quinta-feira, 10 de junho de 2010

Coisas do interior

. . Por Hugo Ciavatta, com 0 comentários

Faz alguns dias, simplesmente enquanto conversava com meu pai e meu tio, no centro da cidade de Ribeirão Preto, nos aconteceu um feliz encontro. Coisas do interior. Os passantes, volta e meia, eram recordados por ambos, e a mim cabia apenas ouvir, porque nenhum daqueles era do meu tempo, claro. Fisicamente, só chego aos sessenta, se chegar, em quase quatro décadas, já eles, se não chegaram ainda, já ultrapassaram a marca. De figuras lendárias, ricos, ex-ricos, fazendeiros, famílias respeitadas, pés-rapados e agora homens de “sucesso”, ou o inverso, a craques do futebol na cidade, não faltavam velhinhos transeuntes para terem suas memórias procuradas pelos meus “historiadores”. Foi assim que apareceu um simpático ex-jogador do Palmeiras (ou seria Palestra Itália ainda, àquela época?), que depois se transferiu para o Botinha, ou Botafogo F.C. de Ribeirão Preto. Em seguida, Antoninho, como ficou conhecido, seria a primeira negociação do clube da cidade diretamente com o exterior, com um clube italiano.
Antoninho hoje deve ter lá seus mais de setenta anos, mas é um velhinho conservado, como se diz, falante, ativo, bastante sorridente. Quando ele se aproximou da gente, não me lembro porque razão, todos os três, de alguma forma, se conheciam. Coisas do interior. O assunto não poderia ser outro: futebol. Seleção brasileira, Copas do Mundo, grandes craques do passado, o futebol na cidade, e a recente convocação de Dunga eram assuntos que não poderiam faltar. Entretanto, outras reminiscências, recordações, comparações não foram esquecidas, também. Depois de algumas considerações a respeito das atuais dificuldades dos clubes pequenos no futebol, da dificuldade para formar jogadores diante de uma ascensão cada vez mais precoce, Antoninho lembrou um pouco de sua trajetória. Vindo de uma cidadezinha do interior de São Paulo, próximo a Lindóia, pelo que lembro, foi jogar no Palmeiras antes de vir para o Botafogo. Naquele período, final dos anos cinqüenta e início dos sessenta, um jogador de futebol quase não possuía prestígio social. Até pra arranjar namorada era complicado, dizia ele, pois se apresentar para o pai da moça como bolero era assinar o nariz torcido do futuro sogro. A situação é semelhante agora para os sociólogos...
Entre as recordações, o ex-jogador nos contou uma história curiosa, que não deixa esquecer as sucessivas maiores transações do futebol mundial (a última, se não estou enganado, é a de Cristiano Ronaldo, do Manchester United ao Real Madrid). Antoninho, quando foi negociado com o Fiorentina da Itália, na década de 60, nos lembrava da dificuldade que foi para receber a sua parte na negociação, porque, difícil imaginar hoje, não havia banco na cidade de sua família. A retirada do dinheiro teve de ser feita em São Paulo, só depois o montante viajou para o interior. A surpresa maior ainda estava por vir, já que quando chegou ali, na armazém da família, o avô dele, ao ver o pacote de notas sobre o balcão, arregaladamente perguntou: “Quanto será que pesa isso?!”. Coisas do interior.

Anos atrás, li aquele A Hora da Estrela, de Clarice Lispector. Demorei um bocado, apesar do livro ser curtinho, pois me foi uma leitura arrastada. Já no começo fica bem confuso, e nem por isso menos bonito, marcante. São os devaneios do narrador Rodrigo S.M. que, de cara, lança um "Tudo no mundo começa com um sim" e desembesta em reflexões existenciais, desfazendo um possível lirismo romântico da oração inicial. Nesse caso, ao invés de tentar descrever, talvez seja melhor apenas transcrever: "Enquanto eu tiver perguntas e não houver resposta continuarei a escrever. Como começar pelo início, se as coisas acontecem antes de acontecer? Se antes da pré-pré-história já havia os monstros apocalípticos? Se esta história não existe, passará a existir. Pensar é um ato. Sentir é um fato. Os dois juntos - sou eu que escrevo o que estou escrevendo. Deus é o mundo. A verdade é sempre um contato interior e inexplicável. A minha vida, a mais verdadeira, é irreconhecível, extremamente interior e não tem uma só palavra que a signifique." Foi assim que conheci Clarice Lispector (algumas obrigações colegiais a gente agradece), que intriga, angustia e encanta ao mesmo tempo. Porém, se o trecho citado, por exemplo, dentre outros, pode ser profundo, denso, obscuro, sufocando diante de questões tão viscerais, como "coisas do interior", outra oração do livro, já em seu final, à época e ainda hoje, tomara que sempre, muito me inquieta: "Qual é o peso da luz?".
Macabéa, a personagem do livro é... macabéa. Clarice Lispector não somente deu nome a personagem, criou um adjetivo, ora, Macabéa é macabéa, simplesmente. É pobre, pobre de existência, possui uma simplicidade que humilha a si e ao leitor, é insignificante e desprezível, ou seria insignificada e despercebida, numa miséria que não se restringe ao material, pois poderia ser rica e rodeada de bens e permanecer asquerosa. A vida de Macabéa, ela própria, seus interlocutores, diálogos, relações, tudo parece retirado de uma enorme crueldade. Uma violência literária, com a qual a autora resseca, esquadrinha uma personagem para, por fim, mostrar o quanto somos todos macabéa. Vazios.
E, no desfecho do romance, entre os sonhos de glamour de Macabéa, se realiza, ou se atualiza a sua tragédia, ela é morta atropelada. Momento, então, de encontro com uma glória inventada (e qual não é?) e descrita magnificamente por Rodrigo S.M., como se os sentimentos faltantes da história e do mundo narrados, a esperança em relação ao futuro e a beleza do Amor, por exemplo, cruzassem o cenário, ironicamente, para mostrarem as suas ausências, suas inexistências. Rodrigo S.M. pergunta, enfim: "Qual é o peso da luz?". Peso e principalmente luz que depois fui descobrir que pode ser a fama, a celebrização, o reconhecimento, o ser Marilyn Monroe que Macabéa tanto gostaria acontecendo justo na sua morte.

Vale o quanto pesa? Uma nota de cem vale mais que dez moedas de um real, apesar da nota ser mais leve. O valor é simbólico, pessoal e socialmente atribuído. Coisas pesadas ou leves podem valer, ambas, muito, ou absolutamente nada. E quem dá o peso, a Física, a massa dos corpos? Acho que não... A fama, por exemplo, não se "pesa" objetivamente, ainda que ela seja medida a torto e a direito, e tem um valor, muitas vezes, "furado". Clarice Lispector, sim, é "pesada" e possui um interior triste, melancólico e, mesmo assim, de um valor que só a beleza pode atribuir.

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