terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Escrever... ahn?

. . Por Hugo Ciavatta, com 3 comentários

Há alguns anos ficou bastante conhecido um livro de Yrving Yalom, psiquiátra e romancista estadounidense, Quando Nietzsche Chorou. Misturando um pouco do que foram as biografias do professor de Freud e do próprio filósofo, Yalom cria uma, senão brilhante, curiosa história em que Nietzsche é paciente de uma embrionária psicanálise. Sem entrar no mérito dos méritos do livro, da literatura, da história, ou mesmo da psicanálise e da filosofia envolvidas, o ousado intento de Yalon merece destaque, afinal, Nietzsche é figura mais do que controvertida para todos nós. Intrigantes são as cartas do filosófo, que o escritor resgata para o contexto criado pelo livro. É sabido que entre elas reside a admiração de Nietzsche por Dostoiévski, do qual, dizem comentadores do filósofo, lhe vieram muitas das reflexões ao longo de sua obra. Também já conhecemos o quanto o mesmo escritor russo é celebrado, tamanha é a apaixonante obsessão dele pela misteriosa mente humana.
Anos mais tarde, depois de Dostoiévski, e quase contemporaneamente a Niezstche, aparecia na outra ponta do continente europeu um sujeito que muito contribuiria ao dito universo, melhor dizendo, só traria caótica maior: Fernando Pessoa. Fernando Pessoa? É. Tudo bem, mas quem? Ele mesmo? Alberto Caeiro? Ricardo Reis? Bernardo Soares? Álvaro de Campos? E sabe lá Deus quantos mais heterônimos, personalidades, traços, orientações e biografias o maluco inventou. Pois bem, se com Nietzche, veja bem, não é um qualquer, Zé Povinho, não, é o tchan tchan tchan... é o Niezstche, a coisa já ficou complicada, agora imagina um carinha fraco das ideias feito o... o Pessoa... Imagina o Fernando Pessoa no divã. Essa eu queria ver, Yalom. Ele não era único, ou diverso, ou desafiador, era simplesmente múltiplo, podia ser muitos, muitos. Não se interessava apenas pela alteridade (a antropologia adora essa palavra), ele sim tornava-se Outro.

(Salto)

Parece que muito tempo depois, em um contexto completamente diferente, Eduardo Viveiros de Casto pode ter encontrado algo parecido quando dá outro sentido a sociedade Tupinambá em "O Mármore e a Murta", de A Inconstâcia da Alma Selvagem. Pois o antropofagia ritual daquela sociedade seria símbolo da abertura para o Outro, a outra sociedade com a qual se relacionavam, do desejo por "ser" o Outro, já que os Tupinambás poderiam desconhecer a noção de identidade personal tal como a nossa (com o perdão devido pelo jargão utilizado) sociedade moderna, de origem judaico-cristã, teria constituído. Tudo bem, desconhecer a noção de identidade tal como o ocidente a conhece não significa que pudessem ser pluri, ou múltiplos, de qualquer forma, quem sabe, diga que poderiam forjar um "novo ser" diante daquilo que o Outro (a sociedade literalmente comida, em vingança) lhe apresentasse. Em resumo, parece que os Tupinambás, que absurdo, tal como Fernando Pessoa, por caminhos tão, tão distantes, também se tornavam Outro.

(O intercâmbio entre planos diferentes, ou dito de outra forma, da psiquê e do social, representa uma profunda falta de rigor.)

Já Enrique Vila-Matas, escritor catalão, em O Mal de Montano, cria a história de um romancista, narrador-personagem, em crise com a própria escrita, ou melhor, que está doente de literatura, enfermidade, por sua vez, que dá título ao livro. Na obra, a personagem sofre por enxergar o mundo, ele próprio e as pessoas com quem convive e que atravessam o cotidiano dele, por meio de comparações com obras, trechos, frases, poemas, escritores, enfim, com a literatura que o mesmo narrador conhece. E, no meio da trama, o filho do narrador, e que também escrevia, passa pela mesma moléstia. Assim se desenrola a história do romance, entre reflexões sobre a condição da literatura e suas possibilidades no mundo em que vivemos, ao mesmo tempo em que somos brindados por referências belas e sutis de autores como Borges, por exemplo, para quem a escrita, além do sentido autoral que possa ter, era também uma forma de diálogo com outras obras. Mais, o que se destaca são as comparações, as referências dos acontecimentos da trama e da posição das personagens, ademais da condição delas no interior da obra, situadas que são com outras histórias, outras ficções, romances. É como se uma história pudesse ser lida não somente pela conexão dos elementos que a constitui, mas por outra muito distante no imaginário da literatura, o que faz com que aquilo que pareça óbvio, normal, inevitável e natural, se abra ricamente em significados, em possibilidades. A obra de Vila-Matas não deixa de ser provocativa, no sentido de que constitui também uma crítica ao nosso mundo tão desencantado, de necessária coerência aos nossos preconceitos, lógicas e quadradinhos fechados de racionalização. Ela é um discreto brilho de surpresa poética, mesmo que não nos reserve uma experiência sensacional de leitura.

Uma passagem de Vila-Matas que pode dar alguma coerência, se é que é possível, à minha preguiça em escrever este presente texto hoje, é a referência do narrador a mãe dele: "Se Geoges Bataille dizia que escrevia para não ficar louco, de minha mãe se poderia dizer que, sendo pessoa sensata na vida real, ficava louca quando escrevia"(p.129).

3 palpites:

Texto bem denso, Hugão. Mas ficou boa a temática do outro na arte e nas "ciências" humanas. Esse tema me dá a impressão que tem material pra mais alguns textos, hahaha

O Vila-Matas me interessou, vc sabe se tem traduzido em português?

Sim, Mekarinho. A edição que li, nossa, já faz quase um ano, foi uma tradução publicada pela Cosac Naify.

Que coisa maluca...Li um livro do Bataille, autor citado pelo Vila-Matas...O livro se chama A Históri da Olho.. Nunca vi um fluxo de consciência mais cru e pornográfico.. Se não lesse o prefácio não entenderia a importância de tanta baixaria pra literatura mundial hehehe..

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