VÍDEO: MURILO CAMPANHA CONTA ITATINGA

O psicanalista Murilo Campanha fala sobre Itatinga, um dos maiores bairros de prostituição da América Latina, onde ele tem seu consultório.

O nadador

Uma crônica de Hugo Ciavatta.

Ainda que as bolachas falassem

Crônica de Fábio Accardo sobre infância e imaginação

Ousemos tocar estrelas

Uma reflexão de Thiago Aoki.

Entre o amarelo e o vermelho

Uma crônica de Hugo Ciavatta

O homem cordial vinhedense

A classe média vai ao barbeiro. Uma crônica de Caio Moretto.

quinta-feira, 10 de novembro de 2016

Release

. . Por Hugo Ciavatta, com 0 comentários





Quando eu era mais novo, toda vez que chegava Release no toca-cd, no micro sistem, ou, depois, no diskman, no final de Ten, eu parava. Até no mp3, no carro, no random que fosse, entrava a vinheta da música e eu ia logo pra tecla > pulando. Tá lá no documentário do Cameron Crowe, Pearl Jam - Twenty, muita gente diz e o próprio Vedder reconhece, assim que escreve e as primeiras vezes em que interpreta a canção o transtornam. Dá pra ver nas primeiras gravações, nos primeiros shows, Release não aparece tanto, e quando aparece é um Eddie sombrio quem canta. Alguém vai dizer, mas também é um dramático que só o vocalista. É. Ainda assim, não tem muito eu-lírico, distanciamento, ou estranhamento no processo criativo, parece, tem é um grande mal resolvido, uma dor na letra. Faz pouco soube que o álbum é pensado a partir de Quadrophenia, do The Who, uma ópera rock toda esquisita. Os álbuns se parecem, é só reparar nas letras, intertextualidades, são sons diferentes, mas há sim um diálogo.

Não gosto muito do lance de “pai” nas coisas da vida. Tem aquela ideia vertical, do Uno, o Rei, que às vezes se transforma em “fundador”, “origem”, e quase sempre como símbolo de autoridade. Taí, como símbolo né, não apenas enquanto pessoa. Pode não ser pai, pode ser mãe, pode ser o irmão da mãe, pode ser só irmão, tio, tia, vizinho, amigo, namorada, companheiro, etc. “Pai” é um símbolo de autoridade. Deve ser por isso o meu contragosto: pelo que me lembro, quando meu próprio pai se investiu de autoridade em relação a mim, putz, não foi legal. Brigamos. Isso da adolescência pra cá, porque durante a infância, e a maior parte do tempo, até hoje, não vejo meu pai como uma figura de autoridade. Ele nunca me bateu, por exemplo, por mais que autoridade e violência não estejam diretamente conectadas ao físico. Às vezes a gente se esquece disso, infelizmente. Me lembro de ver meu pai uma única vez transtornado discutindo com um homem na portaria do zoológico de Ribeirão Preto, eu tinha uns cinco anos, ali ele parecia capaz de violência física. Era como se aquele não fosse meu pai, eu chorava e me levaram embora.

Meu pai é uma companhia gostosa, presente, carinhosa, atencioso. Mas num intervalo grande que está na minha memória, cujo início é aos 4-5 anos, quando começa o lance das cirurgias na orelha, há uma quebra em relação ao meu pai, uma transformação. Minhas primeiras lembranças de vida são em corredores de hospital, no HC da USP, em Ribeirão Preto, no HC da UNICAMP, e em uma clínica em São Paulo. A primeira cirurgia só foi acontecer aos 8 anos, em Campinas, e foram até os 12-13 anos. Meu pai muda radicalmente aí no meio. Depois de uma das cirurgias, eu não me recuperei, tive uma infecção, meu corpo rejeitou a cartilagem de uma das costelas que havia ido pra orelha. Foram três intervenções em vinte dias e um infeliz acaso, um mau encontro.

Meu pai e duas de suas irmãs desde então não se falam. Difícil lembrar onde eu estava semana passada, do que disse e se ainda concordo com meu próprio seminário sobre um livro dias atrás: quase vinte anos depois não me parece possível que alguém saiba o que aconteceu, quem disse o que pra quem, quem fez o quê, quem primeiro disse o que disse e porquê. Meu pai acreditou que estivesse perdendo o primogênito que durante onze anos esperou ter – em sua concepção ideal de família –, e assistiu à emergência de seus rancores, coisas mal resolvidas, conflitos, falas, decisões, relacionamentos afetivos, tudo isso ao longo dos então quase cinquenta anos de sua vida. A partir daí, oscilava, às vezes retirava-se das relações que tinha estabelecido até aquele momento, retirava-se do passado à luz do presente. Observador privilegiado de sua vida, como todos nós, contando-a então insistentemente, vestiu a coroa do Monarca, transformou seu passado num reino sob seu domínio. Sobre coisas ruins, tristes, era como se ele não tivesse feito escolhas, como se ele mesmo não tivesse agência em cada uma das relações que viveu: os outros, a corte era responsável, era como se ele apenas tivesse assistido, incrédulo. Às vezes, por outro lado, para coisas boas, raras, mas felizes, era como se somente ele tivesse feito, era ele, como bom Provedor, quem tomou as decisões. Principalmente, meu pai ao mesmo tempo vestiu a toga do Magistrado, transformou decisões erradas em julgamentos morais intransponíveis, bateu o martelo repetidas vezes, personalizou erros em pessoas, cristalizou todos, sentenciou-os, e também transferiu tudo isso a algumas outras pessoas próximas. E, sim, de alguma forma, ainda me sinto culpado por tudo isso.

Acho que foi aí que conheci o que era autoridade, e não exatamente a do meu pai. Naquele homem aparecia uma autoridade sombria, amarga, lateral, eventual ao longo das semanas, repetitiva em sua aparição, previsível em seu acontecimento. Daquele momento em diante, se hoje aparece faísca disso, sou capaz de apostar a relação que ele estabelecerá, a lembrança seguinte que contará. De certa forma, então, não consigo cantar Oh, Dear Dad, Release Me, porque ali ficou claro que autoridade, em casa, sobretudo, era minha mãe. Além disso, naqueles anos, eu também tive que forjar alguma autoridade em relação a tudo isso. Mesmo antes, meu pai nunca foi alguém que falasse com autoridade, é uma piada nossa até hoje: tudo que ele precisa, quando necessita investir-se de autoridade, seja pra dar bronca nos filhos, seja pra contar alguma coisa da qual ele vai se gabar, é batata, meu pai chama minha mãe. É hilário. Quem se dá bem com isso, tinha que ser, claro, é minha irmã, ela samba na cara do bobo do meu pai. Mas, ali, naqueles anos dessa confusão, também aprendi com minha mãe o que é segurar a onda: ela, muito mais do que eu.

Só tem uma onda que minha mãe não segura até hoje. Já conversamos algumas vezes, mas ela dá de ombros. É comigo. Quando eu nasci, veio uma concha no lugar da orelha esquerda, e o que no ultra som era a mão no rosto, no parto, percebeu-se que eu protegia o lado esquerdo. Eu chorava, a boca virava: má formação crânio-facial. Exames após exames, consultas após consultas, e o interrogatório era sobre minha mãe: que medicamentos a senhora tomou?; a senhora usa alguma tipo de droga?; a senhora tem alguma doença sexual? Não importa se criança, jovem ou idoso, quem parar ao meu lado distraído reparando que uma orelha não é como a outra, ah, se minha mãe estiver por perto esse alguém vai ouvir, “algum problema, que que foi, nunca viu?!”. O que pro meu pai é senso de proteção, em relação aos filhos, pra minha mãe se confunde com belicismo.

Já interrompi minha mãe algumas vezes nessas situações em que sou observado por curiosidade, já conversei em outros momentos sobre isso, porém, não resolveu. Entendi que é ela o eu-lírico de Blood. Minha mãe está dizendo, faz quase trinta anos, Spin me round, roll me over, fuckin' circus, Stab it down, one way needle, pulled so slowly, Drains and spills, soaks the pages, fills their sponges, It's my blood. "It's my blood", minha mãe repete. Não é exatamente como se ela se sentisse culpada, porque os versos em que Vedder ironiza, paint Ed big, turn Ed into, one of my enemies, pra mim, são minha mãe dizendo, paint Hugo big, turn Hugo into, one of my enemies.

Algumas pessoas já chamaram atenção pro fato de eu falar bastante sobre meu pai. Às vezes eu sorrio. Meu pai gosta de dizer que eu sou um velho rabugento, chato e reclamão feito um dos avôs de minha mãe. É que meu pai ainda não conviveu com o Adriano. Mas quando o assunto é definição de pessoa pelas linhagens familiares, é ponto passivo que tenho a ironia, a pentelhação, a sem noçãozice, o espírito circense e quase irresponsável, enfim, o humor de minha mãe. De algum modo, então, não só quando estou aqui falando do meu pai, no entanto, quase sempre por aí afora, as hastes que sustentam as lentes dos meus óculos são minha mãe. Como da infância até a adolescência eu passei por algumas cirurgias, às vezes três num ano, entre uma recuperação e outra cirurgia o tempo era curto. Fiquei muito tempo em casa, com minha mãe, com minha irmã, com minha tia também, com minha avó. Muito antes de ver um filme do Almodóvar eu já tinha conhecido um pouco desse universo. Ainda hoje, não me sinto exatamente bem em ambientes considerados masculinos.

Foi só com minha mãe também que aprendi o que é alguma autonomia. Ela nunca comprou a encrenca do meu pai com o passado dele. Não tomou a relação de meu pai com as irmãs dele pela relação dela mesma com as cunhadas. Foi aos casamentos dos sobrinhos, nesses anos todos, convidada, foi aos aniversários da sogra: meu pai, não. Se meu pai entrava em monólogo sobre seu passado e pedia interlocução, reconhecimento, ela negava, e negava que nós, minha irmã e eu, assumíssemos as relações e associações que ele estabelecia. Quem os vê por aí, sempre de mãos dadas, feito os velhinhos de Up – Altas Aventuras, ou mesmo o casal de Amor, o filme de Haneke, quem assiste a minha mãe contando piada, meu pai não entendendo mas rindo, ou meu pai contando uma história longa e cheia de detalhes que só minha mãe presta atenção, não, quem os vê não se dá conta de que há desentendimentos e diferenças que fortalecem alianças.

Já saindo do período das cirurgias, quando meu pai me ensinou a jogar tênis, um pouco pra que ele também voltasse a jogar, me lembro de como ambos, minha mãe e meu pai, encaravam uma partida de maneiras diferentes. Comigo, meu pai não competia, ele não levantava a bola, ou simplesmente a passava pro outro lado da quadra. Não era assim. Se ele batia firme, era pra que o jogo continuasse. Meu pai dava ritmo, gostava de um jogo de trocas de bola. Minha mãe, tsc, não. Hoje, me lembrando disso, e com algum exagero, evidentemente, era como se estivesse Serena Williams do outro lado da rede distribuindo pancadas enquanto habitava o centro da quadra. A cada estalido da bola na raquete de minha mãe, agora, era como se ela estivesse dizendo Still I Rise. Tantos anos depois, já está mais claro, talvez a única coisa que herdei foi mesmo o humor, careço dessa força.

Ao mesmo tempo, quando o assunto é “a cara de quem”, é meio óbvio que puxei minha mãe. Outro dia, porém, eu olhava meu pai sentado, grisalho, assistindo à TV na casa deles e, mais de trinta anos mais velho, eu me vi fisicamente naquele homem. Ele foi falar alguma coisa, foi se auto-elogiar, minha mãe logo cortou sarcasticamente, tei, pah, todos rimos. Tendo saído dali cerca de 12 anos atrás, morado em cidades diferentes e com dezenas de pessoas, poucas vezes encontro, como naquele momento, a sensação de me sentir em casa.

Meu pai, naquelas semanas, naqueles meses, anos atrás, e mesmo ao longo desses muitos anos, às vezes, me parece Tadeo Isidoro. Aquele que, por longa e complicada que seja uma jornada, pode compreender, pode descobrir, de uma vez por todas, quem é, pode saber a realidade de si próprio, sua natureza, pode conhecer seu destino e o de outras pessoas a partir de momentos únicos, através apenas de alguns instantes. Minha mãe, não, ao longo desses anos parece dizer que seu reflexo côncavo no vidro da lanchonete talvez seja dela uma imagem mais fiel que a lembrança que lhe guardam colegas do colégio, mais exata que a imagem que ela mesma figura de si própria (rf. O Brinco, Ana Martins Marques). E falando assim parece fácil: quero ver ser filho deles, né Helena.

Se uma dor, porque Vedder ainda aparece grave cantando Release, meio blue, desde o lançamento do álbum Ten, em 1991, até os anos 2010 ... vinte e cinco anos depois, quando vi essa apresentação de agosto de 2016 bateu certo alívio, algum otimismo. Logo no início, I see the birds in the rain – ê breguice –, Eddie aparece sorrindo. Lá no meio de um ôôÔôôôÔ novamente, sorrindo. Termina a canção e ele segue sorrindo. É só mais uma canção, que dia bonito, como tem gente, que legal, é o que ele parece dizer. Há, naquele senhor grisalho, sentado, assistindo à TV, ainda aquele homem carinhoso desde minha infância, há também um ar desanuviado, leve, quase adolescente, que eu mesmo não sei se reconheço: talvez tenha desaparecido aquele sombrio e rancoroso – oh, dear dad, feliz aniversário.









segunda-feira, 11 de julho de 2016

Água que nunca tem sono

. . Por Hugo Ciavatta, com 2 comentários




"Me preparei pra isso, ao longo desses anos todos com vocês, mas tem sido difícil...", meu pai me repetiu, "me preparei pra isso, mas tem sido difícil pra mim...", soluçava. Me lembrei disso, porque nesta semana véinho meu pai decidiu que não vai mais andar de moto. Desde que me conheço por gente – ainda não tinha me encontrado enquanto brócolis –, mesmo sendo mecânico de automóveis, meu pai anda de moto. Ele dirige carro, claro, apenas não gosta de enfrentar trânsito dentro de um. Ao consultar os álbuns de família, se vê que assim que nasci ele tinha uma CB 400 enorme para os anos 1980. Tem foto minha na CB vermelha. Senhora minha mãe gosta de dizer que eu sou meio lelé porque levei um tombo daquela moto. Brincando na garagem, dei com a cabeça no chão ainda pequeno. Acabara de aprender a andar e escalar coisas, fiz isso naquela moto que, ainda hoje, para minha lembrança, era um Everest e, ploft.


A chegada da inconveniente da minha irmã – óbvio, tinha que ser –, deu fim na CB vermelha. As finanças apertaram – faltou àquela aula de Economia, em vez de investimento, preferiu arrocho – e meu pai decidiu ficar somente com a CG 125 azul do dia a dia, 1977, a famosa moto Peixinho. Porém, trinta e oito anos depois de fabricada, sendo roubada pela segunda vez, a Peixinho não foi mais encontrada. Véinho meu pai deu sorte, pois no início do ano passado, antes de levarem a Peixinho, ele tinha tirado uma moto nova. Não sei o nome, a marca, mas de lá pra cá ele se achava horrores com aquela moto nova, comprou até um outro capacete, fazia pose pra subir, pose pra dirigir. Meu pai é um exibido, e, se deu sorte uma vez, foi uma vez, porque ele é azarado pra cacete: roubaram a moto nova dele faz dois meses. Quatro assaltantes entraram na casa dos meus pais, os mantiveram como reféns e fizeram um enxoval. Levaram ventilador, micro-ondas, caixa de ferramentas, R$20,00 e uma televisão 14'. "Casa errada, casa errada", senhora minha mãe conta, os bandidos repetiam alguns minutos depois de vasculharem a casa. Mas também levaram a moto e o carro dos meus pais. O carro, no dia seguinte, foi abandonado, a moto, não. De todo modo, tinha seguro the new La Poderosa.


Cobrei ele algumas vezes nesse período: e aí, cadê a moto, não foi tirar ainda? Ah, não, to vendo o modelo, ele dizia. Da última vez que estive em casa, ele até disse o modelo, falou que deixou reservado na concessionária e esperava receber um dinheiro pra pagar a documentação. Me contava isso no sofá, eu estava deitado no colo dele, a gente assistia à televisão. Ê laiá hein, comichão, não para quieto, falei pra ele, que se mexia muito ali deitado. Ele sorriu amarelo. Depois descobrimos que não era inquietação, eram espasmos na mão e na perna. As idas e vindas ao médico nas últimas semanas e a resposta dele parecem apontar que ele passou pelo efeito colateral de um novo remédio para o colesterol. Tremores, movimentos involuntários nos membros. Parou de dirigir por alguns dias, a mão corria sozinha sobre a mesa enquanto almoçávamos, o pé dava tchauzinho com a perna cruzada. Um mês depois, ao que parece, ele está recuperado, quase sem sinal desses sintomas.


Nesta semana, agora, veio a decisão, ele nos disse que não quer mais uma moto, que vai usar o dinheiro do seguro, da moto roubada, pra trocar de carro. Entre a desconfiança – meu pai é cheio de conversa fiada, a vida toda de enrolação, de histórias, não dá pra acreditar nele de imediato, só sendo muito ingênuo – e a surpresa, eu recebi a notícia e, ansioso, comecei a pensar que ele já sentia os tremores e espasmos nos membros há muito tempo, tendo escondido enquanto pode. Afinal, é do meu pai também dar perdido no tempo. Ele estende as coisas, vive tudo demoradamente, vive as coisas duas vezes, revive o passado continuamente, é como se dilatasse o tempo. O relógio segue um segundo após o outro, normalmente, mas meu pai altera a percepção das coisas na vida. Ele chora.


Os médicos disseram que não, que foi mesmo efeito colateral do remédio, e que agora, de fato, meu pai não está de historinha, que o remédio foi embora. A decisão é dele, véinho meu pai não quer mais uma moto, disse, porque sente que não tem mais concentração para o trânsito sobre uma moto. “Difícil pra mim” foi o que me ocorreu, porque, sim, é difícil pra mim também, sempre associei meu pai a uma moto, à CB vermelha, àquela velha CG 125 azul, a Peixinho, já sem espelhos, sem lanterna, com o banco rasgado, cheia de penduricalhos, folclórica, ou à nova, que potencializou o exibicionismo do velho. Como assim, pai, sem moto?


Sem moto, Hugo. Sem choro, também. Meu pai, que fala chorando, tomou essa decisão e tudo me parece seco, direto, claro. Véinho meu pai, aquele que repetia pra mim ano passado, soluçando, às lágrimas, “me preparei pra isso, ao longo desses anos com vocês, mas tem sido difícil...”. Levamos meses com ele no telefone, minha irmã e eu, mesmo ao chegar para uma visita num fim de semana, ou ao vir embora, ele chorava, chorava, chorava. No aniversário dele, ano passado, eu no trabalho, no meio da tarde, liguei, ele trocou duas, três palavras, perdeu a voz, chorou. Senhora minha mãe caia na gargalhada. Entre o choro – o pai – e o riso – a mãe –, história da minha famiglia.


Era difícil, meu pai dizia, porque tinha se preparado para a ausência dos filhos. No entanto, quando ela chegou, quando minha irmã foi embora, ele não suportou. Eu sei o que é, Hugo, é saudade, ele repetia, tem sido difícil pra mim, eu sinto muita falta de vocês, eu sabia que ia ser assim, mas eu sinto saudade. E chorava. Era o choro contra o tempo, porque cada vez que ele chorava, a gente tinha que parar, prestar atenção, perguntar, mas, pai, o que está acontecendo, está tudo bem. No início ele desconversava. Só depois deu uma resposta. A cada vez que vinham as lágrimas, porém, lá estávamos nós, pai, está tudo bem. Não importava que horas o ônibus saía, tínhamos que ouvir, dizer, engole esse choro, homem-de-Deus, abraçar, repetir, estamos aqui, o que foi. É tão exibido que até pra chorar ele quer confete.


Minha irmã é enfermeira, tem tendência a patologizar as coisas – eu... bem, eu... deixa pra lá –, segundo Helena o choro era síndrome do ninho vazio. Segundo eu mesmo, a boa e velha forma de ganhar tempo do meu pai. A decisão de abandonar a moto, por outro lado, me fez acreditar que não havia choro que lhe desse crédito, de que meu pai, à luz da fragilidade do corpo afetado por um remédio para o colesterol, e mesmo recuperado disso, entendeu seu limite. Ele não conseguiu enrolar, contar uma história sobre um almoço em 1967, chorar e desconversar. Como qualquer um, o tempo todo, entretanto, francamente, meu pai está dizendo adeus.


"Há uma hora certa,
no meio da noite, uma hora morta,
em que a água dorme. Todas as águas dormem:
no rio, na lagoa,
no açude, no brejão, nos olhos d'água.
nos grotões fundos.
E quem ficar acordado,
na barranca, a noite inteira,
há de ouvir a cachoeira
parar a queda e o choro,
que a água foi dormir...

Águas claras, barrentas, sonolentas,
todas vão cochilar.
Dormem gotas, caudais, seivas das plantas,
fios brancos, torrentes.
O orvalho sonha
nas placas da folhagem.
E adormece
até a água fervida,
nos copos de cabeceira dos agonizantes...
Mas nem todas dormem, nessa hora
de torpor líquido e inocente.
Muitos hão de estar vigiando,
e chorando, a noite toda,
porque a água dos olhos 
nunca tem sono..."

Sono das Águas

Magma
João Guimarães Rosa.



terça-feira, 14 de junho de 2016

Samuel chorando

. . Por Caio Moretto, com 2 comentários

Samuel aprendeu a falar o próprio nome. Começou com um “El”, mas logo evoluiu para “Sai’el”. Que abstração potente é isso poder falar de si mesmo. Em pouco tempo ele já estava nos avisando de suas próprias atividades (“Sai’el cocozim”, “Sai’el não té naná”) e até de suas próprias sensações (“Sai’el tá fio”, “Sai’el sede").

Uma noite colocamos Samuel no berço, mas ele não quis dormir e começou a gritar de seu quarto: "Sai’el cholando! Sai’el cholando!". Rachamos o bico.

A representação tem suas ciladas. Chorar certamente não é o mesmo que descrever o choro. Mas acho que seria ingênuo acreditar que é "coisa de criança". Dizer "eu te amo", por exemplo, ou um simples "tchau, abraços!" é tão diferente assim?

Passei o dia pensando nisso. Nessa imagem que criamos de nós mesmos, que, muitas vezes, no automático, na repetição, no virtual, vai ressecando, vai substituindo a potência dinâmica que somos nós e vai nos facebookiando nesse simulacro estático que nós usamos para nos descrever e até pensar em nós mesmos. Penso que definitivamente não deve ser coisa de criança. Talvez até o oposto. Imagino que seja o Samuel crescendo. Fico um pouco passado. Venho escrever.

No dia seguinte a rotina se repete. Colocamos o Samuel para dormir e falo "Boa noite, Muca, um beijo". O Samuel não hesita: junta os lábios e "smack!".

Ufa! Posso dormir tranquilo!

quarta-feira, 30 de março de 2016

tem uma coisa

. . Por Hugo Ciavatta, com 0 comentários


Se tem uma coisa que não sou é: eu não sou obrigado.
Estava eu ontem à tarde indo à natação quando, no entorno do hospital, visualizei quatro jovenzinhos com coletes alaranjados e de pranchetinhas em mãos. O pânico me invadiu.
Devem ser do Greenpeace, do projeto Tamar, imaginei. Poderiam ser os Cavaleiros Templários da IV Internacional, não importa, eu tremia. Tentei atravessar a rua, mas meu horóscopo ontem estava péssimo, obscuro, tive receio de morrer atropelado e decidi seguir pela mesma calçada.
Já fiz muita coisa errada na vida, mas nunca atrapalhei o dia e o caminho de ninguém, de um desconhecido pela rua, pra pedir assinatura e dinheiro pra salvar as baleias, impedir o aquecimento global ou construir um playground pras crianças do bairro. Se dependesse da minha firma e do meu surrado dinheirinho, a extinção dos ursos pandas já teria acontecido, a Índia viraria o Saara. Não entra no meu caminho, mano, não atrasa o meu rolê pra me lembrar que a vida, as pessoas e o mundo são um absurdo e completo sem sentido, faz favor.
Poucos metros faltavam e um dos jovenzinhos de colete e prancheta virou-se pra mim abrindo os braços, dizendo, olha quem vem lá. Nem começou abril, um calor ignorante, as pessoas discutindo política como se estivessem na Guerra Fria, a política institucional às claras de tão sombria, sem dúvida regida pela Salvador Dalí, e vou terminar o dia preso por homicídio, pensei. O menino se aproximou, me felicitando. Meu querido, disse ele. Como vai, querido, perguntou. Demos as mãos, e a cara que eu fiz, imagino, foi a minha melhor pior cara. Ele me deixou passar.
Mano, querido? Veja só, na minha gramática, vem de querer. Mano, sequer o ensinamento do filme do Batman você pegou: não é o que você diz, mas o que você faz que te torna algo pras pessoas. Mano, cê me liga? Mano, cê me escreve? Cê me procura com saudades, mano? Mano, eu te devo uma cerveja? Cê dividiu teu sonho de valsa comigo, mano? Te dei uma bronca porque cê fez o que eu disse pra não fazer e ainda assim cuidei de você depois daquele porre, mano? Não, né. 

Então, faz favor, vai salvar as baleias y hacer la revolución, só não me chama de querido, mano, que eu não sou obrigado.


segunda-feira, 7 de março de 2016

Era Pavlov russo?

. . Por Thiago Aoki, com 0 comentários


- A vida é tão lógica como um gato: às vezes dá carinho porque quer comida; às vezes dá carinho mesmo sem querer comida; às vezes - muitas vezes, aliás - sequer dá carinho. Não vale a pena buscar coerência ou explicações.

- Pois é, e depois fica aqueles caras nos programas de televisão: “o gato é um felino caçador, por isso coloque a água longe da ração pra ele imaginar que está cumprindo um trajeto para o rio após a caça e blá blá blá”. E o gato nem aí pra nada disso, apenas puto de ter que andar da lavanderia até o corredor só pra tomar uma água...

- Dá vontade de pegar o cara que disse isso, convidar pra almoçar, colocar o prato com comida na mesa da sala e o copo de refrigerante no criado-mudo do quarto.

- Sim, e um cardápio bem apimentado de preferência... Mas o que isso tem a ver com a vida, tá dizendo que ela é fofinha, comilona, preguiçosa e dorme engraçada, tipo um gato?

- O que quis dizer é que na vida, quando você acha que encontrou um sentido prático, ela se comporta como um gato: danem-se os humanos, eu ajo como eu quero, não busque em mim nexos e linearidades.

- Nossa, que complicação, era mais fácil você dizer que a vida não tem lógica alguma, então.

- Ou que tentar entender racionalmente a vida seja tão improdutivo quanto tentar classificar como causa-efeito as ações de um bichano qualquer. Provavelmente Pavlov não teria sucesso se tivesse feito a experiência com um gato.

- Pavlov?

- Isso, aquele cientista russo que fez o cachorro salivar com um sino.

- Com um sino?

- É, ele fez o cachorro associar o sino com comida. Então quando o cão ouvia um sino ele começava a salivar.

- Por que diabos alguém faria isso com um cachorro? Coitado...

- Dizem que ele foi importante pra entender como nosso cérebro funciona, ou como nosso comportamento pode ser induzido de acordo com as situações.

- Ou manipulado... Dane-se, coitado do cachorro!

- É, dá dó... Pelo menos o Skinner fez com ratos.

- Fez o que?

- As experiências sobre o comportamento. Ele induzia os ratos a fazerem coisas como apertar uma barra pra ganhar comida.

- Coitado dos ratinhos!

- E depois ainda ele ficava reforçando o comportamento com estímulos ou então punindo para que eles deixassem de se comportar daquela maneira. Aquela coisa de reforço positivo, reforço negativo...

- Puta que pariu, que obsessão com isso...

- Com isso o que?

- Isso de querer controlar como todo mundo se comporta. Estimular, punir, reforçar...

- Mas olha que máximo, pensar que todos nossos atos são de alguma maneira induzidos por um monte de fatores inconscientes? Isso significa que nas pequenas coisas que fazemos podemos estar expondo um monte de coisas sobre nós mesmos que a gente mesmo não se dá conta. Acho isso incrível...

- Sim... Você, por exemplo... Ressaltou que o Pavlov era russo, mas não disse que o Skinner era americano...

- Que que tem?

- Oras, esses milhares de fatores inconscientes fizeram com que você dissesse que um era russo e omitisse que o outro era americano. Isso informa sobre você, sobre seus gostos, suas influências. Provavelmente você associa a Rússia a algo ruim, controladora, totalitária e considera os Estados Unidos o lugar da liberdade, dos direitos individuais...

- Ah, tá de brincadeira...

- É sério.. Esse seu, digamos... lapso... deve ter a ver com um monte de coisa: sua adoração por fast food, o modo como você odeia os filmes russos, seu vício por séries estadunidenses, sua paixão pelo Nirvana na adolescência, aquela professora que você odiava, Elvina Nikolaiev, você vive falando nela...

- Nossa, sério mesmo... Nunca ouvi tanta besteira... Sem falar que a dona Elvina - nem me lembre dela! - tinha descendência chechena, não russa...

- Mas na época da União Soviética era a mesma coisa... Mas enfim, fato é que você tem uma quedinha pelos ianques e um rancorzinho dos russos...

- Não diga besteira...

- Não sou eu que estou dizendo, é seu comportamento, as palavras que você escolheu... Os fatores inconscientes... Confessa, vai...

- Confessar o que? Nossa, sério mesmo que estou ainda dando corda pra essa sua teoria estúpida?!

- Não precisa negar, é normal ser imperialista. Tenho até amigos que são...

- Vai se ferrar! Aliás, como raios você sabe que o Skinner é americano se você nem o conhecia?!

- Não sabia, na verdade... Deduzi quando você ressaltou que o outro era russo... É o famoso pensamento binário... A gente tende a classificar o mundo em duas categorias: belo-feio, certo-errado, esquerda-direita, mulher-homem, ímpar-bar, russos-americanos... Logo...

- Logo?! Logo o que?! Ele podia ser afegão, dinamarquês, australiano, sírio, alemão...

- Mas o que ele é afinal?

- Americano, mas isso não quer dizer que...

- Rá! Não disse?! Logo, minha teoria estava certa.

- Logo nada! Logo o que você diz não tem lógica alguma!

- Tipo a vida?

- Tipo os gatos.

- Tipo os cientistas.

domingo, 6 de março de 2016

no metrô

. . Por Hugo Ciavatta, com 1 commentário



A porta fecha, encontro um assento próximo ao fundo do vagão do metrô, de frente para as janelas. O trem começa a se mover e ouço, do outro lado:

- BOM DI.A. DES.CULPA EN.TERROMPER A VI.A.GEM DE VO.CÊS, É MUITO TRIS.TE.UMA.MÃE.NÃO.TER O QUE.DAR DE CO.MIDA PROS SEUS FI.LHOS. TENHO QUA.TRO CRI.AN.ÇAS PE.QUE.NAS.

Dentro do túnel, o trem em movimento, o ar sendo cortado pela velocidade dos vagões invade os ouvidos. Procuro, de quem é a voz estranhamente pausada que, segundos antes, eu ouvia. Entre passageiros de pé, no meio do vagão, está uma senhora negra naquele instante apenas com a boca em movimento, sem voz para os meus ouvidos. O tempo até a próxima estação é o tempo que ela tem para se comunicar. Entre as estações, o tempo também é ruído.

O trem inicia a frenagem, as caixas de som se abrem ao mesmo tempo em que, outra vez, a voz da senhora se faz ouvir:

- Próxima QUALQUER estação CIN.CO Santa CENTA.VOS Cruz A.JUDA

O trem para, as portas se abrem:

- O.BRIGADA OBRI.GA.DA OBRI.GADA.

Passageiros se rearranjam ao redor dela e, ao fundo, o cartaz oficial da concessionária pede para que se denuncie pedidos de esmolas. Denunciar. Ela está com a mão estendida, movimenta-se lentamente em direção à porta e recebe algumas moedas enquanto isso. Antes da porta se fechar, ela sai. Segundos depois o trem adentra o túnel e o ar sendo cortado pela velocidade dos vagões invade os ouvidos.

terça-feira, 10 de novembro de 2015

Novembro

. . Por Hugo Ciavatta, com 0 comentários





Passei os últimos dias aflito com o telefone, qualquer tilintar pela casa eu já corria os olhos atrás do meu celular. A campainha do vizinho tocava e eu me via ao lado da televisão, onde também está o telefone fixo, acreditando receber uma ligação. Deixei de ignorar as três vezes semanais, ou quase que diárias, em que a operadora de telefonia me liga para oferecer um plano super especial de bônus, mensal, semestral, anual, intersecção com internet, SMS - sim, ainda existe -, conta bancária e crédito pessoal - não entendo como é possível -, mais chamadas de larga distância gratuitas e canais de esporte underground. Atendi todas as ligações crente de que era algo importante, imprescindível, sem ter um motivo, sem ao menos ter uma razão. Tudo o que tinha era apenas um sentimento, um impulso, um reflexo. Mas descobri o porquê hoje pela manhã, estou aliviado. Estamos próximos do fim do ano, em breve vem o Natal: tenho esperado Papai Noel me ligar.

Véinho meu pai é uma pessoa que gosta muito das pessoas, mesmo que não saia por aí demonstrando afeto, sorrindo, cumprimentando e fazendo coraçãozinho com a mão. Ainda que a vida distancie as pessoas, é notável como meu pai gosta de algumas dessas pessoas pela forma com que se interessa por elas, querendo saber delas. É velho fofoqueiro. Pra sacar isso vai um tempo, talvez anos, ele jamais vai admitir, e começo a achar que seja uma virtude - se é que existe isso -, a de não deixar que todos saibam o que quer que seja sobre você. Sendo bem objetivo, ele ultimamente andou perguntando do Rafael, seu sobrinho e meu vizinho. Eles não se veem faz anos. Outra coisa que véinho meu pai lembra bastante é que, uma vez, ficou bravo com Ricardo, também seu sobrinho, mas isso me envolve, e envolve, inclusive, Papai Noel. Ah, como eu gosto do Ricardinho e da Gi, ele diz, puxando o saco, mas aquela vez - meu pai é um escorpiano típico, quando ele diz aquela vez, hmmm, tremei-vos -, aquela vez eu fiquei muito bravo com o Ricardinho.

Não sei quantos anos eu tinha, eu não me lembro, provavelmente eu era muito pequeno, véinho meu pai diz que fez Ricardo me desdizer que Papai Noel não existia. Como qualquer criança que se preze, enquanto se aproximava o Natal, eu não estava nem um pouco preocupado com o nascimento do comunistinha do Jesus de Nazaré. Aniversariante de dezembro, seguramente eu calculava em voz alta o que pediria ao Papai Noel e o que deixaria a cargo dos meus pais no início da constelação de sagitário. Ricardo, alguns anos mais velho, deve ter sacado e, por esporte, mandou logo o clássico, "Papai Noel não existe, prestenção". Inquirido, meu pai, em vez de responder à materialidade das coisas, quis as fontes: sobrou pro Ricardo a bronca.

Como eu não me lembro dessa história, também não me recordo o que ganhei naquele Natal. De todo modo, presentes que me marcaram foram dois. De criança, um autorama enorme, desses que não cabe na sala, não cabe no quarto, que dá trabalho enorme pra montar e faz a gente passar dias com os olhos presos ao chão seguindo aqueles carrinhos velozes. Já adolescente, foi uma bicicleta, que me acompanhou durante mais de dez anos, desaparecendo roubada já no fim da faculdade. O autorama eu tenho até hoje, precisando ser montado dia desses pra desenferrujar. A bicicleta, arma ideológica dos comunistinhas de São Paulo, me faz muita falta. E não, não foi Papai Noel quem me deu esses presentes, eu já sabia naqueles anos, mas ainda não podia afirmar em casa. Papai Noel ligava todos anos em novembro pra saber como estávamos minha irmã e eu. Aval eu não tinha pra desacreditar aquela voz rouca e engraçadinha do outro lado da linha enquanto Helena era criança devota de Papai Noel, mesmo que a adolescência já tivesse me feito pedante. Lá estávamos em novembro, o telefone tocava, meu pai atendia, nos chamava e dizia, cheio de cuidados, é o Papai Noel, ele quer conversar com vocês. Só sendo muito sacana pra levar uma história dessa tantos anos e assistir aos filhos ali, delirando no telefone, sem dar bandeira, em silêncio, ao seu lado no sofá.

Levei muito tempo pra entender uma coisa besta, meu pai curtiu muito a infância e a adolescência minha e da minha irmã. Sessões de teatro, sessões de circo, uma atrás da outra, sessões de teatro, sessões de circo. Vamos andar de bicicleta, vamos nadar. Sessões de teatro, sessões de circo. E, evidentemente, telefonemas do Papai Noel. Se deixar, não duvido que véinho meu pai vá até hoje no fim da madrugada buscar a caçulinha numa festa do outro lado da cidade. Ainda volta falante, contando uma história qualquer de gafieira nos anos 1960. Vai ver que o registro em cartório que deram ao véinho meu pai, de seu nascimento, somente no dia 20 de novembro, explique o seu proceder de leitor de jornais velhos, já que nasceu no dia 10. Até pra completar anos ele leva uns dias pra ser reconhecido oficialmente. Leva tão a sério a coisa de viver demoradamente, quase que duas vezes as coisas todas da vida, que viveu até mesmo a vida dos filhos.

Feliz aniversário, pai, seu mimado, chorão. Obrigado, claro, pelo autorama e pela bicicleta, mas também por ter me feito atormentado pelos telefonemas do Papai Noel. Te amo, do seu filho, piolhento.


segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Os jornais de meu pai

. . Por Hugo Ciavatta, com 0 comentários




Desde que o mundo é o meu mundo, meu pai lê jornais velhos. Do dia anterior, da semana passada, de fevereiro, não importa, ele já foi até mesmo flagrado lendo jornal velho de dois anos. Não é por distração, como quem abre uma caixinha de bombom abandonada no canto da sala imaginando encontrar o paraíso e descobre itens de corte e costura, não, é uma resolução de vida inexplicada, injustificada. Também não é por interesse científico, como um pesquisador, um historiador do cotidiano. Às vezes, penso que esquecido que é do dia a dia, ele lê jornais velhos pra memorizar o que acontece no mundo. Noutras vezes, acho apenas que há quem penteie os cabelos pra direita, há quem prefira a esquerda para as madeixas, uns, pra trás: meu pai lê jornais velhos, só isso.


Com os olhos ainda ligeiramente roxos depois de atropelado, veinho meu pai tem se dedicado efusivamente aos jornais velhos nas últimas semanas. Entre um caderno de notícias Mundo da semana passada, outro sobre Economia, de ontem, ele assiste a Crimes que Desafiam a Justiça, ou coisa que o valha, na tevê a cabo. Deixa a tevê sempre com dois ou três tipos de impressos diferentes, de dias sortidos, e leva-os numa sacola, sentando-se numa cadeira, na calçada, pra tomar sol. Na tevê, não o peguei mais vendo Datena, porque se o faço, ele sabe que dou bronca. Sou bravinho, além de contra o Datena e o Marcelo Resende. Dos impressos, Reinaldo de Azevedo é um que ele sequer pode mencionar, suo frio só de escrever o nome dessa criatura.



Tenho insistido faz anos pra que ele volte a estudar. Ele nega, diz que não tem mais cabeça, que não adianta, não gosta de ler os livros que eu leio, essas ficções, aponta pra estante. Tem um ar de Fahrenheit 451 a fala, eu me arrepio, mas fico quieto. Para não deixá-lo sossegado – afinal, devo fazer jus ao piolhento –, contragolpeei com precisão à última negativa dele: dei minha dissertação exigindo comentários. Véinho meu pai fez cara de me deixa em paz, suspirou mas pegou o texto. Quem não tem sossego agora sou eu, tomar café da manhã e almoçar virou exame de qualificação, banca de defesa. Pergunta daqui, pergunta de lá, ele tá lendo mesmo.



Tá rápido no proceder até. Senhora minha mãe, inclusive, andou revendo a teoria sobre os jornais velhos de véinho meu pai. Para ela, ler jornais velhos é como meu pai acontece, em futuro lento, num presente estendido, ou num passado demorado. Senhora minha mãe ainda não encontrou um conceito que possa resumir tais características de véinho meu pai. Sugeri a noção de eterno retorno, de Nietzsche, ela desconstruiu, disse que não tem nada de eterno, nada de retorno. As coisas acontecem, meu pai, serelepe, passa por elas como se nada tivesse acontecido e, ploft, uma semana depois, a coisa já acabada, ele se dá conta do acontecido como presente, e só então o vive decididamente. Vive quase que duas vezes, ou, melhor dizendo, numa única e demorada vez.



Explico, exemplifico. Um dia ele chegou da oficina empurrando a bicicleta no começo da noite. Ué, furou o pneu, bem, perguntou senhora minha mãe. Não, me senti mal subindo a avenida, parei um pouco, daí resolvi vir caminhando, respondeu o véinho. Mas tá tudo bem, o que é que foi. Ah, não foi nada. Não foi nada naquele dia, porque seis dias depois lá estava ele na mesa de cirurgia, estava infartado. Foi assim, também, com o atropelamento, uma semana depois descobriu que estava com a perna quebrada. A vantagem dessa teoria, senhora minha mãe afirma, é dar perdido na morte, ganhar tempo.



Outro exemplo, mais prosaico, foi hoje pela manhã. Mas isso só na próxima semana, seguramente, é que véinho meu pai estará contando por aí. Enquanto tomava sol na calçada, de ceroulas, lendo jornais velhos, com a perna fraturada apoiada, um popular com a camisa da seleção brasileira de futebol cruzou a rua de bicicleta e lhe gritou:



- Vai pra Cuba, velho barbudo!



Tão longe do marxismo, do leninismo, do trotskismo, de Fidel Castro, ou da Guerra Fria, tão perto da seção de quadrinhos e astrologia, véinho meu pai virou-se pra dentro de casa dizendo:



- Ô bem, cê ouviu, cê viu isso, bem?! Não entendi.



Senhora minha mãe vinha no corredor, e antes que a distância afastasse a compreensão do ciclista, também gritou, em resposta:



- Vai se fuder, filha da puta!



sábado, 4 de julho de 2015

Pósfacio

. . Por Hugo Ciavatta, com 0 comentários



Ao Saulo, que era gaúcho por inveja e agora é mineiro; ao Renato, que continua gostando de queijo; ao Fábio, que tem covinhas, faz um café horrível, só reclama, choraminga e faz drama, por ser único em organizar bagunças dizendo que fez limpeza, mas também por ser imbatível em cruzada de pernas, caras, bocas e sobrancelhas; ao Thiago, meio japonês, meio paraguaio, completamente barrigudinho e bundudo, corintiano e pagodeiro; ao Rodrigo, de quem é melhor não fazer comentários, porque ele se preocupa; à Rita, que insiste em usar roupas amarelas e torcer para o Palmeiras, defendendo igualmente as formigas e o Brasil; ao André Lopes, que virou advogado, desvirou advogado, e será sempre Malinowski; à Lais, que gosta de gatos, cachorros, plantas e de algumas pessoas; ao Patrick, por nunca ter resolvido as paradas na manhã seguinte; ao Caio, por ser grande; à Mari, pelo Caio, e por ter carregado o Samuel por nove meses; ao Mekaru, por ser japonês, nerd, fofinho, teimoso e por se apaixonar muito facilmente; ao Sydnei, que usava bandana e agora vai de topetinho; à Tatiana, por saber tudo de todos os filmes; ao Thiago Peixe, o maior implicante boa vida que se tem notícia; ao Arthur, cujo apelido não faz o menor sentido, mas nunca perde a piada, por ser elegante, perfumado, e jogar conversa fora como ninguém; ao Felipe, por gostar de Guimarães Rosa e falar campinerês fluente; à Natália, que depois que virou bibliografia e, além do mais, carioca, ficou ainda mais popular, e que faz a cara de assustada mais bonita do mundo; à Fernanda, por ser chique e desfazer falsas impressões; ao Samuel, que eu via pela mãe, Neidmar – e de quem eu sinto muitas saudades; à Thais, por ter cabelos encaracolados e enganar todo mundo dizendo que não fala mais palavrão; ao Ariel, que virou antropólogo, mais que todos nós; à Renata, Aline e Liliane, pelos anos na Moradia, e também à Iona, ao Mário, ao Gabriel, ao Marcelo e ao Piá; ao Cadu, por tocar piano, sanfona, ou algo parecido; à Ruth e ao Peter, por serem gringos e com outro Samuel; à Lara, por ser impossivelmente engraçada; ao Julierme, por não ser cachorro banguela e sorrir por qualquer coisa; ao Lucas, que era só um bebê e, agora, meio sociólogo, mas, felizmente, músico; à Camila, que é japinha mas parece índia, que é linda, vegetariana, zen, budista, hare krishna ou algo semelhante; à Elisa, que é igual à Camila, só que dança, não é japonesa nem parece índia, mesmo que adore uma aldeia e caminhe afundando o chão; à Olívia e ao Xuxa, que, apesar de antropólogos, até podem ser legais; ao Henrique, pai do André, da Clarinha e do Diego, por gostar muito de sociologia e, pelo menos, estudar Simmel; à Luisa, que leva Victória no nome, só gosta de pudim se for de leite, adora bichinhos e vive arrumando um “mas e se?” pra tudo; à Stella, que mexe nos cabelos quando está nervosa e, quando não está, também, e de quem é impossível não pegar no pé; à Roberta, por se confundir desconfundindo; ao Diego, por ser rabugento; ao Julian, que usa óculos grandes, carece de palavras mas sobra em gestos e passos de dança iugoslava; à Ana Carolina, que cai a todo momento, levanta-se, sorri e dança; à Bruna, por ser um mito, uma diva, uma musa; à Aline, que é mãe da Flor; ao Igor, pai da Dorinha, pelas dicas de moda; ao Inácio, por rir de si mesmo; à Patrícia, por fazer assim ¬¬; ao Carlos Eduardo, pelo Cruzeeeeiroooo; à Desirée, por falar xis, xis, xis em tudo; à Mariana, pelas gargalhadas que dá; ao Ernenek, por se vestir igual a mim e ser incomparável na invenção de expressões; ao Bernardo, por ser confuso e pai do Mateus; à Graucia, Glacia, Gracia, Glauciela, Godofreda, ou só Glaucia, anyway, que gosta de frases nos muros; ao Berhman, pela Marie Claire e pelo Clement; à Rapha, porque, cara, mano, tá ligado, issae; à Nanda, oh my...; à Teresa, hasteg ésse dois; à Fernanda, pela Gancho; ao Lucas e aos Felipes, pelos vinhos e queijos, cervejas e amendoins; à Millena, por ter certeza de que era o Álvaro quem atendia a porta; à Luisa, por ter espírito tia; à Helena, por ser chata, dorminhoca, chorona e ridícula; ao Adriano, por ser tagarela; à Lis, por ser boboca - enfim, deu pra entender -, gente: muito obrigado.


sexta-feira, 26 de junho de 2015

Coluna do Leitor - Deportações e usos da História

. . Por Mistura Indigesta, com 0 comentários



Narrativas históricas e as deportações iminentes na República Dominicana


Em Milot, vilarejo ao norte do Haiti, a cada dia aumenta a incerteza quanto ao futuro de familiares que cruzaram a fronteira para a República Dominicana. Muitos esperam a chegada massiva de pessoas que serão alvo de expulsão, nomeado pelo eufemismo de “repatriação” do lado dominicano, e outros tantos confiam na possibilidade de que seus parentes consigam escapar da polícia. A lei 168-14, votada pelo Tribunal Constitucional Dominicano, em setembro de 2013, jogou retroativamente milhares de haitianos(as) e dominicanos(as) de origem haitiana em um verdadeiro limbo jurídico. No dia 17 desse mês, chegou ao fim o duvidoso Plano de Regularização de Estrangeiros, e milhares de pessoas nascidas a partir de 1929, julgados como pessoas "em trânsito", perderam sua cidadania por não terem conseguido comprovar a residência de um de seus pais.

Para isso, o Estado e parte da opinião pública da República Dominicana encontram justificativa na (re)produção de uma narrativa histórica de argumentos simplistas, isolados e distorcidos que ganha ares de consenso na mídia dominicana e encontra ecos em jornais estrangeiros: os conflitos e o ódio racial entre as duas nações deita raízes no início do século XIX, precisamente em 1822. Nesse ano, o Haiti, já uma nação livre e independente, fruto das guerras anti-coloniais e de um projeto abolicionista efetivamente universal, estendeu sua jurisdição ao lado dominicano - ainda uma colônia espanhola - unificando a ilha e decretando o fim da escravidão em todo o seu território. O movimento nesse caso é feito por meio do silenciamento de fatos como a participação efetiva e o apoio de vilarejos e de grupos dominicanos à unificação. A esse conjunto de esquecimentos seletivos e oportunistas soma-se ainda a importante participação do Haiti na guerra pela segunda independência da República Dominicana, em 1865, por meio do auxílio às tropas revolucionárias que buscavam suprimentos e munição do lado haitiano e na participação efetiva de colaboradores haitiano-dominicanos no conflito.

Revisões sobre tais episódios foram levadas a cabo por intelectuais-políticos como Juan Bosch, cujo projeto político foi solapado por um golpe de estado de um outro político também afeito à produção de narrativas históricas, o ditador Rafael Trujillo. A partir de 1930, Trujillo iniciou um projeto de “dominicanização da fronteira”, destruindo um rico universo social marcado por trocas, trânsitos e liberdades. Seu projeto político ganhou ainda um viés ideológico centrado, sobretudo, na consolidação do “anti-haitianismo”, política identitária baseada na produção de essencialismos e preconceitos frente à população vizinha, tendo como um dos seus mais marcantes resultados o sangrento massacre de 1937. A simbólica data de 1929 parece ter sido cuidadosamente escolhida pelos juristas que votaram a lei 168-14, desrespeitando a memória desse evento e tentando, sem sucesso, desvincularem-se do fantasma do ditador.

Nesse jogo de produção de narrativas deturpadas e de aplicação de políticas discriminatórias, muitos residentes da República Dominicana começaram a sofrer as consequências dessa lei, aprovada em maio de 2014, expostos(as) a ameaças de expulsão, a abusos e à perda de direitos. Na reprodução de uma imagem de um imigrante perigoso, "em trânsito" e atavicamente atrelado a fatos históricos equivocados, tira-se do campo de visão (e do próprio domínio da razão) a quantidade de riquezas geradas pelo trabalho de haitianos e haitianas nos campos de arroz e de cana-de-açúcar e na construção civil por todo o país.

Se voltarmos ao vilarejo de Milot, o auxílio que familiares vivendo fora do país enviam por meio de remessas garante uma maior diversidade de fontes de renda e a possibilidade de dar conta de instabilidades ecológicas, garantindo recursos para o plantio e a colheita. Recursos muitas vezes mais efetivos do que os planos e projetos de ONGs na região. Se pensarmos ainda no cenário da capital, Porto-Príncipe, devastada pelo terremoto de janeiro 2012, as remessas garantem a continuidade dos esforços de reconstrução de modo mais eficaz do que qualquer outro organismo que tenta gerenciar do alto os enormes fluxos da ajuda internacional.

Na definição das políticas de “lei e de ordem” na República Dominicana, narrativas sobre o passado e a escrita da história tornam-se objeto de disputa pública com atores em posições marcadamente desiguais. Se o passado poderia ser a matéria de um futuro imaginado como um lugar de grandes esperanças, como o é para tantos que migram "buscando a vida", ao invés disso, incertezas se multiplicam em meio a violências que ganham a chancela e a mão pesada do Estado.

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Algumas organizações na República Dominicana que lutam por direitos civis:




Rodrigo Charafeddine Bulamah, de Rondonópolis para o mundo, mestre e doutorando em antropologia pela UNICAMP, atualmente realiza trabalho de campo no Haiti.

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