segunda-feira, 21 de junho de 2010

Zero, a Bandeira do Zeca

. . Por Hugo Ciavatta, com 12 comentários



- E aí, como é que tá?!
- Ah, sei lá... Noves fora zero... sei lá...
- Cara, que verso mais estranho do Zeca Baleiro, né?! Que significa isso?!
- Pois é, sei lá, por isso deve ter vindo na cabeça, sei lá...

Tudo bem, tudo bem, é ridículo responder “noves fora zero”, mas o verso obscuro nem é de Zeca Baleiro. O cúmulo do ridículo é repetir a resposta outra vez, e muita falta de criatividade, além do mais. Porém, na segunda vez, encontramos uma resposta para o tal obscurantismo do verso. Ele não é do cantor e compositor maranhense, mas de outro ilustríssimo nordestino, pernambucano, Manuel Bandeira. O poema é Belo belo II, que diz assim:

Belo belo minha bela
Tenho tudo que não quero

Não tenho nada que quero

Não quero óculos nem tosse

Nem obrigação de voto

Quero quero

Quero a solidão dos píncaros

A água da fonte escondida

A rosa que floresceu

Sobre a escarpa inacessível

A luz da primeira estrela

Piscando no lusco-fusco

Quero quero

Quero dar a volta ao mundo

Só num navio de vela

Quero rever Pernambuco

Quero ver Bagdá e Cusco

Quero quero

Quero o moreno de Estela

Quero a brancura de Elisa

Quero a saliva de Bela

Quero as sardas de Adalgisa

Quero quero tanta coisa

Belo belo

Mas basta de lero-lero

Vida noves fora zero
.


De qualquer modo, de Zeca Baleiro, ou de Manuel Bandeira, que significa “noves fora zero”? E a resposta que seguia a lembrança de Manuel Bandeira, então, foi de que era algo a respeito de matemática. Como quando se faz uma conta de subtração. No entanto, a explicação parava por aí. Compreensível, afinal, depois de alguns anos fora de uso, o cérebro perde a "matematice", capacidade de realizar operações matemáticas, senão completamente, pelo menos essa parte deve ficar adormecida, sonolenta.
Neste instante, o eterno amigo Google ajuda mas não resolve. Oras, de uma vez por todas, qual é o sentido de “noves fora zero”?? É apenas uma confirmação, só pra ver se a conta realizada está correta. Melhor, desse modo, ver a letra de Zeca Baleiro, cujo nome, não por acaso, é Bandeira:

Eu não quero ver você cuspindo ódio
Eu não quero ver você fumando ópio, pra sarar a dor

Eu não quero ver você chorar veneno

Não quero beber o teu café pequeno

Eu não quero isso seja lá o que isso for

Eu não quero aquele

Eu não quero aquilo

Peixe na boca do crocodilo

Braço da Vênus de Milo acenando tchau

Não quero medir a altura do tombo
Nem passar agosto esperando setembro,

se bem me lembro
(só pra rimar é f...)
O melhor futuro este hoje escuro
O maior desejo da boca é o beijo

Eu não quero ter o Tejo escorrendo das mãos

Quero a Guanabara, quero o Rio Nilo

Quero tudo ter, estrela, flor, estilo

Tua língua em meu mamilo água e sal

Nada tenho vez em quando tudo

Tudo quero mais ou menos quanto

Vida, vida noves fora zero

Quero viver, quero ouvir, quero ver


Se é assim, quero sim, acho que vim pra te ver.


O parênteses em negrito é meu, não resisti. Mas o que interessa, de fato, é a intertextualidade da canção com o poema. Talvez, além de outras referências, ambas recordem uma espécie de balanço do vivido, entre aquelas coisas que se têm, mas não se quer, e aquelas que não se vive, mas se deseja.
Outros versos de Baleiro, dessa vez na divertida canção dele e de Chico César, Eu Detesto Coca Light, recolocam a mesma perspectiva no trecho: “Tolerância zero, fome zero, coca zero/ No quartel do mundo, eu sou o recruta zero/ Quero, quero tanta coisa/ E só me dão o que não quero.
E Zero também é um recruta, como disse a letra acima, só que no quartel de Mort Walker, cartunista estadunidense. No Brasil, Beetle Bailey tornou-se o Recruta Zero e ficou conhecido pela enorme preguiça bem humorada que carrega no exército.

(fonte: http://rodrigojoaquim.wordpress.com/category/tirinhas/)

E por aí vai, porque Noves Fora é nome de outra canção, de Fagner e Belchior, linda – impossível não ser assim – na voz de Elis Regina. Outra vez, alguns versos estão entre somas, subtrações e divisões: “É tudo ou nada/ Noves fora, nada/ A tua falta somada/ A minha vida tão diminuída/ Com esta dor multiplicada/ Pelo fator despedida.
E, por fim, o "zero" é letra também de Noel Rosa, só que sem o "noves fora". Mesmo assim, será que, entre "noves fora zero", somos todos Tipo Zero:

Você é um tipo que não tem tipo
Com todo tipo você se parece

E sendo um tipo que assimila tanto tipo

Passou a ser um tipo que ninguém esquece

O tipo zero não tem tipo


Quando você penetra no salão

E se mistura com a multidão

Esse seu tipo é logo observado

E admirado todo mundo fica

E o seu tipo não se classifica

E você passa a ser um tipo desclassificado

O tipo zero não tem tipo não.


?
__

Obrigado, Lucas Jardim, que se lembrou de Manuel Bandeira, da canção interpretada por Elis Regina, e ainda tentou explicar "noves fora zero"!

12 palpites:

hugão, genial.

por fazer lembrar duas ou três coisas que eu adoro (como o do noel.. hehe muito engraçado) e pela oportunidade de conhecer todo o mais...

mas fica a recordação meio rabugenta de que eu sou de uma das últimas gerações que teve na escola o revolucionário método de "noves fora zero".

mas, como todo o mais que eu aprendi nas aulas de matemática: foi devidamente desaprendido... hehe

smac

Caramba, quanta intertextualidade que eu nem tinha ideia..Fui em um show dele (Zeca Bombonzeiro, quer dizer, Baleiro - péssima essa) bem legal e gratuito no Shopping dom Pedro. Não tinha a mínima ideia do que significava esses versos...

PS: Pra mim não ficou claro o que é o noves fora zero no sentido matemático...Acho que não passei por isso...

Abraços...

belas lembranças, hugo. :) vou falar um pouco do que é o poema do bandeira, pra mim, e onde se encaixa o 'noves fora zero', se me permite! no poema, o eu lírico fala muitas coisas que quer, e é tudo muito bonito. terminar com 'quero quero tanta coisa/ belo belo/ mas basta de lero-lero/ vida novez fora zero' coroa porque deixa (repito, no meu ponto de vista) a ambiguidade latente: 'vida noves fora zero' quer dizer que o que ele quer, 'no fim das contas' (essa é uma expressão que acho, embora pobre e restritiva, ao menos didática e clara 'possível tradução' pra 'noves fora zero'), a vida (porque é a vida todas essas belezas); ou então (e eis a ambiguidade) esse 'vida noves fora zero' também pode ser um 'chega de romancear e de imaginar, porque, na real, o que há é a vida [- que pode ou não ter essas coisas bonitas]' (os colchetes coloquei porque vêm mais ainda de mim, e já acho que tô indo muito além das sugestões do autor (ou não)...).
bom, é mais ou menos isso, depois de tantos parênteses e aspas! será que o que eu falei faz sentido pra mais alguém além de mim?
um beijo,
stella

E tem a nova do Mombojó também, Passarinho Colorido: "...noves fora eu não sou nada não". Pra listinha de afazeres: pesquisar o que, afinal, é esse noves fora zero.

Stela, a ideia que eu tinha, antes de saber do suposto sentido matemático era essa que você demonstrou sob aspas, colcheta e parênteses rs...

De certo modo lembra o enigma do poço do Renato Russo (lá em casa tem um poço, mas a água é muito limpa), não? rss..

Abraços

Stella, fez sentido sim, e de novo sim, pode e me parece uma das mais bonitas leituras do poema e da canção, como um querer sobretudo A Vida, a ambiguidade nela/dela, entre coisas que se quer e não se quer...

Thais, do Mombojó eu ainda não ouvi esta nova canção, mas também adicionei na listinha de afazeres! Sabia que eles tinham voltado depois da morte de um deles e desligamento de outro, enfim, a tocar novamente, mas ainda não ouvi nada mais recente.

lá de onde eu venho, o noves fora zero significa "tanto faz", porque quando vai fazer a continha, quando dá nove, corta, porque se o mantiver dá na mesma... (como disse, já desaprendi... mas é mais ou menos isso)...

quanto à interpretação, não me arriscarei nessa não..

smac

É, concordo com o Thiago Franco, de onde eu vim o "noves fora zero" tem o mesmo significado.
Stella, acho que faz sim todo sentido pra mim também... (Aliás, saudade...) Acho que sempre entendi esse último verso do poema do Bandeira como aquela pitada de "vida real" num mundo de sonhos, essa "queda" no cotidiano, típica do pessimismo sui generis do poeta... Mas nao sei, pode não ser nada disso também...

PS: sou leitora assídua e (até hoje) silenciosa do Mistura Indigesta... Parabéns pelo blog.

Peixe e Renata,
é isso aí, pode ser mesmo o "tanto faz" matemático.
ou, pode ser um basta de lirismo também. em outro verso de Manuel Bandeira, de um poema bem bonito, aliás, Poética, o poeta termina com:
"- Não quero mais saber do lirismo que não é libertação"
talvez no mesmo sentido...

(como diria quintana, citado por alguém de quem não me lembro: "não tem como interpretar um poema, um poema já é uma interpretação")

Hugão,

se ele tivesse escrito isso que você falou também seria um poema legal. mas um poema não é o outro poema. acho que alguma objetividade tem na coisa. pra mim parece que você tá tentando botar uma interpresção sua num poema alheio...

"tanto faz" (indiferença, resignação) é bem diferente de "basta!" (indignação...)

ou não?

smac

Peixe,
sim, o "tanto faz" é muito diferente do "basta", foi isso que tentei dizer com o "ou".
já o último verso do Poética foi apenas uma lembrança, na tentativa de relacioná-lo especificamente com o sentido de "basta", não de dizer que os poemas são os mesmos.
aliás, legal a frase do Quintana. como comentava nos bastidores, via e-mail, com o Chinês, é um sujeito que já deveríamos ter escrito, tem uma simplicidade, um humor e lirismo, todos conjugados de uma forma muito especial!
Beijo

Eu lembrei desse som lendo os comentários. Acho que tem a ver
http://www.youtube.com/watch?v=OgfEjGLgIhI

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