escondo minha preferência pela cidade catalã. E Brasília, sim, tem suas belezas, ao contrário do que o verso de Fágner poderia nos fazer pensar, e belezas que podem, inclusive, ficar para outra postagem.

Porque, também, acho que uma cidade deve ser como uma pessoa dormindo, digo, como quando assistimos ao sono de alguém. Uma cidade não está apenas no Planalto Central, ou às margens do Mediterrâneo. Enquanto alguém dorme, imaginamos quem é que habita aquele corpo, um amontoado de matéria. Roubando ainda a idéia de um verso, "
A cidade não mora mais em mim", diria que uma cidade é feita das imagens da memória daqueles que ali vivem, mesmo que de passagem, brincando de amarrar a imaginação, o pensamento e o espaço.

"Tudo isso para que Marco Polo pudesse explicar ou imaginar explicar ou ser imaginado explicando ou finalmente conseguir explicar a si mesmo que aquilo que ele procurava estava diante de si, e, mesmo que se tratasse do passado, era um passado que mudava à medida que ele prosseguia sua viagem, porque o passado do viajante muda de acordo com o itinerário realizado, não o passado recente ao qual cada dia que passa acrescenta um dia, mas um passado mais remoto. Ao chegar a uma nova cidade, o viajante reencontra um passado que não lembrava exisitir: a surpresa daquilo que você deixou de ser ou deixou de possuir revela-se nos lugares estranhos, não nos conhecidos.
Marco entra numa cidade; vê alguém numa praça que vive uma vida ou um instante que poderiam ser seus; ele podia estar no lugar daquele homem se tivesse parado no tempo tanto tempo atrás, ou então se tanto tempo atrás numa encruzilhada tivesse tomado uma estrada em vez de outra e depois de uma longa viagem se encontrasse no lugar daquele homem e naquela praça. Agora, desse passado real ou hipotético ele está excluído; não pode parar; deve prosseguir até uma outra cidade em que outro passado aguarda por ele, ou algo que talvez fosse um possível futuro e que agora é o presente de outra pessoa. Os futuros não realizados são apenas ramos do passado: ramos secos."
(Ítalo Calvino,
As Cidades Invisíveis, p.30)

(À amiga aniversariante Natália Helou Fazzioni)

2 palpites:

"Ao chegar a uma nova cidade, o viajante reencontra um passado que não lembrava exisitir: a surpresa daquilo que você deixou de ser ou deixou de possuir revela-se nos lugares estranhos, não nos conhecidos." ... saudade. (L)
e, honestamente, conheço uma criança de 22 anos! :D

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