VÍDEO: MURILO CAMPANHA CONTA ITATINGA

O psicanalista Murilo Campanha fala sobre Itatinga, um dos maiores bairros de prostituição da América Latina, onde ele tem seu consultório.

O nadador

Uma crônica de Hugo Ciavatta.

Ainda que as bolachas falassem

Crônica de Fábio Accardo sobre infância e imaginação

Ousemos tocar estrelas

Uma reflexão de Thiago Aoki.

Entre o amarelo e o vermelho

Uma crônica de Hugo Ciavatta

O homem cordial vinhedense

A classe média vai ao barbeiro. Uma crônica de Caio Moretto.

segunda-feira, 11 de julho de 2016

Água que nunca tem sono

. . Por Hugo Ciavatta, com 2 comentários




"Me preparei pra isso, ao longo desses anos todos com vocês, mas tem sido difícil...", meu pai me repetiu, "me preparei pra isso, mas tem sido difícil pra mim...", soluçava. Me lembrei disso, porque nesta semana véinho meu pai decidiu que não vai mais andar de moto. Desde que me conheço por gente – ainda não tinha me encontrado enquanto brócolis –, mesmo sendo mecânico de automóveis, meu pai anda de moto. Ele dirige carro, claro, apenas não gosta de enfrentar trânsito dentro de um. Ao consultar os álbuns de família, se vê que assim que nasci ele tinha uma CB 400 enorme para os anos 1980. Tem foto minha na CB vermelha. Senhora minha mãe gosta de dizer que eu sou meio lelé porque levei um tombo daquela moto. Brincando na garagem, dei com a cabeça no chão ainda pequenino. Acabara de aprender a andar e escalar coisas, fiz isso naquela moto que, ainda hoje, para minha lembrança, era um Everest e, ploft.


A chegada da inconveniente da minha irmã – óbvio, tinha que ser –, deu fim na CB vermelha. As finanças apertaram – faltou àquela aula de Economia, em vez de investimento, preferiu arrocho – e meu pai decidiu ficar somente com a CG 125 azul do dia a dia, 1977, a famosa moto Peixinho. Trinta e oito anos depois de fabricada, sendo roubada pela segunda vez, a Peixinho não foi mais encontrada. Véinho meu pai deu sorte, pois no início do ano passado, antes de levarem a Peixinho, ele tinha tirado uma moto nova. Não sei o nome, a marca. Mas de lá pra cá ele se achava horrores com aquela moto nova, comprou até um outro capacete, fazia pose pra subir, pose pra dirigir. Meu pai é um exibido, e azarado pra cacete. Roubaram a moto nova dele faz dois meses. Quatro assaltantes entraram na casa dos meus pais, os mantiveram como reféns e fizeram um enxoval. Levaram ventilador, micro-ondas, caixa de ferramentas, R$20, e uma televisão 20'. "Casa errada, casa errada", senhora minha mãe conta, os bandidos repetiam alguns minutos depois de vasculharem a casa. Mas também levaram a moto e o carro dos meus pais. O carro, no dia seguinte, foi abandonado, a moto, não. De todo modo, tinha seguro the new La Poderosa.


Cobrei ele algumas vezes nesse período: e aí, cadê a moto, não foi tirar ainda? Ah, não, to vendo o modelo, ele dizia. Da última vez que estive em casa, ele até disse o modelo, falou que deixou reservado na concessionária e esperava receber um dinheiro pra pagar a documentação. Me contava isso no sofá, eu estava deitado no colo dele, a gente assistia à televisão. Ê laiá hein, comichão, não para quieto, falei pra ele, que se mexia muito ali deitado. Ele sorriu amarelo. Depois descobrimos que não era inquietação, eram espasmos na mão e na perna. As idas e vindas ao médico nas últimas semanas e a resposta dele parecem apontar que ele passou pelo efeito colateral de um novo remédio para o colesterol. Tremores, movimentos involuntários nos membros. Parou de dirigir por alguns dias, a mão corria sozinha sobre a mesa enquanto almoçávamos, o pé dava tchauzinho com a perna cruzada. Um mês depois, ao que parece, tudo foi embora, nem sinal desses sintomas.


Nesta semana ele tomou a decisão, nos disse que não quer mais uma moto, que vai usar o dinheiro do seguro pra trocar de carro. Entre a desconfiança – meu pai é cheio de conversa fiada, a vida toda de enrolação, de histórias, não dá pra acreditar nele de imediato, só sendo muito ingênuo – e a surpresa, eu recebi a notícia e, ansioso, comecei a pensar que ele já sentia os tremores e espasmos nos membros há muito tempo, tendo escondido enquanto pode. Afinal, é do meu pai também dar perdido no tempo. Ele estende as coisas, vive tudo demoradamente, vive as coisas duas vezes, revive o passado continuamente, é como se dilatasse o tempo. O relógio segue o fluxo de um segundo após o outro, normalmente, mas meu pai altera a percepção das coisas na vida. Ele chora.


Os médicos disseram que não, que é mesmo efeito colateral do remédio, que agora, de fato, meu pai não está de historinha, que o remédio foi embora. A decisão é dele, véinho meu pai não quer mais uma moto, disse, porque sente que não tem mais concentração para o trânsito sobre uma moto. “Difícil pra mim” foi o que me ocorreu, porque, sim, é difícil pra mim também, sempre associei meu pai a uma moto, à CB vermelha, àquela velha CG 125 azul, a Peixinho, já sem espelhos, sem lanterna, com o banco rasgado, cheia de penduricalhos, folclórica, ou à nova, que potencializou o exibicionismo do velho. Como assim, pai, sem moto?


Sem moto, Hugo. Sem choro, também. Meu pai, que fala chorando, tomou essa decisão e tudo me parece seco, direto, claro. Véinho meu pai, aquele que repetia pra mim ano passado, soluçando, às lágrimas, “me preparei pra isso, ao longo desses anos com vocês, mas tem sido difícil...”. Levamos meses com ele no telefone, minha irmã e eu, mesmo ao chegar para uma visita num fim de semana, ou ao vir embora, ele chorava, chorava, chorava. No aniversário dele, ano passado, eu no trabalho, no meio da tarde, liguei, ele trocou duas, três palavras, perdeu a voz, chorou. Senhora minha mãe caia na gargalhada. Entre o choro – o pai – e o riso – a mãe –, história da minha famiglia.


Era difícil, meu pai dizia, porque tinha se preparado para a ausência dos filhos. No entanto, quando ela chegou, quando minha irmã foi embora, ele não suportou. Eu sei o que é, Hugo, é saudade, ele repetia, tem sido difícil pra mim, eu sinto muita falta de vocês, eu sabia que ia ser assim, mas eu sinto saudade. E chorava. Era o choro contra o tempo, porque cada vez que ele chorava, a gente tinha que parar, prestar atenção, perguntar, mas, pai, o que está acontecendo, está tudo bem. No início ele desconversava. Só depois deu uma resposta. A cada vez que vinham as lágrimas, porém, lá estávamos nós, pai, está tudo bem. Não importava que horas o ônibus saía, tínhamos que ouvir, dizer, engole esse choro, homem-de-Deus, abraçar, repetir, estamos aqui, o que foi. É tão exibido que até pra chorar ele quer confete.


Minha irmã é enfermeira, tem tendência a patologizar as coisas – eu... bem, eu... deixa pra lá –, segundo Helena o choro era síndrome do ninho vazio. Segundo eu mesmo, a boa e velha forma de ganhar tempo do meu pai. A decisão de abandonar a moto, por outro lado, me fez acreditar que não havia choro que lhe desse crédito, de que meu pai, à luz da fragilidade do corpo afetado por um remédio para o colesterol, e mesmo recuperado disso, entendeu seu limite. Ele não conseguiu enrolar, contar uma história sobre uma caixa de bombons em 1967, chorar e desconversar. Como qualquer um, o tempo todo, entretanto, francamente, meu pai está dizendo adeus.


"Há uma hora certa,
no meio da noite, uma hora morta,
em que a água dorme. Todas as águas dormem:
no rio, na lagoa,
no açude, no brejão, nos olhos d'água.
nos grotões fundos.
E quem ficar acordado,
na barranca, a noite inteira,
há de ouvir a cachoeira
parar a queda e o choro,
que a água foi dormir...

Águas claras, barrentas, sonolentas,
todas vão cochilar.
Dormem gotas, caudais, seivas das plantas,
fios brancos, torrentes.
O orvalho sonha
nas placas da folhagem.
E adormece
até a água fervida,
nos copos de cabeceira dos agonizantes...
Mas nem todas dormem, nessa hora
de torpor líquido e inocente.
Muitos hão de estar vigiando,
e chorando, a noite toda,
porque a água dos olhos 
nunca tem sono..."

Sono das Águas

Magma
João Guimarães Rosa.



terça-feira, 14 de junho de 2016

Samuel chorando

. . Por Caio Moretto, com 2 comentários

Samuel aprendeu a falar o próprio nome. Começou com um “El”, mas logo evoluiu para “Sai’el”. Que abstração potente é isso poder falar de si mesmo. Em pouco tempo ele já estava nos avisando de suas próprias atividades (“Sai’el cocozim”, “Sai’el não té naná”) e até de suas próprias sensações (“Sai’el tá fio”, “Sai’el sede").

Uma noite colocamos Samuel no berço, mas ele não quis dormir e começou a gritar de seu quarto: "Sai’el cholando! Sai’el cholando!". Rachamos o bico.

A representação tem suas ciladas. Chorar certamente não é o mesmo que descrever o choro. Mas acho que seria ingênuo acreditar que é "coisa de criança". Dizer "eu te amo", por exemplo, ou um simples "tchau, abraços!" é tão diferente assim?

Passei o dia pensando nisso. Nessa imagem que criamos de nós mesmos, que, muitas vezes, no automático, na repetição, no virtual, vai ressecando, vai substituindo a potência dinâmica que somos nós e vai nos facebookiando nesse simulacro estático que nós usamos para nos descrever e até pensar em nós mesmos. Penso que definitivamente não deve ser coisa de criança. Talvez até o oposto. Imagino que seja o Samuel crescendo. Fico um pouco passado. Venho escrever.

No dia seguinte a rotina se repete. Colocamos o Samuel para dormir e falo "Boa noite, Muca, um beijo". O Samuel não hesita: junta os lábios e "smack!".

Ufa! Posso dormir tranquilo!

quarta-feira, 30 de março de 2016

tem uma coisa

. . Por Hugo Ciavatta, com 0 comentários


Se tem uma coisa que não sou é: eu não sou obrigado.
Estava eu ontem à tarde indo à natação quando, no entorno do hospital, visualizei quatro jovenzinhos com coletes alaranjados e de pranchetinhas em mãos. O pânico me invadiu.
Devem ser do Greenpeace, do projeto Tamar, imaginei. Poderiam ser os Cavaleiros Templários da IV Internacional, não importa, eu tremia. Tentei atravessar a rua, mas meu horóscopo ontem estava péssimo, obscuro, tive receio de morrer atropelado e decidi seguir pela mesma calçada.
Já fiz muita coisa errada na vida, mas nunca atrapalhei o dia e o caminho de ninguém, de um desconhecido pela rua, pra pedir assinatura e dinheiro pra salvar as baleias, impedir o aquecimento global ou construir um playground pras crianças do bairro. Se dependesse da minha firma e do meu surrado dinheirinho, a extinção dos ursos pandas já teria acontecido, a Índia viraria o Saara. Não entra no meu caminho, mano, não atrasa o meu rolê pra me lembrar que a vida, as pessoas e o mundo são um absurdo e completo sem sentido, faz favor.
Poucos metros faltavam e um dos jovenzinhos de colete e prancheta virou-se pra mim abrindo os braços, dizendo, olha quem vem lá. Nem começou abril, um calor ignorante, as pessoas discutindo política como se estivessem na Guerra Fria, a política institucional às claras de tão sombria, sem dúvida regida pela Salvador Dalí, e vou terminar o dia preso por homicídio, pensei. O menino se aproximou, me felicitando. Meu querido, disse ele. Como vai, querido, perguntou. Demos as mãos, e a cara que eu fiz, imagino, foi a minha melhor pior cara. Ele me deixou passar.
Mano, querido? Veja só, na minha gramática, vem de querer. Mano, sequer o ensinamento do filme do Batman você pegou: não é o que você diz, mas o que você faz que te torna algo pras pessoas. Mano, cê me liga? Mano, cê me escreve? Cê me procura com saudades, mano? Mano, eu te devo uma cerveja? Cê dividiu teu sonho de valsa comigo, mano? Te dei uma bronca porque cê fez o que eu disse pra não fazer e ainda assim cuidei de você depois daquele porre, mano? Não, né. 

Então, faz favor, vai salvar as baleias y hacer la revolución, só não me chama de querido, mano, que eu não sou obrigado.


segunda-feira, 7 de março de 2016

Era Pavlov russo?

. . Por Thiago Aoki, com 0 comentários


- A vida é tão lógica como um gato: às vezes dá carinho porque quer comida; às vezes dá carinho mesmo sem querer comida; às vezes - muitas vezes, aliás - sequer dá carinho. Não vale a pena buscar coerência ou explicações.

- Pois é, e depois fica aqueles caras nos programas de televisão: “o gato é um felino caçador, por isso coloque a água longe da ração pra ele imaginar que está cumprindo um trajeto para o rio após a caça e blá blá blá”. E o gato nem aí pra nada disso, apenas puto de ter que andar da lavanderia até o corredor só pra tomar uma água...

- Dá vontade de pegar o cara que disse isso, convidar pra almoçar, colocar o prato com comida na mesa da sala e o copo de refrigerante no criado-mudo do quarto.

- Sim, e um cardápio bem apimentado de preferência... Mas o que isso tem a ver com a vida, tá dizendo que ela é fofinha, comilona, preguiçosa e dorme engraçada, tipo um gato?

- O que quis dizer é que na vida, quando você acha que encontrou um sentido prático, ela se comporta como um gato: danem-se os humanos, eu ajo como eu quero, não busque em mim nexos e linearidades.

- Nossa, que complicação, era mais fácil você dizer que a vida não tem lógica alguma, então.

- Ou que tentar entender racionalmente a vida seja tão improdutivo quanto tentar classificar como causa-efeito as ações de um bichano qualquer. Provavelmente Pavlov não teria sucesso se tivesse feito a experiência com um gato.

- Pavlov?

- Isso, aquele cientista russo que fez o cachorro salivar com um sino.

- Com um sino?

- É, ele fez o cachorro associar o sino com comida. Então quando o cão ouvia um sino ele começava a salivar.

- Por que diabos alguém faria isso com um cachorro? Coitado...

- Dizem que ele foi importante pra entender como nosso cérebro funciona, ou como nosso comportamento pode ser induzido de acordo com as situações.

- Ou manipulado... Dane-se, coitado do cachorro!

- É, dá dó... Pelo menos o Skinner fez com ratos.

- Fez o que?

- As experiências sobre o comportamento. Ele induzia os ratos a fazerem coisas como apertar uma barra pra ganhar comida.

- Coitado dos ratinhos!

- E depois ainda ele ficava reforçando o comportamento com estímulos ou então punindo para que eles deixassem de se comportar daquela maneira. Aquela coisa de reforço positivo, reforço negativo...

- Puta que pariu, que obsessão com isso...

- Com isso o que?

- Isso de querer controlar como todo mundo se comporta. Estimular, punir, reforçar...

- Mas olha que máximo, pensar que todos nossos atos são de alguma maneira induzidos por um monte de fatores inconscientes? Isso significa que nas pequenas coisas que fazemos podemos estar expondo um monte de coisas sobre nós mesmos que a gente mesmo não se dá conta. Acho isso incrível...

- Sim... Você, por exemplo... Ressaltou que o Pavlov era russo, mas não disse que o Skinner era americano...

- Que que tem?

- Oras, esses milhares de fatores inconscientes fizeram com que você dissesse que um era russo e omitisse que o outro era americano. Isso informa sobre você, sobre seus gostos, suas influências. Provavelmente você associa a Rússia a algo ruim, controladora, totalitária e considera os Estados Unidos o lugar da liberdade, dos direitos individuais...

- Ah, tá de brincadeira...

- É sério.. Esse seu, digamos... lapso... deve ter a ver com um monte de coisa: sua adoração por fast food, o modo como você odeia os filmes russos, seu vício por séries estadunidenses, sua paixão pelo Nirvana na adolescência, aquela professora que você odiava, Elvina Nikolaiev, você vive falando nela...

- Nossa, sério mesmo... Nunca ouvi tanta besteira... Sem falar que a dona Elvina - nem me lembre dela! - tinha descendência chechena, não russa...

- Mas na época da União Soviética era a mesma coisa... Mas enfim, fato é que você tem uma quedinha pelos ianques e um rancorzinho dos russos...

- Não diga besteira...

- Não sou eu que estou dizendo, é seu comportamento, as palavras que você escolheu... Os fatores inconscientes... Confessa, vai...

- Confessar o que? Nossa, sério mesmo que estou ainda dando corda pra essa sua teoria estúpida?!

- Não precisa negar, é normal ser imperialista. Tenho até amigos que são...

- Vai se ferrar! Aliás, como raios você sabe que o Skinner é americano se você nem o conhecia?!

- Não sabia, na verdade... Deduzi quando você ressaltou que o outro era russo... É o famoso pensamento binário... A gente tende a classificar o mundo em duas categorias: belo-feio, certo-errado, esquerda-direita, mulher-homem, ímpar-bar, russos-americanos... Logo...

- Logo?! Logo o que?! Ele podia ser afegão, dinamarquês, australiano, sírio, alemão...

- Mas o que ele é afinal?

- Americano, mas isso não quer dizer que...

- Rá! Não disse?! Logo, minha teoria estava certa.

- Logo nada! Logo o que você diz não tem lógica alguma!

- Tipo a vida?

- Tipo os gatos.

- Tipo os cientistas.

domingo, 6 de março de 2016

no metrô

. . Por Hugo Ciavatta, com 1 commentário



a porta fecha, encontro um assento próximo ao fundo do vagão do metrô, de frente para as janelas. o trem começa a se mover e ouço, do outro lado:

- BOM DI.A. DES.CULPA EN.TERROMPER A VI.A.GEM DE VO.CÊS, É MUITO TRIS.TE.UMA.MÃE.NÃO.TER O QUE.DAR DE CO.MIDA PROS SEUS FI.LHOS. TENHO QUA.TRO CRI.AN.ÇAS PE.QUE.NAS.

dentro do túnel, o trem em movimento, o ar sendo cortado invade os ouvidos. procuro com os olhos, encontro uma senhora negra com a boca em movimento. o tempo até a próxima estação é o tempo que ela tem de voz. entre as estação, o tempo também é ruído.

o trem inicia a frenagem, as caixas de som se abrem ao mesmo tempo que ouço novamente aquela senhora:

- Próxima QUALQUER estação CIN.CO Santa CENTA.VOS Cruz A.JUDA

o trem para, as portas se abrem:

- O.BRIGADA OBRI.GA.DA OBRI.GADA.

pessoas passam por ela, o cartaz oficial da concessionária ao fundo pede para denunciar pedido de esmolas. denunciar. ela está com a mão estendida, recebe moedas. ela sai, a porta se fecha. segundos depois o trem adentra o túnel, o ar sendo cortado invade os ouvidos.


terça-feira, 10 de novembro de 2015

Novembro

. . Por Hugo Ciavatta, com 0 comentários





Passei os últimos dias aflito com o telefone, qualquer tilintar pela casa eu já corria os olhos atrás do meu celular. A campainha do vizinho tocava e eu me via ao lado da televisão, onde também está o telefone fixo, acreditando receber uma ligação. Deixei de ignorar as três vezes semanais, ou quase que diárias, em que a operadora de telefonia me liga para oferecer um plano super especial de bônus, mensal, semestral, anual, intersecção com internet, SMS - sim, ainda existe -, conta bancária e crédito pessoal - não entendo como é possível -, mais chamadas de larga distância gratuitas e canais de esporte underground. Atendi todas as ligações crente de que era algo importante, imprescindível, sem ter um motivo, sem ao menos ter uma razão. Tudo o que tinha era apenas um sentimento, um impulso, um reflexo. Mas descobri o porquê hoje pela manhã, estou aliviado. Estamos próximos do fim do ano, em breve vem o Natal: tenho esperado Papai Noel me ligar.

Véinho meu pai é uma pessoa que gosta muito das pessoas, mesmo que não saia por aí demonstrando afeto, sorrindo, cumprimentando e fazendo coraçãozinho com a mão. Ainda que a vida distancie as pessoas, é notável como meu pai gosta de algumas dessas pessoas pela forma com que se interessa por elas, querendo saber delas. É velho fofoqueiro. Pra sacar isso vai um tempo, talvez anos, ele jamais vai admitir, e começo a achar que seja uma virtude - se é que existe isso -, a de não deixar que todos saibam o que quer que seja sobre você. Sendo bem objetivo, ele ultimamente andou perguntando do Rafael, seu sobrinho e meu vizinho. Eles não se veem faz anos. Outra coisa que véinho meu pai lembra bastante é que, uma vez, ficou bravo com Ricardo, também seu sobrinho, mas isso me envolve, e envolve, inclusive, Papai Noel. Ah, como eu gosto do Ricardinho e da Gi, ele diz, puxando o saco, mas aquela vez - meu pai é um escorpiano típico, quando ele diz aquela vez, hmmm, tremei-vos -, aquela vez eu fiquei muito bravo com o Ricardinho.

Não sei quantos anos eu tinha, eu não me lembro, provavelmente eu era muito pequeno, véinho meu pai diz que fez Ricardo me desdizer que Papai Noel não existia. Como qualquer criança que se preze, enquanto se aproximava o Natal, eu não estava nem um pouco preocupado com o nascimento do comunistinha do Jesus de Nazaré. Aniversariante de dezembro, seguramente eu calculava em voz alta o que pediria ao Papai Noel e o que deixaria a cargo dos meus pais no início da constelação de sagitário. Ricardo, alguns anos mais velho, deve ter sacado e, por esporte, mandou logo o clássico, "Papai Noel não existe, prestenção". Inquirido, meu pai, em vez de responder à materialidade das coisas, quis as fontes: sobrou pro Ricardo a bronca.

Como eu não me lembro dessa história, também não me recordo o que ganhei naquele Natal. De todo modo, presentes que me marcaram foram dois. De criança, um autorama enorme, desses que não cabe na sala, não cabe no quarto, que dá trabalho enorme pra montar e faz a gente passar dias com os olhos presos ao chão seguindo aqueles carrinhos velozes. Já adolescente, foi uma bicicleta, que me acompanhou durante mais de dez anos, desaparecendo roubada já no fim da faculdade. O autorama eu tenho até hoje, precisando ser montado dia desses pra desenferrujar. A bicicleta, arma ideológica dos comunistinhas de São Paulo, me faz muita falta. E não, não foi Papai Noel quem me deu esses presentes, eu já sabia naqueles anos, mas ainda não podia afirmar em casa. Papai Noel ligava todos anos em novembro pra saber como estávamos minha irmã e eu. Aval eu não tinha pra desacreditar aquela voz rouca e engraçadinha do outro lado da linha enquanto Helena era criança devota de Papai Noel, mesmo que a adolescência já tivesse me feito pedante. Lá estávamos em novembro, o telefone tocava, meu pai atendia, nos chamava e dizia, cheio de cuidados, é o Papai Noel, ele quer conversar com vocês. Só sendo muito sacana pra levar uma história dessa tantos anos e assistir aos filhos ali, delirando no telefone, sem dar bandeira, em silêncio, ao seu lado no sofá.

Levei muito tempo pra entender uma coisa besta, meu pai curtiu muito a infância e a adolescência minha e da minha irmã. Sessões de teatro, sessões de circo, uma atrás da outra, sessões de teatro, sessões de circo. Vamos andar de bicicleta, vamos nadar. Sessões de teatro, sessões de circo. E, evidentemente, telefonemas do Papai Noel. Se deixar, não duvido que véinho meu pai vá até hoje no fim da madrugada buscar a caçulinha numa festa do outro lado da cidade. Ainda volta falante, contando uma história qualquer de gafieira nos anos 1960. Vai ver que o registro em cartório que deram ao véinho meu pai, de seu nascimento, somente no dia 20 de novembro, explique o seu proceder de leitor de jornais velhos, já que nasceu no dia 10. Até pra completar anos ele leva uns dias pra ser reconhecido oficialmente. Leva tão a sério a coisa de viver demoradamente, quase que duas vezes as coisas todas da vida, que viveu até mesmo a vida dos filhos.

Feliz aniversário, pai, seu mimado, chorão. Obrigado, claro, pelo autorama e pela bicicleta, mas também por ter me feito atormentado pelos telefonemas do Papai Noel. Te amo, do seu filho, piolhento.


segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Os jornais de meu pai

. . Por Hugo Ciavatta, com 0 comentários




Desde que o mundo é o meu mundo, meu pai lê jornais velhos. Do dia anterior, da semana passada, de fevereiro, não importa, ele já foi até mesmo flagrado lendo jornal velho de dois anos. Não é por distração, como quem abre uma caixinha de bombom abandonada no canto da sala imaginando encontrar o paraíso e descobre itens de corte e costura, não, é uma resolução de vida inexplicada, injustificada. Também não é por interesse científico, como um pesquisador, um historiador do cotidiano. Às vezes, penso que esquecido que é do dia a dia, ele lê jornais velhos pra memorizar o que acontece no mundo. Noutras vezes, acho apenas que há quem penteie os cabelos pra direita, há quem prefira a esquerda para as madeixas, uns, pra trás: meu pai lê jornais velhos, só isso.


Com os olhos ainda ligeiramente roxos depois de atropelado, veinho meu pai tem se dedicado efusivamente aos jornais velhos nas últimas semanas. Entre um caderno de notícias Mundo da semana passada, outro sobre Economia, de ontem, ele assiste a Crimes que Desafiam a Justiça, ou coisa que o valha, na tevê a cabo. Deixa a tevê sempre com dois ou três tipos de impressos diferentes, de dias sortidos, e leva-os numa sacola, sentando-se numa cadeira, na calçada, pra tomar sol. Na tevê, não o peguei mais vendo Datena, porque se o faço, ele sabe que dou bronca. Sou bravinho, além de contra o Datena e o Marcelo Resende. Dos impressos, Reinaldo de Azevedo é um que ele sequer pode mencionar, suo frio só de escrever o nome dessa criatura.



Tenho insistido faz anos pra que ele volte a estudar. Ele nega, diz que não tem mais cabeça, que não adianta, não gosta de ler os livros que eu leio, essas ficções, aponta pra estante. Tem um ar de Fahrenheit 451 a fala, eu me arrepio, mas fico quieto. Para não deixá-lo sossegado – afinal, devo fazer jus ao piolhento –, contragolpeei com precisão à última negativa dele: dei minha dissertação exigindo comentários. Véinho meu pai fez cara de me deixa em paz, suspirou mas pegou o texto. Quem não tem sossego agora sou eu, tomar café da manhã e almoçar virou exame de qualificação, banca de defesa. Pergunta daqui, pergunta de lá, ele tá lendo mesmo.



Tá rápido no proceder até. Senhora minha mãe, inclusive, andou revendo a teoria sobre os jornais velhos de véinho meu pai. Para ela, ler jornais velhos é como meu pai acontece, em futuro lento, num presente estendido, ou num passado demorado. Senhora minha mãe ainda não encontrou um conceito que possa resumir tais características de véinho meu pai. Sugeri a noção de eterno retorno, de Nietzsche, ela desconstruiu, disse que não tem nada de eterno, nada de retorno. As coisas acontecem, meu pai, serelepe, passa por elas como se nada tivesse acontecido e, ploft, uma semana depois, a coisa já acabada, ele se dá conta do acontecido como presente, e só então o vive decididamente. Vive quase que duas vezes, ou, melhor dizendo, numa única e demorada vez.



Explico, exemplifico. Um dia ele chegou da oficina empurrando a bicicleta no começo da noite. Ué, furou o pneu, bem, perguntou senhora minha mãe. Não, me senti mal subindo a avenida, parei um pouco, daí resolvi vir caminhando, respondeu o véinho. Mas tá tudo bem, o que é que foi. Ah, não foi nada. Não foi nada naquele dia, porque seis dias depois lá estava ele na mesa de cirurgia, estava infartado. Foi assim, também, com o atropelamento, uma semana depois descobriu que estava com a perna quebrada. A vantagem dessa teoria, senhora minha mãe afirma, é dar perdido na morte, ganhar tempo.



Outro exemplo, mais prosaico, foi hoje pela manhã. Mas isso só na próxima semana, seguramente, é que véinho meu pai estará contando por aí. Enquanto tomava sol na calçada, de ceroulas, lendo jornais velhos, com a perna fraturada apoiada, um popular com a camisa da seleção brasileira de futebol cruzou a rua de bicicleta e lhe gritou:



- Vai pra Cuba, velho barbudo!



Tão longe do marxismo, do leninismo, do trotskismo, de Fidel Castro, ou da Guerra Fria, tão perto da seção de quadrinhos e astrologia, véinho meu pai virou-se pra dentro de casa dizendo:



- Ô bem, cê ouviu, cê viu isso, bem?! Não entendi.



Senhora minha mãe vinha no corredor, e antes que a distância afastasse a compreensão do ciclista, também gritou, em resposta:



- Vai se fuder, filha da puta!



sábado, 4 de julho de 2015

Pósfacio

. . Por Hugo Ciavatta, com 0 comentários



Ao Saulo, que era gaúcho por inveja e agora é mineiro; ao Renato, que continua gostando de queijo; ao Fábio, que tem covinhas, faz um café horrível, só reclama, choraminga e faz drama, por ser único em organizar bagunças dizendo que fez limpeza, mas também por ser imbatível em cruzada de pernas, caras, bocas e sobrancelhas; ao Thiago, meio japonês, meio paraguaio, completamente barrigudinho e bundudo, corintiano e pagodeiro; ao Rodrigo, de quem é melhor não fazer comentários, porque ele se preocupa; à Rita, que insiste em usar roupas amarelas e torcer para o Palmeiras, defendendo igualmente as formigas e o Brasil; ao André Lopes, que virou advogado, desvirou advogado, e será sempre Malinowski; à Lais, que gosta de gatos, cachorros, plantas e de algumas pessoas; ao Patrick, por nunca ter resolvido as paradas na manhã seguinte; ao Caio, por ser grande; à Mari, pelo Caio, e por ter carregado o Samuel por nove meses; ao Mekaru, por ser japonês, nerd, fofinho, teimoso e por se apaixonar muito facilmente; ao Sydnei, que usava bandana e agora vai de topetinho; à Tatiana, por saber tudo de todos os filmes; ao Thiago Peixe, o maior implicante boa vida que se tem notícia; ao Arthur, cujo apelido não faz o menor sentido, mas nunca perde a piada, por ser elegante, perfumado, e jogar conversa fora como ninguém; ao Felipe, por gostar de Guimarães Rosa e falar campinerês fluente; à Natália, que depois que virou bibliografia e, além do mais, carioca, ficou ainda mais popular, e que faz a cara de assustada mais bonita do mundo; à Fernanda, por ser chique e desfazer falsas impressões; ao Samuel, que eu via pela mãe, Neidmar – e de quem eu sinto muitas saudades; à Thais, por ter cabelos encaracolados e enganar todo mundo dizendo que não fala mais palavrão; ao Ariel, que virou antropólogo, mais que todos nós; à Renata, Aline e Liliane, pelos anos na Moradia, e também à Iona, ao Mário, ao Gabriel, ao Marcelo e ao Piá; ao Cadu, por tocar piano, sanfona, ou algo parecido; à Ruth e ao Peter, por serem gringos e com outro Samuel; à Lara, por ser impossivelmente engraçada; ao Julierme, por não ser cachorro banguela e sorrir por qualquer coisa; ao Lucas, que era só um bebê e, agora, meio sociólogo, mas, felizmente, músico; à Camila, que é japinha mas parece índia, que é linda, vegetariana, zen, budista, hare krishna ou algo semelhante; à Elisa, que é igual à Camila, só que dança, não é japonesa nem parece índia, mesmo que adore uma aldeia e caminhe afundando o chão; à Olívia e ao Xuxa, que, apesar de antropólogos, até podem ser legais; ao Henrique, pai do André, da Clarinha e do Diego, por gostar muito de sociologia e, pelo menos, estudar Simmel; à Luisa, que leva Victória no nome, só gosta de pudim se for de leite, adora bichinhos e vive arrumando um “mas e se?” pra tudo; à Stella, que mexe nos cabelos quando está nervosa e, quando não está, também, e de quem é impossível não pegar no pé; à Roberta, por se confundir desconfundindo; ao Diego, por ser rabugento; ao Julian, que usa óculos grandes, carece de palavras mas sobra em gestos e passos de dança iugoslava; à Ana Carolina, que cai a todo momento, levanta-se, sorri e dança; à Bruna, por ser um mito, uma diva, uma musa; à Aline, que é mãe da Flor; ao Igor, pai da Dorinha, pelas dicas de moda; ao Inácio, por rir de si mesmo; à Patrícia, por fazer assim ¬¬; ao Carlos Eduardo, pelo Cruzeeeeiroooo; à Desirée, por falar xis, xis, xis em tudo; à Mariana, pelas gargalhadas que dá; ao Ernenek, por se vestir igual a mim e ser incomparável na invenção de expressões; ao Bernardo, por ser confuso e pai do Mateus; à Graucia, Glacia, Gracia, Glauciela, Godofreda, ou só Glaucia, anyway, que gosta de frases nos muros; ao Berhman, pela Marie Claire e pelo Clement; à Rapha, porque, cara, mano, tá ligado, issae; à Nanda, oh my...; à Teresa, hasteg ésse dois; à Fernanda, pela Gancho; ao Lucas e aos Felipes, pelos vinhos e queijos, cervejas e amendoins; à Millena, por ter certeza de que era o Álvaro quem atendia a porta; à Luisa, por ter espírito tia; à Helena, por ser chata, dorminhoca, chorona e ridícula; ao Adriano, por ser tagarela; à Lis, por ser boboca - enfim, deu pra entender -, gente: muito obrigado.


sexta-feira, 26 de junho de 2015

Coluna do Leitor - Deportações e usos da História

. . Por Mistura Indigesta, com 0 comentários



Narrativas históricas e as deportações iminentes na República Dominicana


Em Milot, vilarejo ao norte do Haiti, a cada dia aumenta a incerteza quanto ao futuro de familiares que cruzaram a fronteira para a República Dominicana. Muitos esperam a chegada massiva de pessoas que serão alvo de expulsão, nomeado pelo eufemismo de “repatriação” do lado dominicano, e outros tantos confiam na possibilidade de que seus parentes consigam escapar da polícia. A lei 168-14, votada pelo Tribunal Constitucional Dominicano, em setembro de 2013, jogou retroativamente milhares de haitianos(as) e dominicanos(as) de origem haitiana em um verdadeiro limbo jurídico. No dia 17 desse mês, chegou ao fim o duvidoso Plano de Regularização de Estrangeiros, e milhares de pessoas nascidas a partir de 1929, julgados como pessoas "em trânsito", perderam sua cidadania por não terem conseguido comprovar a residência de um de seus pais.

Para isso, o Estado e parte da opinião pública da República Dominicana encontram justificativa na (re)produção de uma narrativa histórica de argumentos simplistas, isolados e distorcidos que ganha ares de consenso na mídia dominicana e encontra ecos em jornais estrangeiros: os conflitos e o ódio racial entre as duas nações deita raízes no início do século XIX, precisamente em 1822. Nesse ano, o Haiti, já uma nação livre e independente, fruto das guerras anti-coloniais e de um projeto abolicionista efetivamente universal, estendeu sua jurisdição ao lado dominicano - ainda uma colônia espanhola - unificando a ilha e decretando o fim da escravidão em todo o seu território. O movimento nesse caso é feito por meio do silenciamento de fatos como a participação efetiva e o apoio de vilarejos e de grupos dominicanos à unificação. A esse conjunto de esquecimentos seletivos e oportunistas soma-se ainda a importante participação do Haiti na guerra pela segunda independência da República Dominicana, em 1865, por meio do auxílio às tropas revolucionárias que buscavam suprimentos e munição do lado haitiano e na participação efetiva de colaboradores haitiano-dominicanos no conflito.

Revisões sobre tais episódios foram levadas a cabo por intelectuais-políticos como Juan Bosch, cujo projeto político foi solapado por um golpe de estado de um outro político também afeito à produção de narrativas históricas, o ditador Rafael Trujillo. A partir de 1930, Trujillo iniciou um projeto de “dominicanização da fronteira”, destruindo um rico universo social marcado por trocas, trânsitos e liberdades. Seu projeto político ganhou ainda um viés ideológico centrado, sobretudo, na consolidação do “anti-haitianismo”, política identitária baseada na produção de essencialismos e preconceitos frente à população vizinha, tendo como um dos seus mais marcantes resultados o sangrento massacre de 1937. A simbólica data de 1929 parece ter sido cuidadosamente escolhida pelos juristas que votaram a lei 168-14, desrespeitando a memória desse evento e tentando, sem sucesso, desvincularem-se do fantasma do ditador.

Nesse jogo de produção de narrativas deturpadas e de aplicação de políticas discriminatórias, muitos residentes da República Dominicana começaram a sofrer as consequências dessa lei, aprovada em maio de 2014, expostos(as) a ameaças de expulsão, a abusos e à perda de direitos. Na reprodução de uma imagem de um imigrante perigoso, "em trânsito" e atavicamente atrelado a fatos históricos equivocados, tira-se do campo de visão (e do próprio domínio da razão) a quantidade de riquezas geradas pelo trabalho de haitianos e haitianas nos campos de arroz e de cana-de-açúcar e na construção civil por todo o país.

Se voltarmos ao vilarejo de Milot, o auxílio que familiares vivendo fora do país enviam por meio de remessas garante uma maior diversidade de fontes de renda e a possibilidade de dar conta de instabilidades ecológicas, garantindo recursos para o plantio e a colheita. Recursos muitas vezes mais efetivos do que os planos e projetos de ONGs na região. Se pensarmos ainda no cenário da capital, Porto-Príncipe, devastada pelo terremoto de janeiro 2012, as remessas garantem a continuidade dos esforços de reconstrução de modo mais eficaz do que qualquer outro organismo que tenta gerenciar do alto os enormes fluxos da ajuda internacional.

Na definição das políticas de “lei e de ordem” na República Dominicana, narrativas sobre o passado e a escrita da história tornam-se objeto de disputa pública com atores em posições marcadamente desiguais. Se o passado poderia ser a matéria de um futuro imaginado como um lugar de grandes esperanças, como o é para tantos que migram "buscando a vida", ao invés disso, incertezas se multiplicam em meio a violências que ganham a chancela e a mão pesada do Estado.

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Algumas organizações na República Dominicana que lutam por direitos civis:




Rodrigo Charafeddine Bulamah, de Rondonópolis para o mundo, mestre e doutorando em antropologia pela UNICAMP, atualmente realiza trabalho de campo no Haiti.

segunda-feira, 4 de maio de 2015

Falha moral

. . Por Hugo Ciavatta, com 0 comentários





Julgo livros pela capa. Entrei na livraria do shopping e me deparei com Fidel Castro fumando um charuto, pensei: é um livro feito pra mim! Julgo-me um guerrilheiro, um estadista, acredito-me capaz de discursos intermináveis. O livro estava entre os mais vendidos: desconfiei, sou para poucos. Peguei-o, folheei-o, vi o sumário, li a orelha, dizia que era uma bomba contra a esquerda, desfazendo mitos da esquerda, mostrando a falácia - usava palavras rebuscadas - moral, a hipocrisia dos costumes da esquerda brasileira. Tiro conclusões precipitadas, também. A questão do livro era mostrar que enquanto as pessoas se dizem de esquerda, essas mesmas pessoas, por exemplo, vestem-se de Lacoste. Quer dizer, desde muito, a esquerda tem gostos de burguesia. Vesti a carapuça e, como bom católico, confesso-me.

Pouca gente sabe, felizmente, no meu meio, nos meus círculos sociais versados em progressismo e descolação, mas tenho um defeito de caráter imperdoável: gosto, ou melhor, sou aficionado por tênis. Não, eu não tenho uma coleção de New Balance anos 80', outra de All Star, tampouco tenho um arco íris de cadarços, por favor, para cada modelito de pisante que uso. Sou obcecado pelo esporte da bolinha e da raquete, das quadras de saibro. Levo horas vendo uma partida de cinco sets, perco finais de semana acompanhando as últimas partidas de torneios, viro noites apenas para acompanhar duelos entre grandes jogadores e, infelizmente, só por hoje, ainda não voltei a jogar.

Sim, eu sei jogar tênis. Sei jogar de verdade, não é aquela coisa de apenas brincar no fim de semana e ir lá numa quadra vazia num domingo qualquer com o sobrinho da vizinha e se sujar de terra batida no clube de infância. Dá licença: eu tenho estilo, tá, meu jogo é clássico, meu backhand é de uma mão só, gosto de saque e voleio, não sou empurrador de bola não, tá. Só que entre a pose e a prática, ai ai, lá se vão dez anos sem jogar com regularidade.


- Playboy: esporte de playboy, Hugo! - já posso imaginar os comentários que receberei, os unfriend que estou ganhando a partir de agora.


Dou unfriend, ora, por muito menos. Foi meu pai quem me ensinou a jogar, eu tinha uns 13 anos. Apenas me lembro que entre os 4, 5 anos, nossos finais de semana eram em quadras de tênis, meus primos e eu estávamos sempre ao redor de uma quadra. É só ver os álbuns de família. Papai às vezes jogava esses torneios de clubes pela cidade. Daí veio a chata da minha irmã, que resolveu nascer e, pra variar, estragou o rolê. Senhora minha mãe já havia parado de jogar, papai tomou a mesma decisão. Foi uma opção deles, queriam "aproveitar os filhos". Até hoje eu acho isso uma bobagem, afinal, os filhos já foram embora, depois desses anos todos, e eles não voltaram a jogar. Tornaram-se dependentes das crias.

Já na adolescência, eu não aguentava mais dizerem pra mim que meu pai jogava muito bem tênis. Não aguentava mais ele mesmo se gabando - ele é bom nisso, gaba-se de tudo, impressionante, nem se atreva a falar de dança com ele, o maior pé de valsa das gafieiras - do saque e voleio dele que, diziam, andava em extinção no circuito profissional.

Guga já havia aparecido e se consolidado com um dos melhores jogadores do mundo à época, então aproveitei o afã e pedi ao garboso do meu pai: me ensina esse trem aí. Ele debochou - ele também é bom nisso -, desempoeirou as raquetes e fomos pra quadra.

Mas meu pai, dessa vez, tinha razão, levei meses para me sentir à vontade em uma quadra de tênis. O tempo de saque, o posicionamento para devolver bem, o jogo de pernas e pés para o backhand, como executar bem um slace, quando tentar um drop shot, a movimentação do braço no forehand, enfim, todo um universo novo de minúcias. Sem contar o desenvolvimento da atenção, da observação dos movimentos de seu adversário, seus golpes, seu posicionamento, suas jogadas. Reaprendi a jogar xadrez jogando tênis. Tinha que estar preparado fisicamente pra correr atrás de todas as bolas, treinado e concentrado para acertar e levar a bolinha onde eu queria, e ainda planejar, executar e estar pronto e ligeiro para replanejar constantemente, a cada batida, as jogadas. Tênis é um esporte enlouquecedor.

Óbvio, nunca consegui executar nada disso a contento, do contrário, não estaria aqui hoje e Rafael Nadal teria pelo menos metade dos títulos que tem em Roland-Garros. Mentira, mesmo porque a segunda bola que Nadal levantasse com spin no meu backhand, fácil, irritado eu jogaria bolinha e raquete nele. E porque pouca gente sabe, outra vez, mas agora, infelizmente, sobre a minha pessoa, sobre meu caráter... Quando Nadal apareceu no circuito, o suíço Roger Federer já estava estabelecido, e com este nascia também outra das minhas birras gratuitas: alimento raiva de listas, de coisas mais mais, de pessoas consideradas as melhores de, daqueles maiores do mundo, melhores da história. Tenho faniquito de hipérboles, de orações e frases excessivamente adverbiadas ou adjetivadas. Entendo-me como um sujeito de clareza e objetividade machadianas, ainda que dado a floreios roseanos. Mas sou muito humilde, claro.

Acompanhando a carreira de Gustavo Kuerten, talvez em 1999, 2000, me lembro de ouvir um comentário em transmissão de jogo. Rui Viotti dizia ter visto, em jogo pouco expressivo numa competição, numa quadra pequena, um jovem que batia na bola de um jeito diferente, de um jeito especial. O narrador ficara impressionado e torcia para que não estivesse enganado, que todos pudéssemos ver o suíço a que se referia. Rui Viotti não estava errado, Roger Federer se transformou em ... Roger Federer. Alguns anos depois o suíço se tornou o tenista número 1 do mundo e largamente considerado... o melhor da história.

O melhor tenista da história, grande campeão de tudo, e maior freguês de Rafael Nadal. O canhoto espanhol, que se tornaria, alguns anos depois, "o rei do saibro", despertou em mim outra agonia insuperável ao assistir aos seus jogos. É o sujeito mais cheio de manias de todos os tempos, muy loco repetindo uma porção de gestos dentro de quadra. Maluquice, pra mim, só explicada por uma capacidade infinita de concentração e obediência tática, além de disciplina e disposição física absurdas.

Não me lembro de nada parecido antes de Federer e Nadal - talvez Agassi e Sampras, vão dizer, muitas outras rivalidades -, mas desde que o suíço tomou conta do circuito, tendo logo em seguida aparecido o espanhol, seu grande rival e algoz, e ambos protagonizando uma série de finais e disputas, a tal expressão, "o melhor da História", "de todos os tempos", "o maior", etc., pra mim, como se fosse Dionísio vs Apolo, é um transtorno. De um lado, ficam exaltando a aplicação física e tática de Nadal, com sua habitual força, sua precisão, devolvendo todas as bolas, contra atacando magistralmente. De outro, endeusam a plasticidade de Federer, os pormenores na realização de seus golpes, a raridade de seu jogo, sua versatilidade, a combinação, a variação de seus golpes e posicionamentos. É enfadonho. Atualmente, Novak Djokovic, que neste momento é o tenista número 1 do ranking, passa por algo parecido, as comparações, mesmo que (ainda?) não se fale "da História", ou mesmo que ele apresente uma sequência impressionante de recordes acumulados.

Acúmulos, recordes, vencedores, os maiores, num esporte predominantemente individual, quem sabe o tênis não seja perfeito para a tal cultura do empreendedorismo. Papai deve ter ido jogar tênis por isso, na certa, desejo de ascensão social. Trinta e quatro anos com a mesma CG 125 azulzinha e, em compensação, voleava que era uma beleza. Mas ele mesmo reconhece a chatice que era quando ia jogar e socializar no ambiente do tênis: ah, mecânico, você?! Diziam, surpresos, desconcertados. E a gente mesmo, outro dia, comentava enquanto assistíamos ao último torneio: Rafa e Nole não andam, desfilam; Roger, ao caminhar, sutilmente joga os pés para fora com seu jeitinho, é como se esnobasse todos. Tênis é esporte de playboy.
  
Só que a gente não culpa ninguém, não são esses caras que fizeram do tênis um esporte, em sua maioria, praticado por pessoas ricas. Não é culpa das pessoas ricas, não é culpa do governo, não é culpa dos pobres. Mania que essa gente tem de falar em culpa. A culpa é sempre de alguém, de algo, não importa, a culpa sempre está ali, lá, aqui. A culpa, ah, seus cristãos, a culpa. A culpa é da esquerda. A culpa é da direita. A culpa é da burguesia, a culpa é da hipocrisia. A culpa. A culpa é do Fidel. Avemaria, a Culpa é da história, ué, maldita, a culpa é das relações sociais, benditas. Estar no mundo, habitar um tempo e um espaço, nomeando-os, reconhecendo-os, enfrentando-os, em seus absurdos, paradoxos, pra alguns, é difícil. É duro, só eu sei o que eu passo, mas também vem do tênis meu costume de usar meias altas - meias pretas, aliás -, na altura da canela. É falha de caráter pra quem denuncia a hipocrisia dos esquerdistas que vestem Lacoste. Vamos discutir, então, teoria social e política, que tal?



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