segunda-feira, 5 de abril de 2010

A gente sômo tudo baiano!

. . Por Hugo Ciavatta, com 2 comentários

Segunda-feira é como qualquer outro dia, mais ou menos. Na cidade, que tem duas estações anuais, um verão chuvoso e outro verão seco com cinco dias de “frio”, o início daquela semana poderia ser como o de qualquer outra, na primeira estação. Por volta das seis da manhã, o sol espreguiçava na garagem que, pintada de branca, reluzia por todos os cantos, é o primeiro despertador avisando que já já é hora de levantar. Sem pressa também, porque se o fim de semana foi de festa em casa, ao som da terrinha e com a cervejinha gelada, o trajeto leva três, quatro quarteirões de casa.
Ray ainda sentia um pouco de zonzeira ao acordar, fruto da longa noite anterior, achou melhor passar um cafezinho bem forte pra dar aquela rebatida e, junto com uma ducha rápida, se preparar, pois um dos homi tinha dito que naqueles dias as coisas ficariam um pouco mais “pesadas”. Resolveu ainda dar uma chacoalhada nos outros dois bródi do “quarto”. O Linel estava ao lado do carro verde, o primeiro depois da parede onde o colchão de Ray estava, e o Nenê parecia já ter levantado, porque o colchão dele estava vazio ao lado do carro vermelho. Quando saiu da garagem e entrou na casa, Ray viu que Nenê já colocara a água pra ferver e estava comendo na cozinha, assim ele entrou logo no banho e Linel foi chamando o restante do pessoal dentro da casa, os outros dezessete que dividiam os três quartos, sala, cozinha e dois banheiros da residência.
A república deles foi recentemente montada, mas não são bixos, não são universitários, ainda que a cidade tenha enorme oferta de faculdades. Não vieram descobrir um mundo diferente, conhecer pessoas novas e viver novas experiências, vá lá, de uma certa forma, pode até ser. Porém, logo logo têm que procurar nova casa na capital da província, serão novas experiências, com certeza. E, conforme um homi lá, todos terão mais oportunidades, também, na capital da outra província do lado, que em alguns anos receberá as Olimpíadas. Raymundo Soares*, o Ray, Linelson Barbosa*, o Linel, e Marco Antônio de Jesus*, o Nenê, já pensam, sonham até, em viver na Cidade Maravilhosa, com certeza aproveitarão os fins de semana daquele bairro importante, as noites de música de um outro, os domingos de estádios cheios então: arregalam os olhos.
Aos poucos vão saindo, um por um, e em cinco minutos chegam ao largo terreno ao lado da lagoa nada limpa do bairro, onde completam o time dos que trabalham na construção dos edifícios de um novo condomínio. A lagoa, apesar de suja, foi alvo de recente disputa judicial, já que a área seria de proteção ambiental, desse modo, a concessão do espaço esteve em litígio por algum tempo. Mas foi rápido, agora a obra já está bem encaminhada, resultado da agilidade do homi, engenheiro do estrangeiro. Joaquim Manoel Olegário Farias de Souza e Campos* aparece pouco por lá. A construtora vai bem por aqui sem ele, que formou uma bela equipe de trabalho, são os Associados da Souza e Campos Ltda*. Joaquim prefere cuidar dos negócios da família em sua terra, que não anda bem economicamente, o que, inclusive, já lhe causou alguns transtornos por conta da empresa aérea que prefere para atravessar o oceano. Nas últimas três vezes, neste ano, que ele voou pela tal empresa, sofreu overbookings que lhe custaram algumas horas, mesmo assim, teve paciência com isso, compreende as dificuldades empresariais: a indenização é justa.
Quando dá umas onze da manhã, o time todo pára pra bater a quentinha, jogam conversa fora, cada um num canto, e se recostam na grama, a sombra de uma árvore, com sorte. Logo retornam e, antes que o dia se esconda, a república já está formada de novo, voltam para a casa próxima. Casa próxima, pois a casa longínqua não é visitada por muitos faz tempo. Nenê, por exemplo, que vira a sobrinha nascer lá no centrão do país, outro dia ouviu da mãe dele, pelo telefone, que a menina já sabe ler. Ray, que engole o choro todas as noites de pensar que a meninazinha de quem gosta tanto se casou com o Mané do Vilarejo, já visitou todo mundo da família nas três vezes que foi ao sul. E Linel, por fim, que tenta de tudo para enviar dinheiro todos os meses aos quatro filhos que ficaram no extremo oeste com a ex-mulher, nos últimos três anos conseguiu visitar toda a família. Os três se encontraram na região norte, no ano passado, uma vez que aquela é a maior área produtora de grãos do país, eles então ali ajudavam no desenvolvimento da região, desbravando a floresta. Nenê e Linel estão nessa vida desde o século passado, mas todos na rép têm em torno de trinta anos.
Naquele final de tarde, preferiram não ligar o som dos carros, pois durante o fim de semana já tinham festado bastante, e, como de costume, ou sem outra opção, pelo cansaço, não levariam aquela noite de segunda-feira muito além das 22h, apenas pegaram o violão do Clodô e prosearam na calçada, por fim.
Do outro lado da rua, no mesmo instante, Dona Firmina* regava o jardim da casa dela e ainda não se conformava: “Nem pra jogar uma água na calçada, como pôde a Sra.Violeta* ter alugado a casa pra esse mundo de baiano?!”. Enquanto isso, também, o marido dela acompanhava pela TV as questões que marcavam as enormes diferenças entre as candidaturas à presidência do país no ano...

(*Nomes e história fictícios)

2 palpites:

foi um contraponto a nous somme tout do Caião? Goste, embora tenha me perdido entre os nomes!

Eu tinha gostado bastante do texto dele, resolvi aproveitar o título de alguma forma, depois que escrevi isso, mas não como um contraponto, Thi.

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