quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Cinema, Passatempo e Confusão

. . Por Hugo Ciavatta, com 4 comentários

Já vai alto o verão, muitos em férias do trabalho, ou da faculdade, ou simplesmente desempregados, outros... nem tanto. Azar destes últimos, ora, podem também procurar alguma coisa interessante pra fazer nas horas vagas, pois elas sempre existem, e como. E se só conseguem pensar “no que fazer?”, podem também seguir pensando enquanto lêem um livro, fazem a caminhadinha diária, sentam em frente ao computador pra “não fazer nada e tentar parar de pensar”, ou não. Um filme é sempre uma boa opção e ir ao cinema, por exemplo, é algo que tende a ficar mais raro, dizem as projeções, afinal, os famosos modos de compartilhamento de arquivos pela internet, a pirataria, ou qualquer outra maneira de ter acesso aos filmes, podem diminuir cada vez mais o trânsito nos salões de pipoca. Pode-se ir a uma vídeo-locadora, também (sim, elas ainda existem, incrível, não?). Qualquer uma das opções pode resultar em horas que passam rápido, pois prendendo os olhos à tela é possível simplesmente esquecer o mundo. Provável que numa sala de cinema isso ocorra mais facilmente, já que as circunstâncias, a temperatura estável, o som, a imagem que invade o campo visual, enfim, tudo contribui para que aquelas horas possam trazer diversão, ou alívio, mais intensos.
Atualmente, nas prateleiras do cinema, o atrativo são os filmes 3D, justamente, dizem, pra que o “ir ao cinema” não se perca, outra vez, devido ao amplo acesso aos filmes. Se você for ao cinema, no caso de estar sozinho, o leque de escolhas deve ser mais restrito. Veja, um filme de terror, ou suspense, é mais divertido se visto ao lado de alguém, quem quer que seja, só pra comentar depois “nossa, que susto levei naquela cena, você não?”, do contrário são grandes as chances de sair somente com o sentimento de medo transbordando por você. Um documentário... só se estiver atento, porque pode cochilar feio ali, e caso esteja acompanhado, que seja de alguém com “simancól”, ora, comentários elaborados, cheios de firulas teóricas ao sair da sala... não dá! Uma aventura, ou um policial podem ser uma boa tanto em grupo como só, não têm muita contra-indicação. Se o humor permitir, um infantil, um desenho animado será ótimo, ou melhor, talvez sempre sejam, em qualquer situação, mas no caso de um mau-humor daqueles, você tem chances de se irritar com aquele menininho que quer fazer xixi e não pára de se mexer e empurrar com o pé a sua, bem a sua poltrona. E, se for o caso, uma comédia, no entanto, a solidão, novamente, às vezes, faz chorar em coisas que, em tese, são de rir, vá acompanhado também. Dramas existências, somente se quiser impressionar a companhia, com intenções que não se confessa, ainda que possa ser infrutífero. Porém, se for com "aquela pessoa especial", ah, esqueça, entra em qualquer sala, não faz diferença, não é mesmo?
Uma passada rápida de olhos pelas ofertas recentes mostra o incansável, nos elogios técnicos e pesadas críticas de roteiro e história, Avatar, é um 3D longo. O ator mais lucrativo e trabalhador da indústria hollywoodiana também aparece, Morgan Freeman, como Nelson Mandela. Tem ainda aquele doido de cabelo bagunçado e, às vezes, de cenas escurecidas, Tim Burton, produzindo algo. Além de uma comédia romântica, ou qualquer outro gênero que complete a estante. Contudo, voltou à cena um sujeito que andava sumido desde aquilo que foi classificado até como “humor-negro” em “Quero ser John Malkovich”: o diretor Spike Jonze, que depois também dirigiu “Adaptação”. O primeiro filme explorava a descoberta de uma porta que permite a qualquer um estar em outra pessoa, ver e sentir o mundo através de outro ser humano que não você, e no caso, através do ator John Malkovich interpretando um John Malkovich. Além de algumas cenas entre a comédia e o drama, a temática é de fundo existencial, claramente, sobre a constituição do EU, daquilo que nos constitui em nossas relações, como nos vemos e somos vistos, desejos, ansiedades, vícios, traumas, enfim, da loucura que é serhumano. Charlie Kaufman é o roteirista de ambos e, no segundo, é também a personagem principal. De novo, a mesma temática reaparece, agora com uma dose ainda maior de metalinguagem, já que a história envolve transpor um livro para os cinemas em meio às crises existenciais da personagem, ele mesmo, Charlie, ainda que a história tenha pouco de autobiográfico. Parece confuso e, de fato, é, assim como com “Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças”, cujo próprio título já complica a história, também escrito por Kaufman.
Também me perdi agora. Voltando. Spike Jonze é quem deu as caras novamente e o recente filme dele, “Onde Vivem os Monstros”, é uma adaptação de um conto infantil do escritor Maurice Sendak. Diga-se de passagem, outro sujeito nada convencional, o escritor é bastante polêmico, inclusive, tendo um texto censurado nos EUA por desenhar o Mickey com pênis, e que só foi publicado depois que o rato mais famoso do mundo ganhou uma fraldinha. O novo filme é dito “infantil”, ainda que possa não ser somente para crianças. Jonze mais do que adapta o conto, que tem pouquíssimas frases, cria um belo filme a respeito do universo infantil e de conflitos pelos quais passamos todos, em qualquer idade. Menos confuso, como os outros filmes, o diretor utiliza recursos para dar movimento às cenas e aos personagens da maneira que um moleque gostaria. Sensível, lírico sem pieguices, reflexivo e divertido, o filme ainda apresenta ótima trilha sonora, assinada por Karen O, vocalista dos Yeah Yeah Yeahs. Não, não são só elogios, pois seguramente muitos terão sono em alguns momentos do filme, que oscila entre as tensões vividas pelo menino-protagonista e pelos monstros, que, por sua vez, são criações do próprio menino, e entre os monstros e o menino. Ai, sujeito confuso esse Spike Jonze. Pelo menos, ele mostra o quão desajeitado é encerrar um filme nas tradicionais classificações, nos epítetos que mais atrapalham que ajudam para sentir o cinema.
É bom ler o horóscopo antes de entrar na sala pra ver “Onde Vivem os Monstros”, porque dependendo se sua condição astral, e se acompanhado ou não, as combinações entres os diferentes fatores podem levar você a sair dali alegre feito um menino correndo numa brincadeira, ou melancólico feito qualquer miserável. Cinema deveria ser mais do que uma mera arte, perfumaria estética, ou erudição barata, poderia ser uma ciência médica, ou farmacológica.

4 palpites:

Vendo esse lance do Avatar me pergunto se daqui pra frente sempre contradição entre a técnica apurada e a qualidade. A forma e o conteúdo. Sabe aquele paradoxo do futebol moderno, onde os jogadores mais eficientes são os menos legais de se ver jogar? Enfim..Gostei tbm dos links no final, totalente sarcasmo rss...bjs!

Hugão, saudades.
Uma coisa que sempre me ocorre - eu que deve ter ido ao cinema não mais que trinta vezes nesta minha vida - quando penso nesse trem é que antes eu gostava mais de ir, quando o cinema de mogi não tinha virado universal do reino de deus. tem três salas adequadas ao tamanho da cidade por aqui, normalmente blóquibústers, mas pra um cara que só gosta de comédias românticas como eu - inda escrevo "porque eu gosto de comédias românticas" - tá bom demais.

essa desilusão de o cinema ter sido monopolizado pela turma do edir macedo foi potencializada ao máximo quando as salas de cinema foram tragadas para dentro dos chópins. mesmo porque este trem fica caro por demais. 5 conto do busão mais os x reais da entrada não é pra mim não...

a propósito, chinês, como sãopaulino da geração do Telê tenho que lembrar que esse paradoxo futebolístico é mais velho que a própria bola, mas que é possível - eu tenho certeza que ainda é - tratar a gordinha como se isso fosse arte... mas este também é um trampo de resistência que pouca gente topa encarar.

Aliás, ponto pro Estevan Soares que deu uma entrevista falando justamente que o Bota além de ganhar tem que jogar bonito... Mas no Bota?? Vai ser osso, heim?

Smac

O cinema virou Igreja peixe?
Achei que só em Lins isso acontecia rsss...aqui tbm virou igreja...Seria a Universal culpada pela falta de público no cinema? rss

honestamente eu acho que uma parcela da culpa cabe ao bispo edir sim, viu...

não que a média de público pré-universal fosse uma maravilha, mas a cidade ficou bem uns anos sem cinema...

pensando na questão da rotina... do hábito...



o bota do estevam tomou de 6 do vasco do dodô - como joga bonito esse f-d-p! e demitiu o treinador que prometia um futebol mais bonito.

posso continuar confiando a cada dia mais nos meus preconceitos...

smac

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